Comissão denuncia abusos e maus-tratos contra jornalistas palestinianos
O Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) denunciou hoje que dezenas de repórteres palestinianos libertados das prisões israelitas alegam ter sofrido abusos sistemáticos, incluindo negligência médica e violência sexual, durante a sua detenção.
O relatório, baseado em 59 entrevistas com jornalistas palestinianos libertados entre outubro de 2023 e janeiro de 2026, indica que 58 deles afirmaram ter sido sujeitos a tortura, maus-tratos ou outras formas de violência enquanto estavam sob custódia israelita.
O CPJ documenta ainda que pelo menos 94 jornalistas palestinianos foram detidos durante este período, 30 dos quais permanecem presos até hoje.
Mais de 80% dos jornalistas inquiridos não foram formalmente acusados de qualquer crime e foram mantidos sob o sistema de detenção administrativa de Israel, que permite a detenção de uma pessoa sem acusações por períodos renováveis, observa a organização.
Os restantes jornalistas enfrentaram acusações como incitamento ou atividades contra o Estado, acrescenta o relatório.
Nos seus depoimentos, os jornalistas descrevem "espancamentos repetidos, alguns resultando em fraturas e ferimentos graves, exposição prolongada a música alta para os privar do sono, posições forçadas durante horas, ameaças psicológicas e, em alguns casos, agressões sexuais, incluindo violação".
Especificamente, dois dos 59 inquiridos disseram ter sido violados durante a detenção.
O relatório inclui ainda 27 casos de alegada negligência médica com base nas declarações dos jornalistas, que alegam que os seus ferimentos não foram tratados ou que receberam "cuidados inadequados em condições insalubres".
A organização relata ainda "casos de fraturas não tratadas, feridas suturadas sem anestesia, infeções cutâneas e falta de tratamento para condições pré-existentes".
A fome surge como um dos padrões mais disseminados, com 55 dos 59 jornalistas inquiridos a relatarem subnutrição ou perda extrema de peso.
"Quando dezenas de jornalistas descrevem, de forma independente, abusos físicos e psicológicos, a comunidade internacional precisa de agir", afirmou a diretora executiva do CPJ, Jodie Ginsberg, em comunicado.
Entretanto, a diretora regional da organização, Sara Qudah, afirma que os casos documentados "não são incidentes isolados", mas revelam "um padrão recorrente de abusos contra jornalistas pelo seu trabalho".
Assim, o CPJ apela a que Israel permita o acesso de observadores internacionais independentes, incluindo relatores especiais da ONU, aos centros de detenção, bem como a abertura de investigações "transparentes e imparciais" sobre as alegações.
Segundo o relatório, os militares israelitas disseram à organização que "os detidos são tratados de acordo com o direito internacional" e que as forças armadas "nunca alvejaram deliberadamente jornalistas", acrescentando que "qualquer violação de protocolo será investigada".