Conselho presidencial do Haiti dissolve-se após braço-de-ferro com primeiro-ministro
O conselho presidencial do Haiti votou no sábado pela sua dissolução, numa altura em que mantinha um braço-de-ferro com o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, apoiado pelos Estados Unidos (EUA).
Em 23 de janeiro, a maioria dos membros do conselho de transição tinham votado a favor da demissão de Fils-Aimé, aprofundando a crise política no Haiti e contrariando os apelos dos EUA para manter a estabilidade na liderança do país.
O plano do conselho de destituir Fils-Aimé, por razões não divulgadas, parece ter sido descartado com a dissolução, numa cerimónia oficial, no sábado.
"Precisamos de pôr de lado os nossos interesses pessoais e continuar a avançar em prol da segurança", disse o presidente cessante do conselho, Laurent Saint-Cyr, que tinha votado contra a destituição do primeiro-ministro.
O mandato do conselho terminou no sábado, prazo definido em 2024 com base no objetivo de organizar eleições gerais, mas não era claro se tal aconteceria, alimentando receios de protestos e de nova instabilidade política.
O conselho, não eleito, estava no poder desde abril de 2024, após a demissão do então primeiro-ministro Ariel Henry, na sequência de uma vaga de ataques sem precedentes dos gangues que levaram ao encerramento do principal aeroporto internacional e à paralisação de infraestruturas estratégicas.
O órgão foi criado com o apoio de líderes caribenhos para restaurar alguma estabilidade política após o assassinato do último Presidente eleito do país, Jovenel Moise, em julho de 2021, e teve como missão principal nomear um primeiro-ministro e preparar eleições.
Alix Didier Fils-Aimé, empresário e ex-presidente da Câmara de Comércio e Indústria do Haiti, é o terceiro chefe de Governo escolhido pelo conselho, tendo sido nomeado em novembro de 2025, após a demissão de Garry Conille.
Depois da dissolução, Fils-Aimé disse que "o conselho presidencial cumpriu o seu papel ao preparar o caminho para uma governação atenta às questões de segurança e eleitorais".
O primeiro-ministro prometeu restabelecer a segurança, realizar eleições e desenvolver um plano humanitário de emergência para fornecer alimentos, cuidados e abrigo aos mais vulneráveis.
"O sofrimento da população exige uma ação imediata", disse Fils-Aimé, que estava acompanhado por polícias e militares, sublinhando que os haitianos precisam de se unir.
O chefe de Governo prometeu ainda tornar o Haiti um lugar mais seguro.
Mais de 8.100 homicídios foram registados no Haiti entre janeiro e novembro do ano passado, número que a ONU considera subestimado devido à dificuldade de acesso às zonas dominadas por grupos armados.
"Os gangues e os seus apoiantes serão caçados, um a um. Todas as áreas ocupadas serão retomadas, até ao dia em que cada criança for à escola sem medo", afirmou Fils-Aimé.
O primeiro-ministro apoiado pelos EUA reconheceu que o Haiti chegou ao que chamou de perigosa encruzilhada. "Os próximos dias serão exigentes", disse. "Não prometo milagres", acrescentou.
Dias depois do conselho presidencial ter votado a favor da destituição de Fils-Aimé, o Governo norte-americano anunciou a revogação dos vistos de quatro membros não identificados do conselho e de um ministro.
No início da semana, os EUA enviaram um navio de guerra e duas embarcações da Guarda Costeira norte-americana para as águas próximas da capital haitiana, onde gangues controlam 90% de Porto Príncipe.
A Polícia Nacional do Haiti tem tentado conter a violência com o apoio de uma missão multinacional liderada pela polícia do Quénia e apoiada pela ONU, ainda com meios e financiamento insuficientes.
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