COP28 nos Emirados Árabes Unidos. País anfitrião viola política de queima de gás

por Inês Moreira Santos - RTP
Leonardo Fernandez Viloria - Reuters

Os Emirados Árabes Unidos recebem, no final deste mês, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas comprometendo-se a organizar uma cimeira que impulsione transformações globais com vista a reduzir as emissões poluentes e a desacelerar as alterações climáticas. Mas de acordo com uma investigação o país anfitrião da COP28 mantém a queima de gás e petróleo, quebrando a própria política de "queima zero".

Uma investigação, baseada em registos de imagens por satélite, revela que algumas instalações e empresas estatais nos Emirados Árabes Unidos continuam a queimar quase diariamente petróleo e gás, apesar de há 20 anos se terem comprometido com uma política de “queima zero”.

E, de acordo com os dados divulgados pelo Guardian, o presidente designado para a cimeira, o sultão Ahmed Al Jaber, é o CEO da empresa petrolífera estatal Adnoc e também ministro da Indústria e Tecnologia Avançada dos Emirados Árabes Unidos, prevendo-se que esteja à frente das negociações internacionais sobre a crise climática.

O Centro de Investigação em Energia e Ar Limpo concluiu que uma dessas instalações, a Adnoc LNG, queimou gás em mais de 99 por cento dos dias em que houve monitorização por satélite, entre 2018 e 2022. Um funcionário da empresa admitiu ao jornal britânico que se tratava de casos de queima de rotina.

A queima destas substâncias é altamente poluente e acontece quando não há nenhum equipamento instalado para as reter ou quando o gás tem de ser libertado por razões de segurança, permitindo ainda a fuga de gás metano.

O estudo em questão baseou-se na análise a 32 instalações de petróleo e gás nos Emirados Árabes Unidos, 20 das quais são geridos pela Adnoc. Os dados obtidos na investigação mostram que em quatro destas instalações, pelo menos 97 por cento dos dias para os quais havia dados disponíveis, havia queima diária de gás e petróleo.
Dados “enganosos”
Após a divulgação desta investigação, um porta-voz da Adnoc afirmou que estes eram dados “enganosos, visto que as imagens de satélite podem não distinguir entre a queima ou a chama piloto das operações normais”. Já os especialistas garantem que é improvável que as chamas piloto se confundem e expliquem as imagens quase diárias de queima de substâncias poluentes, além disso a Adnoc não disponibilizou quaisquer informações sobre o recurso a chamas piloto.

“Normalmente não se iriam ver chamas piloto do espaço”, explicou o Paul Balcombe, da Universidade Queen Mary de Londres. “Uma chama piloto teria de ser muito grande para ser vista e, nesse caso, continuamos a ter um problema com emissões grandes e desnecessárias”.

Todas as instalações de gás e petróleo têm operações de chamas piloto por razões de segurança e, ainda segundo o mesmo estudo, a maioria das empresas nos Emirados Árabes Unidos não apresentam queimas diárias.

“A queima de gás tem um impacto enorme, cerca de um a dois por cento do total das emissões globais de gases com efeito de estufa, e a grande maioria é evitável”, disse Balcombe. “Temos a tecnologia para reduzir toda a queima e podemos praticamente eliminar a queima não emergencial a um custo moderado. O lado positivo é que a nossa capacidade de captar imagens por satélite para monitorizar a queima e as emissões de metano está a melhorar, por isso somos mais capazes de responsabilizar as empresas”.

Já Hubert Thieriot, especialista envolvido no estudo, considera que enquanto “anfitrião da próxima Cop28, é fundamental que os Emirados Árabes Unidos reforcem e respeitem ainda mais os seus compromissos se quiserem desempenhar um papel de líder na redução da queima".

“Estes dados mostram o quão insignificantes são os compromissos das empresas de petróleo e gás quando são voluntários. Não se pode confiar na indústria como parceira na eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, razão pela qual não deve ser autorizada a participar nas conversações sobre o clima, muito menos presidi-las”, disse também Pascoe Sabido, do Corporate Europe Observatory, ao jornal britânico.

Num panorama geral, os Emirados Árabes Unidos têm níveis relativamente baixos de queima para um Estado produtor de combustíveis fósseis, ocupando o 27.º lugar numa lista do Banco Mundial de países classificados por volume de queima de 2018 a 2022. Mas os mesmos dados não mostram nenhuma mudança significativa nos volumes anuais de gás de queima em dos Emirados Árabes Unidos na última década.

A COP28 será realizada entre 30 de novembro a 12 de dezembro de 2023 no centro de congressos da Expo City Dubai, na cidade-emirado do Dubai, sob a presidência dos Emirados Árabes Unidos. A conferência espera reunir mais de 70.000 participantes, incluindo chefes de Estado e de Governo, funcionários governamentais, representantes de organizações internacionais, líderes empresariais, académicos e representantes da sociedade civil.
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