Coreia do Sul. Médicos em greve arriscam-se a ser detidos

por Cristina Sambado - RTP
Kim Hong-Ji - Reuters

O Governo da Coreia do Sul ameaça tomar medidas legais contra milhares de médicos em greve e revogar as suas licenças profissionais se não regressarem ao trabalho esta quinta-feira.

Cerca de três quartos dos médicos em formação do país abandonaram os postos de trabalho na última semana, causando perturbações e atrasos nas cirurgias dos principais hospitais universitários.

Os médicos estagiários estão a protestar contra os planos do Governo para admitir um número drasticamente maior de estudantes de medicina na universidade todos os anos, para aumentar o número de médicos no sistema.
A Coreia do Sul tem um dos rácios médico-paciente mais baixos entre os países desenvolvidos e, com uma população a envelhecer rapidamente, o governo avisa que haverá uma escassez aguda dentro de uma década.

Esta semana, os corredores vazios do St. Mary's Hospital, em Seul, deram um vislumbre do que poderá ser esse futuro. Quase não se via um médico ou um doente na área de triagem fora da sala de emergência, tendo os doentes sido avisados para se manterem afastados.

Ryu Ok Hada, um médico de 25 anos, e os seus colegas não vão trabalhar há mais de uma semana. Os médicos em greve enfrentam a prisão se não regressarem ao trabalho.

"É estranho não me levantar às quatro da manhã", brincou Ryu. O médico disse à BBC que estava habituado a trabalhar mais de 100 horas por semana, muitas vezes durante 40 horas seguidas e sem dormir. "É uma loucura o que trabalhamos por tão pouco salário".

Apesar de os salários dos médicos na Coreia do Sul serem relativamente elevados, Ryu argumenta que, dadas as horas de trabalho, ele e outros médicos em formação podem acabar por ganhar menos do que o salário mínimo. “Mais profissionais não vão resolver os problemas estruturais do sistema de saúde, que os deixa sobrecarregados e mal pagos”, acrescenta.

Os cuidados de saúde na Coreia do Sul são em grande parte privatizados, mas acessíveis. Os preços das urgências, das cirurgias que salvam vidas e dos cuidados especializados foram fixados a um nível demasiado baixo, frisam os médicos, enquanto os tratamentos menos essenciais, como as cirurgias estéticas, são demasiado caros.

Ryu, que trabalha há um ano, afirma que os médicos estagiários e os médicos em formação estão a ser explorados pelos hospitais universitários pela sua mão de obra barata.

Nalguns dos maiores hospitais, estes médicos representam mais de 40 por cento do pessoal, desempenhando um papel fundamental na manutenção do seu funcionamento.

Em consequência, a capacidade cirúrgica de alguns hospitais foi reduzida para metade na última semana. As perturbações limitaram-se sobretudo a procedimentos planeados, que foram adiados, tendo sido afetados apenas alguns casos isolados de cuidados intensivos.Os médicos estão a optar cada vez mais por trabalhar em áreas mais lucrativas nas grandes cidades, deixando as zonas rurais com falta de pessoal e as salas de emergência sobrecarregadas.

Na passada sexta-feira, uma mulher idosa que sofreu uma paragem cardíaca morreu numa ambulância depois de sete hospitais se terem recusado a tratá-la.

O Governo declarou que a doente em questão sofria de cancro em fase terminal e que a sua morte não estava relacionada com a paralisação.
"Não há médicos”
A paciência com os médicos está a esgotar-se, tanto por parte do público como por parte dos profissionais de saúde que têm de assumir o trabalho suplementar. Os enfermeiros alertaram para o facto de estarem a ser forçados a realizar procedimentos nas salas de operações que normalmente caberiam aos seus colegas médicos.

Choi, enfermeira de um hospital em Incheon, revelou à BBC que os seus turnos foram prolongados por uma hora e meia todos os dias e que estava agora a fazer o trabalho de duas pessoas.

"Os pacientes estão ansiosos e eu estou frustrada por isto continuar sem um fim à vista", disse, instando os médicos a voltarem ao trabalho e a encontrarem outra forma de demonstrar as suas queixas.

Segundo as propostas do Governo, o número de estudantes de medicina admitidos na universidade no próximo ano aumentará de três mil para cinco mil. Os médicos em greve argumentam que a formação de mais médicos iria diluir a qualidade dos cuidados de saúde, porque significaria dar licenças médicas a profissionais menos competentes.

Apesar de os médicos estarem a tentar convencer a população de que formar mais profissionais não é útil, têm angariado pouca simpatia.

Em contrapartida, o índice de aprovação do presidente Yoon Suk Yeol melhorou desde o início da greve, o que significa que o governo tem pouco incentivo para começar a reformar o sistema e a tornar os procedimentos mais caros, mesmo antes das eleições de abril.

As duas partes estão agora num intenso impasse. O Ministério da Saúde recusou-se a aceitar a demissão dos médicos e, em vez disso, ameaça processá-los por violação da lei médica se não regressarem aos hospitais até ao final do dia.O vice-ministro da Saúde, Park Min-soo, declarou que a licença dos médicos que não cumprissem o prazo seria suspensa por um período mínimo de três meses. O Governo declarou que dará início ao processo na próxima segunda-feira.

O Governo espera que a ameaça de ser penalizado seja suficiente para fazer os médicos a regressar ao trabalho, alegando que cerca de 300 dos nove mil médicos em greve já regressaram.

Alguns dos que abandonaram a greve acreditam que a abordagem pesada do Governo poderá influenciar a opinião pública.

No próximo domingo, a Associação Médica Coreana irá votar se os médicos seniores devem juntar-se aos médicos estagiários. Se muitos dos seus colegas mais jovens tiverem sido detidos, é mais provável que entrem em ação.

Ryu sublinhou que estava preparado para ser preso e perder a sua licença médica e que, se o governo não se comprometesse ou ouvisse as suas queixas, ele abandonaria a profissão.

"O sistema médico está falido e, se as coisas continuarem assim, não tem futuro, vai entrar em colapso", afirmou. "Já trabalhei na agricultura, talvez possa voltar a isso".
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