COREIA: UMA PENÍNSULA DIVIDIDA

A Coreia do Norte e a Coreia do Sul estão profundamente divididas, mais do que por uma fronteira altamente militarizada no Paralelo 38. Ainda que partilhem a mesma língua, história e herança, os dois países têm estado de costas voltadas ao longo das últimas décadas. Não obstante os recentes sinais de esperança, as enormes disparidades deixam adivinhar um caminho difícil rumo à reconciliação.

HISTÓRIA COMUM

A ocupação japonesa da Península Coreana, entre 1910 e 1945, é ainda hoje vista como um período negro de subordinação colonial no passado dos dois países. Com a capitulação do exército nipónico no fim da II Guerra Mundial, em agosto de 1945, os vencedores do conflito dividiram o território coreano entre si, na Conferência de Potsdam, à imagem do que foi feito na Alemanha. A norte, a influência soviética, a sul o poder norte-americano. Esta divisão consolidou a emergência de dois regimes diferentes num país outrora unido.

A norte do Paralelo 38, Kim Il-sung funda a República Popular Democrática da Coreia, a sul desponta a República da Coreia, primeiro sob orientação do general norte-americano John R. Hodge, depois com o primeiro Presidente do país, Syngman Rhee.

A hipótese de uma eleição numa Coreia unida, supervisionada pelas Nações Unidas, fora entretanto recusada pela União Soviética. Em 1949, americanos e soviéticos davam por terminado o período de ocupação, deixando dois países divididos na península. Um ano de tensão e de provocações mútuas foi o rastilho suficiente para o início da Guerra da Coreia (1950-1953). De um lado, Pyongyang tinha as garantias de apoio de Estaline e Mao Tsé-tung. Do outro, Seul contava com a ajuda militar de uma força internacional liderada pelos Estados Unidos. Mais de quatro milhões de pessoas morreram durante os três anos de conflito que terminou com o armistício de 1953. Quase tudo ficou na mesma em termos territoriais. Até à data, nenhum tratado de paz foi assinado entre os dois países.

Nas décadas seguintes, os dois países recusaram qualquer contacto diplomático e só voltariam ao contacto direto em 1971. Seria necessário esperar mais 30 anos pela primeira cimeira ao mais alto nível, já depois do colapso da União Soviética, para assistir à primeira cimeira ao mais alto nível, em 2000.

O encontro decorreu em Pyongyang e juntou à mesma mesa Kim Jong Il e Kim Dae-jung. A ajuda humanitária à Coreia do Norte e o reencontro de famílias separadas foram dois dos principais temas abordados. Era a altura da “Política Raio de Sol”, que ditou o maior contacto entre as duas Coreias na década entre 1998 e 2008.

Ainda nesse âmbito, decorreu em 2007 a segunda cimeira entre os dois países, no fim do mandato de Roh Moo-hyun, novamente com a deslocação do Presidente sul-coreano a Pyongyang. As grandes expetativas em volta deste encontro saíram goradas com a chegada de Lee Myung-bak, um conservador, à presidência em Seul.

Durante este breve período de aproximação, a Coreia do Norte viria a entrar no clube nuclear que culmina em 2006, ano em que Pyongyang afirma ter conseguido testar com sucesso uma bomba nuclear. Os testes seguintes viriam a acontecer em 2009 e 2013, este último já com Kim Jong-un no poder.

Os anos seguintes ficariam marcados pelo desenvolvimento das capacidades militares e da retórica belicista do líder norte-coreano. No final de 2017, a Coreia do Norte terá lançado um novo míssil balístico intercontinental, capaz de atingir território norte-americano. Mas, contra todas as probabilidades, os primeiros meses de 2018 ficariam marcados por uma reaproximação histórica entre as duas Coreias.

O mundo e os coreanos aguardam agora pela eventual assinatura do tratado de paz que continua por firmar desde 1953.

cronologia


CENÁRIOS DE UNIFICAÇÃO

Em 2015, o Gabinete de Orçamento da Assembleia Nacional sul-coreana apresentou uma série de cenários de possível união das duas Coreias. Dependendo da forma e do ritmo em que os dois países trabalharem em conjunto, os custos estimados para a unificação podem ultrapassar aos quatro mil milhões de dólares americanos (cerca de 3,337 milhões de euros).

1º CENÁRIO

Manter o atual status de cooperação quase inexistentes entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, evitando investimentos em larga escala.

Duração do Processo*:

50 anos

Estimativa de custos:

4,48 billões de dólares americanos (3,75 mil milhões de euros)

*Número de anos necessários até que o nível de salários pagos no Norte se aproxime de 66% do sul do país.

2º CENÁRIO

Expandir ajuda humanitária da Coreia do Sul para a Coreia do Norte.

Duração do Processo:

39 anos

Estimativa de custos:

2,88 biliões de dólares americanos (2,41 mil milhões de euros)

3º CENÁRIO

Iniciar cooperação económica abrangente, incluindo no capital social, com a Coreia do Norte.

Duração do Processo:

34 anos

Estimativa de custos:

2,15 biliões de dólares americanos (1,80 mil milhões de euros)

IMPACTO NO PIB DA COREIA DO NORTE

Independentemente do cenário escolhido, o PIB projetado para a Coreia do Norte melhoraria drasticamente após a unificação.

cenarios

Nota: 1$ = 0,80€



POPULAÇÃO

populacao

Por sua vez, a Coreia do Norte tem lutado para recuperar da “Marcha Árdua”, período de fome que matou centenas de milhares de pessoas entre 1994 e 1998. Desde então que a esperança média de vida e a taxa de mortalidade infantil estão aquém dos valores que encontramos na Coreia do Sul.

ESPERANÇA MÉDIA DE VIDA

 

TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL

A cada mil nascimentos

A divisão da Península Coreana deixou várias famílias divididas. No entanto, com o passar dos anos, o número de sul-coreanos com familiares no país vizinho tem declinado, à medida que várias gerações morrem e que persiste a divisão dos dois países.

FAMÍLIAS QUE FICARAM SEPARADAS
NUTRIÇÃO

A economia próspera da Coreia do Sul ajudou a melhorar os padrões de vida da população, incluindo hábitos alimentares diários.

CALORIAS INGERIDAS

Em quilocalorias

Nota: Os dados da Coreia do Norte para 2014 e 2015 não estão disponíveis

PROTEÍNA INGERIDA

Em gramas

GORDURA ANIMAL INGERIDA

Em gramas

ELETRICIDADE

As diferenças colossais entre os dois países ao nível de padrões de vida são bastante claras quando olhamos para os dados sobre o consumo de eletricidade. A Coreia do Norte regista apagões regulares em grande parte do território.

Consumo de eletricidade per capita
eletricidade
CONECTIVIDADE
SUBSCRIÇÕES DE TELEFONE FIXO

Por cada 100 pessoas

SUBSCRIÇÕES DE TELEMÓVEL

Por cada 100 pessoas



ECONOMIA

Após a divisão da Península Coreana, a economia do Norte tornou-se altamente industrializada enquanto a do Sul era sobretudo agrária.

No entanto, em meados dos anos 70, Seul abraçou uma série de reformas de mercado, o que viria a tornar a Coreia do Sul numa das maiores economias mundiais. Já a economia a Norte começou a estagnar, ficando cada vez mais dependente de ajuda externa.

Desde 1970 que os resultados económicos dos dois países são divergentes. As sanções internacionais sobre o programa nuclear e de mísseis de Pyongyang só amplificaram o isolamento económico da Coreia do Norte.

INVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO (IDE) investimento estrangeiro direto
RENDIMENTO NACIONAL BRUTO rendimento nacional bruto


PONTO DE VISTA SOBRE A REUNIFICAÇÃO

O apoio à reunificação das Coreias é cada vez menor na Coreia do Sul, de acordo com um inquérito liderado pelo Instituto para a Paz e Unificação da Universidade Nacional de Seul.

Quanto à Coreia do Norte, é mais difícil apurar quais são as intenções da população. No entanto, o pequeno número de desertores que fugiram para o sul questionados pelos inquéritos demonstra grande apoio aos esforços de reunificação.

Os sul-coreanos que apoiam a reunificação apontam maioritariamente para questões étnicas como justificação. No entanto, a tensão crescente entre os dois países leva boa parte dos residentes a sul a defender a reunificação como um caminho para a paz na Península.

Os dissidentes norte-coreanos vêm na reunificação a oportunidade de melhorar as condições de vida a norte do Paralelo 38.

REUNIFICAÇÃO. PRINCIPAIS ARGUMENTOS:

Nota: O Ministério sul-coreano da Unificação começou a recolher o número de famílias separadas em 1988, mas não disponibilizou os números até 2003.

A amostra dos sul-coreanos inquiridos é de 1.201 e de desertores norte-coreanos é de 138. Neste último caso, trata-se da maior amostra disponível.

Fonte: REUTERS GRAPHICS / Edição: Andreia Martins com Sara Piteira - RTP