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Covid-19, caça furtiva e bancarrota ameaçam proteção da vida selvagem
Sob alguns aspetos, o impacto do confinamento humano, devido à pandemia de Covid-19, foi positivo para o meio ambiente, sobretudo por diminuir a poluição atmosférica. Num segundo olhar, ameaça reverter anos de esforços na proteção da vida selvagem.
Privados de turistas, dezenas de parques selvagens e áreas de conservação enfrentam graves dificuldades financeiras. Em muitos locais, sobretudo em África, a fome e a falta de recursos fazem o resto e tornam atraentes a caça furtiva e o comércio ilegal de animais e de plantas.
A ameaça a várias espécies, muitas delas protegidas ou em risco de extinção, pode atingir níveis sem precedentes nos próximos meses. A própria Covid-19 pode ser fatal para os animais.
Na República Democrática do Congo, o Parque Nacional de Virunga, criado em 1925 e o primeiro parque nacional da África, Património Mundial da UNESCO e habitat de uma espécie de gorila ameaçada de extinção, fechou em março por conselho de especialistas.
Estes indicaram que os gorilas das montanhas e outros primatas são "provavelmente suscetíveis a complicações decorrentes do novo vírus".
Em apenas dois meses, as preocupações dos ambientalistas passaram a ser outras, bem mais prementes. Inúmeros parques e jardins zoológicos privados estão a tentar angariar fundos para conseguir sustentar os seus animais.
Para outros está em jogo algo mais do que a mera sobrevivência. É a perda de batalhas que julgavam ganhas após décadas de investimentos e de esforços.
Efeito dominóEm 2019, mais de 70 milhões de turistas visitaram África, de acordo com números da Organização Mundial do Turismo, muitos atraídos por safaris, caça de troféus e observação de espécies. Com o encerramento de aeroportos e de fronteiras, a torneira fechou abruptamente.
Kaddu Sebunya, da Fundação para Vida Selvagem em África, está extremamente preocupado com a resposta aos problemas provocados pela perda de empregos ligados à conservação e ao turismo, em países como o Ruanda, o Quénia e o Botswana.
Calcula que entre 20 a 30 milhões de africanos tenham empregos ligados direta ou indiretamente ao turismo. As comunidades mais pobres, que habitam em torno destes locais e que dependem deles, estão desesperadas e a caça ilegal para obter carne já está a aumentar.
"As pessoas dependentes do turismo perderam os seus rendimentos num espaço de tempo muito curto e necessitam de encontrar formas de alimentar as famílias", explicou Kaddu à Fundação Thomson Reuters, que apoia milhares de esforços de defesa ambiental em todo o mundo.
"Muitos são guardas, guias e especialistas, que conhecem as espécies selvagens e sabem onde as encontrar. A tentação da caça furtiva é enorme e isso inclui espécies ameaçadas". "As pessoas não vão ficar sentadas em casa a morrer de fome. Irão recorrer aos recursos naturais que as cercam. Se for uma floresta, irão cortar árvores. Se for um parque, irão caçar animais. Se for um rio irão pescar em demasia", refere Sebunya.
A resposta é, naturalmente, apoiar financeiramente as comunidades rurais, para as proteger da fome e da perda de rendimentos.
O problema estende-se a várias outras regiões do mundo.
Na Indonésia, por exemplo, as 56 reservas espalhadas pelo arquipélago encerraram todas em março.
O Governo revelou que o turismo internacional caiu 64 por cento nesse mês face ao período homólogo de 2019, para 471 mil pessoas, ou menos de metade dos números de janeiro, quando o mundo começou a parar devido à ameaça da Covid-19.
O país poderá perder mais de 10 mil milhões de dólares em rendimentos do turismo, só em 2020. Além disso tem igualmente de enfrentar as despesas de manter as zonas de conservação e apoiar quem vive delas, numa altura em que os recursos financeiros são desesperadamente necessários noutras áreas.
A Fundação Thomson entrevistou Khairi, guia do Parque Nacional Gunung, na ilha indonésia de Samatra. Há mais de 20 anos que conduzia grupos de turistas pelas veredas estreitas da floresta, em busca talvez de um orangotango em perigo de extinção.
Agora, aos 48 anos e com quatro filhos para sustentar, ficou desempregado e viu o seu ordenado ter uma quebra de 75 por cento, para 17 dólares por semana.
"É o suficiente para comprar arroz", afirma Khairi. "Cerca de 500 de nós perderam o emprego e está muito mau para todos nós", acrescenta. Khairi conseguiu trabalho manual mal pago numa plantação de borracha, mas não recebeu qualquer apoio financeiro do Governo local e está preocupado com o que o espera.
Reverter ganhos
No mundo inteiro, os programas de conservação envolvem as comunidades locais como forma de lhes providenciar sustento e evitar a sobre-exploração dos recursos que se pretende preservar.
Até março de 2020, muitas destas pessoas estavam envolvidas em projetos de eco-turismo, e providenciavam desde alojamentos a visitas a aldeias, onde vendiam produtos tradicionais e artesanato.
Sem estes rendimentos pouco lhes resta além da agricultura de subsistência e a caça, ali mesmo à mão, nas reservas naturais.
Não foram só as atividades económicas de milhões de famílias pobres a sofrer os efeitos dos encerramentos.
Os já de si complicados esforços de proteção contra a caça furtiva e o comércio ilegal, e de conservação de espécies, sobretudo de florestas, estão também sem meios.
A maioria dos parques e áreas de conservação sobrevive à custa de visitantes e de alguns financiamentos internacionais. As ajudas dos Governos locais são praticamente inexistentes. Sem fundos, é impossível garantir as operações de proteção e de conservação.
Entrevistado por Nick Clark, para a Al Jazeera, Richard Bonham diz que a ajuda internacional às populações também é vital para manter à tona os programas de conservação ambiental e de proteção de espécies.
Bonham sabe do que fala. Em 2003 investiu em alternativas para evitar que as populações Masai de uma região do Quénia exterminassem os leões como forma de proteger os seus rebanhos.
Envolveu-os nas ações de proteção e conservação e conseguiu não só evitar a continuação dos envenenamentos e a caça aos leões, como inverter a sua extinção.
"Para nós, nos Montes Chuyulu, se não conseguirmos a continuação de financiamentos, o sucesso notável que tivemos, ao fazer crescer o número de leões de quase zero para cerca de 200, será simples e tragicamente revertido", explicou Bonham.
Caça furtiva e tráfico aumentam
O cenário que se antevê em África para inúmeras espécies, de rinocerontes a elefantes, passando por milhares de outras, animais e vegetais, é negro.
"A falta de financiamentos significa que os parques não podem fazer tantas patrulhas como é necessário, já que precisam de combustível para os carros e de alimentos para os guardas saírem em patrulha", refere Kaddu.
"Não há turistas e o distanciamento social também implica menos guardas, o que torna mais fácil às redes de tráfico colherem o que querem entre os recursos naturais", acrescenta.
"Os caçadores furtivos vão aproveitar - já está a acontecer no Botswana", refere o responsável da Fundação Vida Selvagem em África. "Estamos a receber relatos de aumento na caça aos rinocerontes e mais confrontos entre estes e os guardas, que já levaram a mortes". Também o Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, tem reportado um aumento da atividade de caça ilegal, repelida com sucesso nos últimos anos.
Muitos destes grupos criminosos irão aliciar e explorar também as comunidades locais, recrutando-as para a caça ilegal ou para o comércio de carvão através do derrube e da queima de árvores.
Até outros locais do planeta, em princípio com mais recursos, sentem a ameaça.
Na Grã-Bretanha, 46 organizações caritativas de proteção ambiental, ligadas ao Wildlife Trust, enfrentam também dificuldades sérias para impedir a invasão de espécies e a deterioração de locais ameaçados pela construção ou pelo despejo de lixo, e apoiar esforços de reintrodução de espécies endógenas ou limpeza de habitats.
À procura de financiamentosCraig Bennet, presidente executivo do Wildlife Trusts, refere que, "estes são tempos desesperados para o nosso movimento", com a queda de visitantes aos centros de recuperação e de doadores "numa altura em que a exigência de cuidar de milhares de reservas naturais é maior do que nunca".
Bennet aponta ainda outros problemas como atrasos na legislação britânica, a paragem de programas de vacinação e de limpeza de praias, despejos ilegais, vandalismo e roubo em reservas, assim como caça ilegal de espécies raras de pássaros.
Onno van den Heuvel, diretor-geral da Iniciativa Financeira para a Biodiversidade do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, reconhece que os Governos têm tido mais em que pensar nesta "emergência humana" da Covid-19.
É difícil pedir investimentos na proteção da natureza, neste momento, diz, só que, a conservação da biodiversidade providencia 22 milhões de empregos a nível mundial, algo que importa também preservar.
O PNUD está a estudar a possibilidade de campanhas de crowdfunding entre três a seis países, para conseguir formas de, por exemplo, garantir o emprego dos guardas dos parques, assim como o apoio às suas comunidades.
"Os parques estão fechados, os turistas estão em casa e as suas fontes de rendimento estão a secar - e eles estão mesmo a necessitar de fundos adicionais urgentes", diz den Heuvel.