Covid-19. Animais selvagens estão a beneficiar do confinamento dos humanos

por RTP
Em Hong Kong, dois pandas acasalaram pela primeira vez em dez anos depois de o jardim zoológico onde habitam ter encerrado temporariamente. Foto: Reuters

A pandemia de Covid-19 que está a assolar o mundo coloca os humanos em alto risco, mas parece estar a ser benéfica para o mundo selvagem. Em Hong Kong, dois pandas acasalaram pela primeira vez em dez anos depois de o jardim zoológico onde habitam ter encerrado temporariamente. No Alasca, a menor circulação de navios de cruzeiro pode ajudar nos rituais de acasalamento das focas. E na Índia, os animais começaram a tomar as ruas numa altura em que milhares de milhões de habitantes estão em confinamento obrigatório.

Ying Ying e Le Le, ambos com 14 anos, são dois pandas do jardim zoológico Ocean Park, em Hong Kong. Desde 2010 que tentavam acasalar, sem sucesso. Agora, com as portas do zoo fechadas ao público desde janeiro como medida de contenção devido à Covid-19, finalmente conseguiram.

No final de março, a fêmea Ying Ying começou a dar sinais de que os seus níveis hormonais estavam a mudar, e o macho Le Le começou à procura dos odores libertados pela companheira. De acordo com a direção do Ocean Park, esta é o comportamento comum na época de acasalamento, que ocorre entre março e maio.

“O sucesso deste acasalamento é extremamente entusiasmante para todos nós, visto que a hipótese de gravidez através de acasalamentos naturais é maior do que por inseminação artificial”, explicou em comunicado Michael Boos, diretor executivo neste jardim zoológico.
Focas prejudicadas pelos navios de cruzeiro
Os pandas não são, porém, os únicos aparentemente beneficiados pelas medidas de contenção originadas pela Covid-19. Investigadores têm estado a avaliar a possibilidade de um aumento do acasalamento das focas devido à diminuição da circulação de navios de cruzeiro.

Um estudo da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, revelou que o ruído provocado por estes navios torna mais difícil às focas conseguirem escutar os sons emitidos durante os rituais de acasalamento e para marcarem territórios. Isto porque estas embarcações produzem sons de baixa frequência que se sobrepõem aos dos animais marinhos.

Os investigadores que conduziram esse estudo colocaram vários microfones na Baía Glacier, no Alasca, para gravarem sons subaquáticos entre maio e outubro de 2015. A equipa analisou depois os dados registados em nove dias consecutivos que coincidiram com o pico do período de acasalamento das focas e concluiu que “os navios em geral são dos que mais contribuem para o som debaixo de água nessa região”.

Segundo estes investigadores, “as focas emitem os sons o mais alto que conseguem, mas com o aumento do ruído no oceano, os animais deixam de conseguir ouvi-lo tão bem”, pelo que se torna mais difícil aos machos encontrarem fêmeas com quem acasalar.

Agora, a mesma equipa está “a trabalhar para que seja possível colocar um hidrofone na água que permita ouvir os animais [na época de acasalamento] na ausência de navios pela primeira vez”, explicou Michelle Fournet, citada pelo Guardian.
Animais tomam as ruas na Índia
Já na Índia, o confinamento em casa de 1,3 mil milhões de pessoas, ou o seu regresso às aldeias de origem devido à pandemia da Covid-19, levou vários tipos de animais a tomarem as ruas vazias das cidades. Na capital, Nova Deli, grupos de macacos têm passeado pelo bairro do palácio presidencial, onde estão os ministérios e outras instituições governamentais.

"Roubam muito, mas ainda não ameaçam os humanos", disse um agente de segurança no local, citado pela agência France-Presse. Algumas espécies de macacos são um problema endémico na capital indiana, roubando regularmente comida dos habitantes.

Com o confinamento, alguns primatas estão agora a investir em escritórios de prédios desertos, de acordo com a imprensa local. Em Mumbai, o centro económico do país, podem ver-se também pavões empoleirados em carros estacionados.

Além destes animais vadios habituais das cidades indianas outros beneficiam também do confinamento dos humanos. No pequeno Estado montanhoso de Sikkim, um urso preto do Himalaia aventurou-se por um escritório de telecomunicações na semana passada e feriu um engenheiro, segundo os meios de comunicação indianos. Os agentes do serviço florestal também partilharam nas redes sociais vídeos de elefantes a andar em ruas desertas com lojas fechadas.

No entanto, o confinamento nem sempre é benéfico para os animais. Quatro cavalos normalmente usados para transportar turistas perto do Victoria Memorial, em Calcutá, morreram de fome nos últimos dias, de acordo com defensores dos direitos dos animais.

Cerca de 115 desses cavalos foram abandonados desde que o Governo indiano ordenou o confinamento por três semanas. "Estão a ficar doentes. Tememos que muitos morram nos próximos dias se não receberem comida", disse Sushmita Roy, porta-voz da organização Love and Care for Animals, à agência AFP.
Chacais em Telavive
Em Telavive, a segunda maior cidade israelita, foram os chacais quem ganhou mais liberdade devido ao confinamento dos humanos. Estes mamíferos, do tamanho de raposas, foram fotografados por Ofer Vaknin, do jornal Haaretz, em várias zonas do conhecido Parque Hayarkon.

A presença de chacais neste parque não é novidade: há dez famílias desta espécie que lá habitam há uma década. Na altura em que lá chegaram procuravam comida e acabaram por se habituar ao local e às pessoas que o frequentam.

Desde o início da pandemia, que deixou a maioria dos israelitas em isolamento domiciliário, o Parque Hayarkon encerrou e os chacais andam agora em maior liberdade. Os animais poderão, no entanto, estar a sentir falta de alimentos, uma vez que os visitantes do parque tinham por hábito lá deixar restos de comida.

Os animais veem o parque vazio como uma oportunidade para se deslocarem a mais locais, onde pensam que será mais fácil encontrar comida. Nesta época podemos também assumir que haja crias a nascer, pelo que a procura por comida aumenta ainda mais”, explicou ao Haaretz o zoologista Yoram Yom-Tov.

c/ agências
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