ONU apela ao fim dos mercados de animais selvagens para evitar novas pandemias

por Joana Raposo Santos - RTP
Devido à pandemia de Covid-19, a China proibiu temporariamente os mercados de animais onde são comercializados animais selvagens para consumo. Foto: Chaiwat Subprasom - Reuters

A responsável das Nações Unidas para a biodiversidade apelou a uma proibição global dos mercados de animais selvagens semelhantes ao de Wuhan, na China, onde se acredita que tenha começado a pandemia de Covid-19. Para Elizabeth Maruma Mrema, essa medida poderá evitar o aparecimento de novos surtos e ajudar a proteger a biodiversidade.

“Seria bom banir os mercados de animais vivos, algo que a China e outros países têm vindo a fazer”, defendeu Mrema, em declarações ao Guardian. “A mensagem que estamos a receber é que, se não tratarmos da natureza, ela trata de nós”.

Devido à pandemia de Covid-19, a China proibiu temporariamente os mercados de animais onde são comercializados pangolins, morcegos, civetas (pequenos mamíferos do sudeste asiático) ou crias de lobos, entre muitas outras espécies de animais vivos e mortos para consumo humano. A cidade chinesa de Shenzhen, emitiu esta semana a proibição mais abrangente até à data de criação e consumo de animais selvagens, prevendo multas a partir dos 150 mil yuans (19.000 euros).

Nestes mercados, os animais são habitualmente mantidos em jaulas ou gaiolas e sob fracas condições de higiene, o que pode facilmente originar o desenvolvimento de doenças que, por vezes, podem ser transmitidas a humanos.

Vários especialistas acreditam que foi dessa forma que o novo coronavírus começou a propagar-se em dezembro do ano passado, presumivelmente no mercado da cidade chinesa de Wuhan. O consumo de um pangolim ou de um morcego poderá, de acordo com estudos científicos, estar na origem da transmissão do vírus para um humano que terá, depois, contagiado outras pessoas.

No entanto, a secretária executiva da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica deixou um alerta. “Devemos lembrar-nos de que existem comunidades, particularmente em áreas rurais com escassos recursos económicos, nomeadamente em África, que dependem dos animais selvagens para sustentar a sobrevivência de milhões de pessoas”.

“Portanto, a menos que arranjemos alternativas para essas comunidades, a proibição destes mercados poderá levar a um aumento do comércio ilegal de animais selvagens, algo que neste momento já coloca várias espécies em risco de extinção”, elucidou Mrema.
Pandemia de Covid-19 poderá servir de alerta
Utilizando os exemplos do ébola na África central e do vírus Nipah no sudeste asiático, ambos inicialmente transmitidos de animais para humanos, Elizabeth Maruma Mrema defendeu existirem ligações claras entre a destruição da natureza e novas doenças.

“Sabemos que no fim da década de 1990, na Malásia, o surto do vírus Nipah terá resultado da desflorestação, dos incêndios e da seca, fenómenos que levaram os morcegos da fruta, os portadores naturais do vírus, a mudarem-se das florestas para as plantações. Os agricultores terão então sido infetados e contagiado outros humanos”, explicou.

A perda de biodiversidade está a tornar-se fortemente relacionada com o aparecimento de alguns destes novos vírus. E a desflorestação em larga escala, a degradação de habitats naturais, a intensificação da agricultura, o nosso sistema alimentar, o comércio de espécies de animais e plantas, as alterações climáticas – todos estes fatores levam à perda da biodiversidade”, lamentou Mrema.

A responsável da ONU disse estar otimista quanto a uma mudança nestas práticas, acreditando que a pandemia de Covid-19 pode abrir os olhos de várias nações quanto à iminente destruição da natureza.
“Mais de 70% das doenças dos humanos vêm da vida selvagem”
Jinfeng Zhou, secretário-geral da Fundação para a Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Ambiental da China, é um dos que tem movido esforços para que as autoridades chinesas passem a proibir permanentemente os mercados de animais selvagens, alertando que, caso contrário, doenças como a Covid-19 poderão continuar a surgir.

“Concordo que deveria haver uma proibição global destes mercados, até porque isso ajudaria a conservar a vida selvagem e a proteger as populações de contactos impróprios com esses animais”, defendeu, citado pelo Guardian.

“Mais de 70 por cento das doenças verificadas em humanos vieram da vida selvagem, e muitas espécies estão em vias de extinção por continuarem a ser consumidas”.

Em fevereiro, delegados de mais de 140 países vão reunir-se em Roma para debaterem o rascunho de um acordo que pretende travar e reverter a perda da biodiversidade. O documento inclui propostas para proteger quase um terço dos oceanos e do terreno terrestre e para reduzir para metade a poluição proveniente do plástico.

O novo coronavírus já infetou mais de um milhão e 200 mil pessoas em todo o mundo, das quais 267 mil recuperaram. Registam-se, neste momento, mais de 70 mil vítimas mortais da Covid-19.
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