Covid-19. Pandemia levou a redução drástica da poluição na China e em Itália

por Andreia Martins - RTP
Thomas Peter - Reuters

É um benefício não intencional e até inesperado provocado indiretamente pelo novo coronavírus em alguns dos países mais afetados. As imagens de satélite mostram uma forte redução nos níveis de poluição na China entre janeiro e fevereiro. O mesmo acontece na Europa, sobretudo no norte de Itália, desde que foi decretada a quarentena.

Na China, as imagens de satélite divulgadas pela NASA e pela Agência Especial Europeia (ESA) recolhidas entre janeiro e fevereiro mostravam uma redução drástica nas emissões de dióxido de nitrogénio – ou dióxido de azoto (NO2) que é libertado sobretudo por veículos e por fábricas - nas maiores cidades chinesas.

O mesmo padrão surge quando se analisam os níveis de dióxido de carbono (CO2), que resulta da incineração de combustíveis fósseis, nomeadamente o carvão. Um dos elementos que ajudou à redução dos níveis de poluição foi também a queda das emissões devido à redução dos voos domésticos.

Entre 3 de fevereiro e 1 de março, as emissões de CO2 terão caído 25 por cento a nível nacional devido às medidas adotadas para o combate ao novo coronavírus, indicou o Center for Research on Energy and Clean Air.

“É a primeira vez que noto uma queda tão dramática numa área tão ampla. Não estou surpreendida porque muitas cidades na China adotaram fortes medidas para evitar a propagação do vírus”, disse Fei Lui, investigadora da NASA especializada em qualidade do ar.

Uma redução igualmente drástica foi registada em Itália na sequência da quarentena daquele país para evitar a propagação do novo coronavírus. As imagens da ESA mostram uma forte redução de NO2, sobretudo no norte de Itália.

Um vídeo publicado pela ESA no Youtube, com imagens recolhidas pelo satélite Sentinela-5P, mostra a flutuação nos valores de dióxido de azoto entre 1 de janeiro e 11 de março deste ano.

“Embora possa haver pequenas variações nos dados devido à cobertura por nuvens e às mudanças climáticas, estamos muito confiantes de que a redução das emissões que vemos coincide com o bloqueio em Itália, o que levou a menos trânsito e menos atividades industriais”, considera Claus Zehner, diretor da missão Copérnico Sentinela-5P, da ESA.

Vidas perdidas, vidas salvas

É um paradoxo, mas a diminuição nos níveis de poluição - incitada pelas medidas de combate contra o novo coronavírus, que já fez quase sete mil vítimas mortais - poderá ter salvo 77 mil pessoas.

De acordo com uma estimativa do analista Marshall Burke, da Standford University, a redução dos níveis de PM2.5, as micropartículas que são responsáveis por grande parte das mortes no mundo devido à poluição, terá evitado a morte de 4.000 crianças com menos de cinco anos e de 73 mil adultos, só na China.

Mesmo com os cálculos mais conservadores, as vidas que foram salvas devido à diminuição dos níveis de poluição “são cerca de 20 vezes o número das vidas que se perderam com o vírus”, destacava o cientista, recorrendo aos dados disponíveis a 8 de março.

No entanto, Marshall Burke reconhece que os cálculos são apenas uma previsão dos níveis de mortalidade e que não incluem as várias consequências negativas das quarentenas.

“Este cálculo pode ser um lembrete proveitoso sobre as consequências, muitas vezes ocultas, que o status quo tem na saúde. (…) De forma mais ampla, o facto de que uma interrupção desta magnitude conseguir levar a grandes benefícios, ainda que parciais, sugere que a nossa forma normal de fazer as coisas talvez devesse ser alterada”, sugere.
Novo pico de poluição?

Com os efeitos do novo coronavírus cada vez menos visíveis no dia a dia na China, a economia e a sociedade têm regressado à normalidade nos últimos dias, com o fim de bloqueios e das quarentenas em várias cidades.

Os cientistas temem agora que o regresso ao trabalho possa levar a níveis de poluição superiores aos registados antes da pandemia, na ânsia por parte de fábricas e empresas de recuperar o tempo perdido durante os bloqueios.

“Poderá haver um pacote de estímulos económicos que disponibilizem crédito barato para a indústria pesada na China. Em resultado disso mesmo, poderemos ter um aumento dos valores poluentes e também das emissões de carbono no segundo semestre do ano”, avisa Fei Lui, da NASA.

O mesmo aconteceu na China após a crise de 2008, quando em 2009 o Governo de Pequim lançou um enorme pacote de apoio a projetos na ordem dos 586 mil milhões de dólares como resposta às dificuldades provocadas pela crise financeira global.

Esse foi um dos fatores que levou à explosão da poluição no país, nos anos seguintes. A China é, neste momento, o país do mundo com maior peso nas emissões de CO2 (30 por cento do total mundial).
Cidades mais poluídas correm mais riscos

Ao mesmo tempo que se procura combater o novo coronavírus, sabe-se agora que poderá haver uma correlação entre o Covid-19 e a poluição que agrava ainda mais os efeitos do vírus.

De acordo com a Aliança Europeia de Saúde Pública (EHPA), as pessoas que vivem em cidades poluídas correm mais riscos face ao surto de Covid-19, uma vez que a poluição do ar causa condições associadas à maior taxa de mortalidade do novo coronavírus.

Em comunicado, divulgado na última segunda-feira, a EPHA sublinha que a poluição atmosférica provoca hipertensão, diabetes e doenças respiratórias, “condições que os médicos começam a relacionar com taxas de mortalidade mais elevadas por Covid-19”.

A EPHA, que reúne uma série de organizações não-governamentais europeias na área da saúde pública, recorre ainda a um estudo de 2003 sobre as vítimas do coronavírus SARS, que concluiu que “os pacientes em regiões em níveis de poluição do ar moderados tinham 84% mais possibilidades de morrer do que aqueles em regiões com pouca poluição do ar”.

Lembrando que “a poluição do ar é um dos maiores riscos para a saúde na Europa”, provocando cerca de 400 mil mortes prematuras por ano, a Aliança aponta que uma das zonas de risco é precisamente o norte de Itália, “epicentro do surto do novo coronavírus na Europa”.

“Os governos deveriam ter combatido a poluição do ar crónica há já muito tempo, mas deram prioridade à economia sobre a saúde, ao serem ligeiros com a indústria automóvel. Quando esta crise estiver ultrapassada, os decisores políticos têm que acelerar medidas para retirar os veículos mais poluidores das nossas estradas. A ciência diz-nos que epidemias como a Covid-19 vão ocorrer com cada vez mais frequência, pelo que limpar as estradas é um investimento básico para um futuro mais saudável”, sublinha Sascha Marscahng, secretário-geral da EPHA.

(com agências)
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