Crianças abandonadas. Pai quer vir a Portugal buscá-las

Crianças abandonadas. Pai quer vir a Portugal buscá-las

O pai das duas crianças abandonadas em Portugal pela mãe e pelo companheiro desta (presumivelmente inocente) quebrou o silêncio. Sob anonimato, relatou a dor que sente desde que soube dos acontecimentos e pede moderação nas reações ao caso.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Uma carrinha da GNR, transporta Marine Rousseau, a mãe dos dois irmãos, de 4 e 5 anos, abandonados Foto: Pedro Castanheira e Cunha - Lusa

A sua identidade foi confirmada por meios de comunicação social franceses, com base em várias provas convergentes.

O homem perdeu a guarda das crianças há dois anos e apresentou queixa por rapto de menores. Reagiu pela primeira vez, poucas horas após o anúncio da prisão preventiva dos dois suspeitos.

Numa declaração escrita à Ici Alsace TV, o homem indicou que ainda não foi a Portugal buscar os filhos porque está à espera da autorização das autoridades. Os seus dois filhos foram encontrados a chorar, sentados à beira de uma estrada a sul de Lisboa, na terça-feira, 19 de maio. A mãe, de 41 anos, e o companheiro, de 55, foram detidos e colocados em prisão preventiva por "abandono ou exposição de menores a perigo", e o homem, por "agressão agravada" a uma das crianças.

"Faltam apenas alguns dias para eu ter os meus filhos de volta", diz. "Tenho pensado neles a cada segundo desde que a esquadra de Colmar me contactou para reportar o seu desaparecimento." 

O procurador de Colmar, Jean Richert, tinha indicado no início da semana que o pai teria direito apenas a visitas ocasionais aos filhos. Recorreu desta decisão do juiz da Vara de Família. Este testemunho insere-se, portanto, numa batalha judicial em curso pela guarda dos filhos.

"Os meus filhos precisam de tempo para recuperar."

"Estou a deixar as autoridades fazerem o seu trabalho enquanto aguardo a autorização para os ter de volta", continua. "O meu telefone está comigo dia e noite." 

Perante o frenesim mediático que envolveu a sua família desde o anúncio público do abandono dos filhos, afirma querer "reiterar a importância da cautela, do respeito e da honestidade nas declarações públicas" e pede "discrição"

"Os meus filhos vão precisar de reconstruir as suas vidas, tal como eu, e não precisam de ser recordados desta tragédia. Não estou a tentar defender nem minimizar os atos cometidos. Os factos continuam a ser graves e profundamente chocantes. Recuso-me a contribuir com discursos de ódio, insultos ou rótulos que visem desumanizar uma pessoa, mesmo uma que já tenha sido considerada culpada."  A mãe das crianças, actualmente em prisão preventiva, ainda não foi formalmente acusada nem considerada culpada: presume-se a sua inocência.

O pai conclui afirmando que se pronunciará novamente assim que "encontrar" os seus filhos, cuja guarda ainda não possui.

Na quinta-feira, 21 de maio, quando as crianças foram encontradas pelas autoridades graças ao testemunho de um padeiro, foram internadas no hospital para observação. O seu estado de saúde foi considerado normal "do ponto de vista clínico". 

Foram depois entregues aos serviços da embaixada francesa, segundo o porta-voz da Guarda Nacional Republicana citado pela AFP, e colocadas num lar adoptivo francês até ao seu repatriamento.
Mandado de detenção europeu 

"Caberá às autoridades judiciais francesas (...) iniciar o processo para o regresso das crianças" a França, afirmou o tribunal de Setúbal em comunicado de imprensa, explicando que "as crianças residiam com a mãe (...), sendo que o pai tinha direito a visitas limitadas e supervisionadas". O direito a visitas supervisionadas pode ser concedido por um juiz em determinadas situações específicas, como casos de violência, conflitos familiares graves ou o restabelecimento gradual do contacto após uma separação prolongada entre pais e filhos.

O padrasto das crianças, Marc Balagriba, está detido na cadeia anexa à Polícia Judiciária de Lisboa, sob prisão preventiva.

É suspeito da prática de dois crimes de exposição ou abandono e de um crime de ofensa à integridade física qualificada. O que indicia que terá maltratado um dos menores antes de abandonar os irmãos.

Já a mãe dos meninos vai aguardar em prisão preventiva no Estabelecimento prisional de Tires. Foram-lhe imputados dois crimes de exposição ou abandono, agravados pelo facto das vítimas serem os filhos.

É na prisão que os dois vão aguardar pelos desenvolvimentos do processo. Ainda não se sabe onde vai decorrer o julgamento.

Marine Ressau e o companheiro são alvo de um mandado de detenção europeu e podem vir a ser extraditados para França para serem julgados pelos crimes de que são suspeitos em Portugal.

É uma decisão a ser tomada pelo Tribunal da Relação que deve ouvir o casal no âmbito do cumprimento do mandado de captura europeu emitido pelas autoridades francesas.

A extradição é uma possibilidade mas pode não acontecer, já que os crimes foram cometidos em território nacional.

As crianças estão com uma família de acolhimento. Nesta altura, ainda não é claro a quem poderão ser entregues. Uma decisão que vai ser tomada noutro processo que decorre num tribubnal de família e menores.
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