Crise na África do Sul. Insatisfação social ou jogada política?

Mais de 70 pessoas morreram em consequência dos violentos distúrbios, pilhagens e manifestações que se seguiram à prisão do antigo Presidente da África do Sul Jacob Zuma, na semana passada, mas que poderão ter outras explicações mais profundas. A embaixada portuguesa no país tem notícia de estabelecimentos saqueados e incendiados, mas não registou, até agora, vítimas entre a comunidade lusa.

Sérgio Alexandre - RTP /
Foto: EPA

O comunicado mais recente das autoridades sul-africanas dá conta de que foram efetuadas até ao momento mais de 1200 detenções na sequência dos motins, que alastraram nas últimas horas até à província do Cabo do Norte, a oeste, e à de Mpumalanga, a leste, na fronteira com Moçambique. O governo do país, sediado em Pretória, destacou pelo menos 2500 militares para prestarem apoio às forças policiais.

Os tumultos estendem-se a praticamente todo o território, mas têm sido mais intensos nas províncias do KwaZulu-Natal e de Gauteng, como é o caso de Joanesburgo, onde se instala a maior parte da comunidade portuguesa estabelecida na África do Sul.

Em declarações à RTP, o embaixador Manuel Carvalho refere a inexistência de vítimas de nacionalidade portuguesa e assinala ter conhecimento de “cinco a dez” estabelecimentos assaltados, saqueados e incendiados; um “número muito reduzido”, tendo em conta que no país residem cerca de 450 mil cidadãos nacionais.

Por seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, assegura que os serviços diplomáticos estão a acompanhar a situação de perto e a prestar “todo o apoio necessário e possível” aos portugueses. Volta também a apelar à serenidade.
Instrumentalização?

A situação na África do Sul descambou na semana passada, depois de o antigo Presidente do país Jacob Zuma ter sido detido para cumprir uma pena de 15 meses de prisão. Zuma foi condenado pelo Tribunal Constitucional por se ter recusado a apresentar-se na comissão parlamentar de investigação aos múltiplos casos de corrupção durante o seu mandato como Chefe de Estado (2009-2018). Protestos organizados por apoiantes do ex-Presidente eclodiram imediatamente após a detenção, mas ganharam uma dimensão que muitos julgam dever-se à instrumentalização desse descontentamento por parte de grupos que operam nos bastidores com finalidades políticas.

Citado pela Agência Lusa, o analista Christopher Vandome, perito em questões africanas, admite que o rastilho “previsível” para os distúrbios no país foi “a retórica” criada em redor da prisão de Zuma, mas considera que a origem mais profunda deste clima de caos está no aproveitamento que “um conjunto de instigadores” fez de um “estado subjacente de frustração e desespero”, motivado pelas políticas sociais do governo sul-africano. De uma forma “surpreendentemente rápida”, criou-se uma atmosfera de “pilhagens, desordem e anarquia”, situação “longe de controlada e muito volátil”, avalia o investigador do Instituto Chatham House, em Londres.

Rui Loura, antigo jornalista da RTP a viver há vários anos na África do Sul, fala mesmo numa eventual luta pelo poder entre fações adversárias do ANC, o partido do governo: uma leal a Zuma, outra leal ao atual Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa.

Para além da violência, outra preocupação imediata é o seu reflexo na cadeia de abastecimento do país, já severamente afetada pela instabilidade. Várias das principais vias de comunicação estão limitadas ou foram cortadas pelos distúrbios e os bens essenciais começam a escassear.

Preocupada com o impacto da situação nos países vizinhos, a União Africana apela à "restauração urgente da ordem, paz e estabilidade", assinalando que, se tal não acontecer, haverá "graves repercussões, não só no país, mas em toda a região". Também numa mensagem divulgada nas últimas horas, a ONU pede aos sul-africanos que exerçam de forma responsável o direito legítimo a uma manifestação pacífica.
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