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De olhos postos no céu: a portuguesa que participou na descoberta de sete planetas

Foi das maiores experiências de sempre da sua vida: a descoberta de sete planetas com condições potencialmente análogas às da Terra longe do sistema solar. Aos 31 anos, a astrofísica portuguesa Catarina Fernandes confessou à RTP que sempre gostou de astronomia e não esquece a primeira visita ao Planetário de Lisboa. Agora faz parte da equipa internacional de astrónomos que iniciou esta investigação na Universidade de Liège, na Bélgica, onde está atualmente a fazer o doutoramento.

Telescópios apontados ao céu, horas e horas de observação, muito estudo e, acima de tudo, um grande trabalho em equipa possibilitaram a descoberta de sete planetas fora do sistema solar.

Sabe-se que orbitam uma estrela anã, extremamente fria, a Trappist-1, localizada a cerca de 40 anos-luz do Sol. "Cinco dos planetas (b, c, e, f, g) têm tamanhos semelhantes à Terra, enquanto os outros dois (d, h) têm um tamanho intermédio entre Marte e a Terra", revelou a equipa de investigadores, que inclui a astrofísica portuguesa Catarina Fernandes.

Nasa

“Esta descoberta começou em Liège com uma equipa belga que há um ano descobriu três planetas à volta da estrela Trappist-1 e um ano de estudo intensivo, a apontar para esta estrela, resultou na descoberta de sete planetas que orbitam esta anã vermelha", revelou a investigadora portuguesa à RTP.

Catarina Fernandes orgulha-se de ter acompanhado esta "descoberta incrível, extraordinária, porque é a primeira vez que se está a detetar um sistema com tão grande número de planetas que são muito parecidos com o planeta Terra, no tamanho, e alguns na temperatura. O interessante é que três deles estão numa zona potencialmente habitável, ou seja, onde seria possível existir água no estado líquido”.


Para a investigadora portuguesa fica agora mais fácil explorar a atmosfera deste sistema.

Além do telescópio Spitzer, da agência espacial norte-americana NASA, outros telescópios foram utilizados no Chile, em Marrocos, no Havai, nas Canárias, em Liverpool e na África do Sul, onde Catarina Fernandes teve o privilégio de poder acompanhar uma das missões de follow-up da estrela Trappist-1.

Nasa

“Eu faço parte de uma grande equipa. Estou integrada neste grupo dentro de um projeto que visa procurar planetas extrassolares em torno de estrelas muito, muito frias. Estou a investigar as estrelas e surgiu então a oportunidade de fazer uma das muitas missões de observação desta estrela. É um prazer imenso poder fazer parte destes resultados que nos mostram um sistema novo".

A investigação surge na continuidade de uma outra, divulgada em maio do ano passado, em que a equipa de astrónomos, liderada por Michaël Gillon, da Universidade de Liège, na Bélgica, concluiu haver três exoplanetas em torno da estrela anã, mais pequena do que o Sol. Agora foram descobertos mais quatro.

“É um sistema planetário extraordinário, não apenas por termos encontrado tantos planetas mas porque todos são surpreendentemente parecidos com a Terra em termos de tamanho”, referiu Michaël Gillon, o líder da equipa da Universidade de Liège.

DR

O dia 22 de fevereiro de 2017 é mais uma das datas que ficará para a História. A NASA realizou uma conferência de imprensa, em direto na internet, sobre a descoberta, que incluiu também um artigo sobre os planetas observados em torno da estrela-anã Trappist-1, publicado na revista científica Nature.

"Há na verdade sete planetas em órbita do vizinho sistema Trappist-1, a cerca de 40 anos luz de distância (...) Além disso, três destes planetas assinalados a verde estão na zona habitável, onde água líquida pode surgir à superfície. Na verdade, nas condições atmosféricas ideais, pode haver água em qualquer um destes planetas", anunciava Thomas Zurbuchen, administrador do projeto científico da NASA.

A investigadora portuguesa não deixa de sublinhar a importância da oportunidade de fazer parte desta equipa de cientistas.

Depois da licenciatura na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em 2008, seguiu-se um mestrado na Dinamarca e agora o doutoramento.

É na Universidade de Liège que Catarina Fernandes está a fazer o estudo da teoria sobre a evolução e caracterização de estrelas frias, anãs-vermelhas. Sobra-lhe tempo para o ioga e para dar largas à imaginação.

“Este gosto vem desde pequena. Eu lembro-me da primeira vez que fui ao planetário, de ter saído e ter pensado: mas porque é que o céu não está estrelado? Adorei ver o céu estrelado e depois quando fui para escola e tínhamos astronomia fascinava-me sempre muito. Fascina-me olhar para o céu. Perder-me na imensidão do céu e tentar compreender o que é que por lá anda".

Já sobre o que imagina sobre esta descoberta, Catarina refere que "a imaginação é muito fértil. Se pensarmos que a estrela é muito pequena, se imaginarmos que os planetas estão próximos da estrela, imagino que de um planeta se possa ver os outros planetas”.

DR

O grupo de cientistas estima que seis dos planetas agora localizados sejam rochosos como a Terra. “Agora é que é interessante. É ótimo para a comunidade científica. É continuar a estudar exoplanetas. Estas estrelas são estrelas bastante abundantes na nossa vizinhança, ou seja, nós vamos continuar a fazer monitorização de estrelas anãs vermelhas".

A astrofísica portuguesa revelou ainda que "há outros projetos que tentam encontrar estrelas anãs noutros grupos e também estrelas parecidas com o nosso Sol, ou outro tipo de estrelas que possam ter planetas. Além disso é tentar estudar as atmosferas e compreendê-las melhor. Se poderá haver água e o que é que poderá existir nas atmosferas desses planetas”.

Para Thomas Zurbuchen, administrador do projeto científico da NASA, "a descoberta dá-nos um indício de que descobrir uma segunda Terra não é apenas uma questão de se, mas quando".

"O que temos de facto nesta história é um grande passo em frente para respondermos a uma das questões fulcrais que estão no cerne de tantos dos nossos filósofos, no que pensamos quando estamos sós, que é basicamente se estaremos sozinhos no Universo. Estamos a dar um passo em frente, na verdade um salto, para respondermos a essa pergunta", concluiu o cientista da NASA.