Desastre de Duisburg acaba com a Love Parade
A organização da Love Parade pôs este domingo um ponto final ao “maior festival de música electrónica do Mundo”, após as mortes de 19 pessoas à entrada da única via de acesso ao local do evento, em Duisburg, no Oeste da Alemanha. Com as imagens de milhares de ravers em pânico a percorrerem as televisões do planeta, Rainer Schaller anunciou a decisão numa conferência de imprensa em que as questões mais incisivas visaram as autoridades.
A Love Parade, resumiu Schaller em conferência de imprensa, "foi sempre um evento pacífico e uma festa feliz". A repetir-se, seria para sempre assombrada pela memória dos acontecimentos deste ano.
Entre os participantes, a maior parte das críticas são dirigidas às autoridades, responsáveis pelo controlo dos acessos ao festival. Muitos consideram que, ao afunilar centenas de milhares de pessoas por um túnel com 200 metros de comprimento e 30 de largura, a Polícia alemã criou todas as condições para a tragédia das últimas horas. Matthias Roeingh, o fundador da Love Parade, já veio dizer que a culpa deve ser partilhada por todos os elementos afectos à organização, das forças de segurança aos promotores do festival. "Uma única entrada através de um túnel abre caminho ao desastre. Estou muito triste", lamentou Roeingh, conhecido pelo nome artístico de Dr. Motte.
Duisburg "não foi feita para a Love Parade"
De acordo com a comunicação social da Alemanha, pelo menos 1,4 milhões de pessoas convergiam para o festival quando a vaga de pânico começou a alastrar-se. A Polícia recusa-se a confirmar esse cálculo, preferindo apoiar-se no número de pessoas - 105 mil - que chegaram a Duisburg em comboios nas horas que antecederam o desastre. O número dois das forças de segurança da cidade, Detlef von Schmeling, garante que os agentes foram cuidadosos na forma como tentaram fazer escoar a multidão através do túnel e actuaram de imediato quando se aperceberam do "movimento de pânico em massa".
Por seu turno, o presidente do Sindicato Nacional da Polícia, Rainer Wendt, não poupou críticas aos organizadores do festival, lembrando que a estrutura já os avisara para os riscos de montar um evento com as dimensões da Love Parade numa cidade de 500 mil habitantes e com infra-estruturas sem condições: "Preveni-os há um ano. Duisburg não foi feita para a Love Parade. A cidade é muito pequena e demasiado estreita para um tal espectáculo".
A Love Parade começou por ser uma marca de Berlim. Criada em 1989, como uma manifestação de paz, acabaria por se transformar numa gigantesca celebração ao ar livre do culto da música electrónica. Em 1999, o festival atingiu o seu auge, ao reunir 1,5 milhões de pessoas. Dificuldades financeiras e tensões constantes entre a organização e as autoridades da capital alemã ditaram a mudança de ares. A partir de 2007, o evento assentou arraiais na região industrial do Ruhr, a Oeste.
"A organização era má"
Até ao momento, as autoridades identificaram 16 das 19 vítimas mortais, que sucumbiram ao esmagamento. Entre os mortos, há quatro cidadãos estrangeiros - um australiano, um italiano, um holandês e um chinês. Em declarações à revista Spiegel, a coberto do anonimato, um efectivo da polícia descreveu como "um inferno" o cenário à entrada do túnel para a antiga gare de mercadorias de Duisburg.
Anneke Kuypers, uma estudante neozelandesa de 18 anos, encontrava-se no local no momento do desastre. "Vi mortos dentro do túnel", relatou à agência France Presse. "Outros estavam vivos, mas ficaram inconscientes no chão. Outros choravam. Como tenho formação de socorrista, tentei ajudar. As pessoas sofriam de desidratação, alguns tinham bebido de mais ou tomado drogas", acrescentou.
Patrick Günther, de 22 anos, outra das testemunhas ouvidas pela agência francesa, não tem dúvidas em afirmar que "a organização era má": "Rapidamente, já não havia mais nada para beber, a não ser álcool. E mesmo com tudo cheio deixavam entrar pessoas".