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Despesa global com defesa apresenta maior crescimento anual em mais de uma década

por Cristina Sambado - RTP
Militar ucraniano da unidade móvel de defesa aérea anti-drone dispara uma metralhadora Browning Gleb Garanich - Reuters

Pela primeira vez, as despesas militares dos governos aumentaram nas cinco regiões geográficas, para um montante global de aproximadamente 2,44 biliões de dólares, estima um relatório do grupo de reflexão do Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo. Trata-se do maior aumento anual de despesas públicas com armas em mais de uma década.

O aumento de 6,8 por cento entre 2022 e 2023 foi o mais acentuado desde 2009, elevando as despesas para o valor mais alto registado pelo Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (Sipri) nos seus 60 anos de história.

Pela primeira vez, os analistas do centro de investigação registaram um aumento das despesas militares nas cinco regiões geográficas: África, Europa, Médio Oriente, Ásia e Oceânia e Américas.

Nan Tian, um dos investigadores do programa de despesas militares e produção de armas do Sipri, alertou para o risco acrescido de uma conflagração involuntária à medida que os governos se apressam a armar.

"O aumento sem precedentes das despesas militares é uma resposta direta à deterioração global da paz e da segurança”, afirmou ao jornal britânico Guardian.

Para Nan Tian, “os Estados estão a dar prioridade à força militar, mas correm o risco de uma espiral de ação-reação num cenário geopolítico e de segurança cada vez mais volátil".
Os mais gastadores
Os Estados Unidos (37 por cento) e a China (12 por cento) – os dois maiores gastadores - representaram cerca de metade da despesa militar global, aumentando as suas despesas em 2,3 por cento e seis por cento, respetivamente.
Desde 2014, quando a Rússia invadiu pela primeira vez a Crimeia e a região oriental de Donbas da Ucrânia, os Estados Unidos têm mudado seu foco de operações de contrainsurgência e guerra assimétrica para "desenvolver novos sistemas de armas que poderiam ser usados em um conflito potencial com adversários com capacidades militares avançadas", segundo o relatório do Sipri.
O Governo dos EUA gastou mais 9,4 por cento em "investigação, desenvolvimento, testes e avaliação" do que em 2022, uma vez que Washington procurou manter-se na vanguarda dos desenvolvimentos tecnológicos.

Embora ofuscada pelos EUA em termos de despesas militares, a China, que surge como segundo país que mais investe na área, atribuiu cerca de 296 mil milhões de dólares em 2023, um aumento de seis por cento em relação a 2022.

Pequim tem aumentado consistentemente os gastos com defesa nos últimos 29 anos, embora os maiores períodos de crescimento tenham ocorrido na década de 1990 e entre 2003 e 2014.

O crescimento de apenas um dígito do último ano reflete o desempenho económico mais modesto da China nos últimos tempos, segundo o documento.

Seguem-se na tabela classificativa do Sipri, a Rússia, a Índia, a Arábia Saudita e o Reino Unido - o maior gastado da Europa Central e Ocidental, com um aumento anual de 7,9 por cento.

A despesa militar do Kremlin em 2023, após um ano de guerra em grande escala com a Ucrânia, foi 24 por cento, superior à de 2022 e 57 por cento superior à de 2014, quando a Rússia invadiu a Crimeia. Com uma despesa de 5,9 por cento do PIB, equivalente a 16 por cento da despesa total do governo russo, 2023 marcou os níveis mais elevados registados desde a dissolução da União Soviética.

No meio de tensões crescentes com a China e o Paquistão, as despesas indianas aumentaram 4,2 por cento em relação a 2022 e 44 por cento em relação a 2014, refletindo um aumento dos custos de pessoal e operacionais.

Os analistas do Sipri observaram que 75 por cento das despesas de capital da Índia foram em equipamento produzido internamente, o rácio mais elevado de sempre, à medida que a Índia progrediu em direção ao seu objetivo de se tornar autossuficiente no desenvolvimento e produção de armas.

O aumento de 4,3 por cento nas despesas da Arábia Saudita, para um valor estimado de 75,8 mil milhões de dólares, ou 7,1 por cento do PIB, terá sido impulsionado pelo aumento da procura de petróleo não russo e pela subida dos preços do petróleo após a invasão russa da Ucrânia.
As despesas com os conflitos em curso
As despesas no Médio Oriente aumentaram nove por cento, atingindo um valor estimado de 200 mil milhões de dólares, o que faz com que seja a região do mundo com as despesas militares mais elevadas em proporção do PIB, com 4,2 por cento, seguida da Europa (2,8 por cento), África (1,9 por cento), Ásia e Oceânia (1,7 por cento) e Américas (1,2 por cento).
As despesas militares de Israel, que ocupa o segundo lugar na região, a seguir à Arábia Saudita, mas à frente da Turquia, aumentaram 24 por cento, atingindo 27,5 mil milhões de dólares, principalmente devido à sua ofensiva em Gaza.
O Irão foi o quarto maior gastador militar do Médio Oriente
. As suas despesas aumentaram marginalmente (+0,6 por cento) para 10,3 mil milhões de dólares. Para o Sipri, “a parcela da despesa militar total atribuída ao Corpo de Guardas da Revolução Islâmica tem aumentado desde pelo menos 2019”.

A Ucrânia tornou-se o oitavo maior gastador militar do mundo em 2023, com um aumento anual de 51 por cento para atingir 64,8 mil milhões de dólares, o que equivale a apenas 59 por cento dos gastos militares da Rússia no mesmo ano.

As despesas militares de Keiv aumentaram 1,270 por cento entre 2014 e 2023. A ajuda militar recebida de mais de 30 países está incluída nos números do Sipri.
Congo registou o maior aumento
O maior aumento percentual das despesas militares de qualquer país em 2023 foi registado pelo Governo da República Democrática do Congo (+105 por cento), que tem estado num conflito prolongado com grupos armados não estatais, principalmente no leste do país.

O Sudão do Sul registou o segundo maior aumento percentual (+78 por cento), devido à violência interna.

O recurso às forças armadas para combater os bandos organizados foi considerado um fator de aumento das despesas na América Central e nas Caraíbas, onde as despesas foram 54 por cento mais elevadas em 2023 do que em 2014.


As despesas da República Dominicana aumentaram 14 por cento em resposta ao agravamento da violência dos gangues no vizinho Haiti.

As despesas atingiram 11,8 mil milhões de dólares no México, um aumento de 55 por cento em relação a 2014, embora ligeiramente inferior ao registado em 2022. As alocações para a Guardia Nacional (Guarda Nacional) - uma força militarizada usada para conter a atividade criminosa - aumentaram de 0,7 por cento da despesa militar total do México em 2019, quando a força foi criada, para 11 por cento no ano passado.

Para Diego Lopes da Silva, outro investigador do Sipri, “O uso das Forças Armadas para suprimir a violência dos gangues tem sido uma tendência crescente na região há anos, pois os governos não conseguem resolver o problema usando meios convencionais ou preferem respostas imediatas - muitas vezes mais violentas".
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