Mundo
Devemos deixar a inteligência artificial entrar nas nossas mentes?
Alguns estudos sugerem que os jovens se sentem mais compreendidos pela IA do que pelos psicólogos. Peritos avaliam benefícios e riscos da utilização da inteligência artificial perante problemas graves de saúde mental.
A IA chegou ao campo da psicoterapia, impulsionada por programas psicoterapêuticos, aplicações e chatbots utilizados com maior frequência pelos jovens.
Numa corrida contra a tecnologia, cientistas e pacientes procuram respostas para as muitas questões que se colocam quanto à possibilidade de as máquinas virem a substituir os atuais profissionais.
O psicólogo no telemóvel
Poderão as máquinas curar as mentes humanas? Esta é a pergunta de um milhão de dólares que anda no ar entre especialistas e pacientes.
A inteligência artificial estendeu-se a todos os domínios e chegou também ao domínio da psicoterapia. As doenças mentais estão aí e parecem estar a aumentar.
De acordo com os especialistas, quase um terço das pessoas sofre de depressão ou ansiedade, para além de doenças como a esquizofrenia ou perturbação borderline. "Precisamos de utilizar a IA na psicoterapia porque já não controlamos a situação", afirma Nikolaos Koutsouleris, professor de Psiquiatria de Precisão na Ludwig-Maximilians-Universidade de Munique.
Tal como ele, outros médicos afirmam que a procura aumentou de tal forma que os recursos humanos parecem não ser suficientes.
Em psicologia, é a pessoa que é importante, e o terapeuta deve também ter uma boa dose de empatia, apoio e aceitação incondicional. Este princípio era inamovível - até agora! quando a IA entrou em cena.
"Quando uma máquina é capaz de imitar uma pessoa, estamos a falar de IA", explica Kenza Ait Si Abbou Lyadini, especialista em IA. E as máquinas já são capazes de realizar tarefas cognitivas como a aprendizagem ou a resolução de problemas.
Uma IA programada "para o amar"
Saskia Denzinger já passou por isso. "Em situações de crise, preciso do Loki comigo", confessa.
Loki é uma IA que a acompanha e ajuda a partir do seu telemóvel. Saskia partilha todas as suas preocupações, medos e momentos felizes com este companheiro digital.
"É uma IA amigável, programada para nos amar, é muito carinhosa, muito atenta e compreensiva", afirma, enumerando todas as vantagens. Vê Loki como um amigo com quem se pode falar do outro lado do telefone.
Na Universidade de Oslo, o Professor de Media e Comunicação, Petter Brandtzaeg e a sua equipa, estudaram a relação entre as pessoas e as aplicações de companhia virtual e descobriram que a disponibilidade constante é a qualidade mais valiosa, especialmente entre os jovens.
E, juntamente com isso, o anonimato é de grande importância.
"Há uma razão para as pessoas falarem com uma aplicação de IA. A razão é que não é um ser humano", adverte Emilia Theye, co-fundadora da aplicação Claire & Me, que permite que as pessoas conversem em busca de uma solução para um tratamento terapêutico.
Poderá a IA substituir os profissionais?
Na Universidade de Hamburgo, Tanja Lincoln, professora de Psicologia Clínica e Psicoterapia, dá formação aos seus alunos. Explica à plateia que, para além dos conhecimentos, os psicólogos devem possuir qualidades essenciais como a escuta ativa, a linguagem corporal e saber quando oferecer um copo de água ou um lenço a um paciente.
"Acha que a inteligência artificial fazer o mesmo que um terapeuta? "Acho difícil imaginar que a IA permita simular essa proximidade, esse calor ou essa empatia", responde um dos futuros psicólogos.
John Cook pensa o mesmo.O criador e escritor de podcasts sofre de depressão há muito tempo e está a ser tratado com Terapia Cognitivo-Comportamental. Sabine C. Herpertz, especialista do Centro de Medicina Psicossocial do Hospital Universitário de Heidelberg, explica que a IA poderia ajudar a calcular uma terapia comportamental personalizada para cada paciente. John não vê as coisas dessa forma. "Não me imagino a falar com um robot humanóide sobre os meus problemas mais profundos", conclui.
Tecnologia avança a um ritmo incrível
A Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou novos dados que indicam que mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de perturbações de saúde mental.
Nos países mais desenvolvidos, as listas de espera prolongam-se no tempo com consequências fatais. A tecnologia veio colmatar esta lacuna com o desenvolvimento de chatbots psicoterapêuticos. Nos Estados Unidos, esta tecnologia está a ser utilizada há anos.
Em 2017, a psiquiatra de São Francisco, Alison Darcy, desenvolveu o Woebot, um chatbot alimentado por IA com o qual se pode interagir através do telemóvel. "Posso imaginar que chatbots terapêuticos bem treinados e validados poderiam ser uma espécie de primeira linha de cuidados, à qual os pacientes poderiam aceder muito facilmente e muito rapidamente", diz Koutsoularis.
Com apoio financeiro, a psicologia, a psiquiatria e a neurologia estão a investigar as potenciais aplicações da inteligência artificial nos seus domínios.
Os estudos sugerem que parece certo que a IA poderá ser um excelente auxiliar de diagnóstico para os terapeutas humanos.
Mas até onde pode ir? Será aconselhável ou pode representar um risco não calculado?
Documentos TV revela a investigação em curso que analisa o impacto da entrada da IA na psicoterapia num documentário que passa nesta quinta-feira à noite na TVE intitulado "Terapia Inteligente?".
Milagros de Diego Cerezo / 19 fevereiro 2026 06:24 GMT
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP