Diálogo nacional em Moçambique marca primeiro ano de mandato de PR Chapo
O analista Fernando Lima classificou hoje o diálogo nacional em Moçambique como das "grandes falhas políticas" do primeiro ano do Presidente, Daniel Chapo, por excluir Venâncio Mondlane, enquanto o sociólogo Elísio Macamo criticou o "papel central" dado ao político.
"Eu penso que esta é provavelmente uma das grandes falhas políticas do Presidente Chapo. Eu não conheço as dinâmicas políticas [do processo], mas parece-me que ele está aquém daquilo que promoveu e prometeu ao nível do diálogo. Demorou muito tempo a encetar um diálogo genuíno com Venâncio Mondlane, de facto líder da oposição em Moçambique", disse o jornalista e analista moçambicano Fernando Lima, em entrevista à Lusa.
O analista fazia uma avaliação do primeiro ano de governação de Daniel Chapo, investido como quinto Presidente de Moçambique em 15 de janeiro de 2025, em Maputo, numa cerimónia marcada por fortes medidas de segurança, perante as manifestações e protestos na envolvente, tal como nas semanas anteriores, contestando o processo eleitoral.
Lima considerou uma "falha grave" a ausência de Venâncio Mondlane - candidato presidencial em 2024, que convocou os protestos pós-eleitorais e que nunca reconheceu os resultados - e da sua formação política, Anamola, no diálogo nacional inclusivo em curso, referindo que no processo estão forças e personalidades que "não representam nada em termos de política" em Moçambique.
Apontou existir "grande desconfiança" por parte de Daniel Chapo e de setores da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder) hostis a Mondlane, tirando credibilidade ao processo de diálogo em curso: "Não integra as forças que representam a oposição, de facto, em Moçambique".
Ainda assim, Lima deixa o benefício da dúvida ao Presidente moçambicano ao considerar que não tem controlo total para ter uma "atitude mais amistosa, um diálogo mais engajado com Venâncio Mondlane".
Já o sociólogo moçambicano Elísio Macamo criticou o papel central atribuído a Mondlane, considerando que, durante as manifestações pós-eleitorais, por ele lideradas, e que propiciaram o processo - que prevê em dois anos várias reformas, incluindo da lei eleitoral e da Constituição -, o político não agiu no interesse nacional.
"Eu não acho que ele seja uma peça central. Acho que a violência pós-eleitoral tornou necessário que houvesse um diálogo. A necessidade do diálogo não foi o objetivo da violência pós-eleitoral, o objetivo da violência pós-eleitoral, conforme ele próprio dizia nas suas `lives`, era tomar o poder, que não aconteceu (...). Ele agiu muito mais (...) por desorientação política ou no interesse mais particular", disse Macamo.
Para o sociólogo, a inclusão do Anamola no diálogo está a acontecer, até porque já houve vários encontros em que pessoas destacadas daquele partido estiveram presentes. Rejeita, por isso, a necessidade de uma "abertura oficial" à sua participação.
"Eu acho que o mais interessante aqui não é se há uma abertura oficial clara para eles estarem na mesa, mas é como eles vão utilizar esse diálogo que já existe para mostrarem o seu lado responsável, a sua postura responsável, o tipo de política responsável e diferente que eles querem fazer para Moçambique. Isso é que conta mais do que qualquer gesto de abertura, de inclusão, que pode parecer desnecessário", referiu Macamo.
Elísio Macamo apontou também a política como o verdadeiro desafio da governação de Daniel Chapo, que cumpre quinta-feira, 15 de janeiro, o primeiro ano de mandato, num desempenho difícil de avaliar face às circunstâncias em que assumiu o poder.
"A gente sabe que ele não se preparou para isso, acho que não estava no seu horizonte, pelo menos na altura em que ele foi indicado, tornar-se presidente da Frelimo e Presidente do país (...). Ele não teve tempo de elaborar um projeto político e, por causa disso, seria injusto tentar avaliar o desempenho de uma pessoa que assumiu o poder nessas circunstâncias", concluiu o analista.