Dirigente da Oposição iraniana insta regime a pôr termo à repressão
Os avisos do Guia Supremo do Irão para as consequências de "insultos ao sistema" suscitaram esta segunda-feira as críticas do dirigente da Oposição Mir Hossein Mousavi, que apelou à continuação dos protestos contra o Governo. As imagens de uma alegada profanação de fotografias do ayatollah Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, levaram à detenção de várias pessoas.
"O povo quer que se ponha fim ao clima policial, pois num tal clima há uma radicalização", acrescenta o dirigente da Oposição, que chefiou o Governo do Irão entre 1980 e 1988, nos anos da guerra contra o Iraque de Saddam Hussein.
As declarações do antigo primeiro-ministro surgem no auge de uma polémica em torno da profanação da imagem do fundador da República Islâmica do Irão. Nos últimos dias, a televisão estatal difundiu imagens de pessoas não identificadas a queimarem e a rasgarem fotografias do ayatollah Khomeini. Os vídeos, alegadamente captados durante os protestos estudantis de 7 de Dezembro, estão a ser encarados como uma quebra sem precedentes de um tabu do regime.
"Protestos pacíficos"
No domingo, em declarações ao diário Andisheh-ye No, Mir Hossein Mousavi considerara "muito suspeitas" as notícias da profanação de imagens do ayatolah Ruhollah Khomeini, que em 1979 liderou o derrube do Xá Reza Pahlevi. O dirigente da Oposição manifestou-se "convicto de que os estudantes jamais fariam isso, pois todos sabem que eles amam o imã Khomeini". Uma leitura partilhada, de resto, pelo antigo Presidente reformista Mohammad Khatami, que instou as autoridades a evitarem fazer do "grande ayatollah" um "bode expiatório".
Diante de uma assembleia de clérigos, o próprio Guia Supremo da República Islâmica, Ali Khamenei, tomou em mãos a defesa dos pilares do regime, condenando todos os dirigentes da Oposição: "Algumas pessoas violaram a lei, criaram motins e encorajaram as pessoas a enfrentarem o regime. Prepararam, também, o terreno para que os inimigos da revolução insultassem o sistema".
Mousavi responde com um novo apelo às manifestações, pedindo aos seus apoiantes que prossigam "o movimento de protestos de forma pacífica e num quadro legal, para não dar pretextos aos inimigos do povo".
Detenções
Centenas de estudantes voltaram ontem a manifestar-se na Universidade de Teerão, acusando as autoridades de terem forjado as imagens da destruição de fotografias de Khomeini. Muitos empunharam imagens do líder da revolução de 1979. Em declarações citadas pela Associated Press, o cineasta e activista Moammad Nourizad, argumentou mesmo que a pretensa profanação da figura venerada do "grande ayatollah" é pouco significativa quando comparada com as mortes de manifestantes durante os protestos que se seguiram às presidenciais - a Oposição alega que a repressão do regime causou as mortes de pelo menos 72 pessoas, enquanto que o Governo limita a 30 o número de vítimas.
"Quando os vemos a rasgar o roteiro do imã para o respeito dos direitos do povo e a protecção da sua dignidade, só temos o poder de rasgar a sua fotografia", ironizou o realizador iraniano, para quem o Governo está a pôr em prática uma "táctica infantil".
Na mesma linha, o antigo Presidente Mohammad Khatami recusou-se a acreditar que os estudantes pudessem ter rasgado imagens do fundador do regime: "Não usem o imã para justificar uma abordagem mais dura contra aqueles de quem não gostam".
A Guarda Revolucionária defendeu, entretanto, a necessidade de levar a julgamento os responsáveis pela alegada profanação, garantindo que "não vai tolerar quaisquer silêncios ou hesitações na imediata identificação, julgamento e castigo daqueles que levaram a cabo este feio insulto e dos agentes que estiveram por detrás dos acontecimentos". Segundo o procurador de Teerão Abbas Jafari, "as pessoas que estiveram no local foram identificadas e estão todas detidas".
"Não haverá piedade para quem insultou o fundador da revolução", garantiu.