Milhares de iranianos enfrentam regime em Teerão
Palavras de ordem como "morte ao ditador" e outros gestos de revolta sem precedentes, entre os quais a destruição de imagens do Guia Supremo da República Islâmica, levaram as autoridades iranianas a carregar, esta segunda-feira, sobre milhares de manifestantes em Teerão. No Dia Nacional dos Estudantes, as universidades da capital do Irão foram campos de batalha.
Milhares de efectivos da polícia de intervenção e da Guarda Revolucionária, apoiados por elementos das milícias Basij, preencheram às primeiras horas do dia o perímetro da Universidade de Teerão, numa tentativa de impedir que os estudantes invadissem as ruas adjacentes.
"Há uma ansiedade de que tenhamos violência e disparos. Eu grito slogans e manifesto-me, mas tento não provocar qualquer confronto com a segurança. Estamos preocupados", desabafava durante a manhã um estudante da Universidade, contactado pela Associated Press.
Quando perceberam que a contenção era impossível, a polícia e a Guarda Revolucionária carregaram sobre os manifestantes com bastões e granadas de gás lacrimogéneo, segundo as testemunhas citadas pela agência. Milhares de manifestantes acorreram às imediações da Universidade para apoiar os estudantes, respondendo com pedras à investida das forças de segurança. A coberto do anonimato, por receio de retaliações, algumas testemunhas afirmam ter ouvido disparos na Rua Enghelab. Pelo menos um manifestante terá ficado ferido.
Confrontos entre estudantes
Para lá das vedações da Universidade de Teerão, cuidadosamente cobertas com faixas de apoio ao ayatollah Ali Khamenei, estudantes leais ao Governo de Mahmud Ahmadinejad mediram forças com os apoiantes de Mir Hossein Mousavi, o líder do movimento de Oposição que contesta os resultados das eleições presidenciais de 12 de Junho. Perto de dois mil estudantes da linha dura fizeram a sua própria marcha entre os muros da Universidade, lançando um grito de protesto contra os dirigentes políticos da Oposição: "Morte aos hipócritas".
Imagens difundidas na Internet mostram grupos de jovens a queimar imagens do Guia Supremo, numa rara quebra de um tabu na República Islâmica do Irão.
A mais recente vaga de protestos contra o regime, depois das manifestações de 4 de Novembro, teve início na passada sexta-feira e já se estendeu a mais sete universidades da capital iraniana e de outras seis cidades do país, de acordo com a organização Campanha Internacional para os Direitos Humanos no Irão, com sede em Nova Iorque. Na Universidade Amir Kabir, em Teerão, as milícias Basij procuraram impedir uma marcha de estudantes, enquanto que na Universidade Sharif, o principal pólo tecnológico do ensino académico no país, milhares de alunos conseguiram bloquear o acesso ao complexo.
Nos últimos dias, Mir Hossein Mousavi voltou a capitalizar o descontentamento entre os estudantes, ao afirmar que o regime islamista está a perder legitimidade aos olhos do povo iraniano. Uma "grande nação", disse o líder da Oposição, "não ficaria em silêncio se alguém confiscasse os seus votos".
Na antecâmara dos protestos, as autoridades detiveram mais de 100 líderes dos estudantes e outros activistas. Quinze mulheres do Comité das Mães em Luto, que agrupa familiares de manifestantes mortos durante as manifestações desencadeadas logo após o processo eleitoral, foram detidas no sábado quando promoviam uma acção de protesto num parque da capital. O ayatollah Ali Khamenei acusa os dirigentes da Oposição de promoverem a fractura da República Islâmica, gerando, assim, "oportunidades" para os seus inimigos.