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Conselho dos Guardiães valida eleição de Ahmadinejad

Conselho dos Guardiães valida eleição de Ahmadinejad

O Conselho dos Guardiães do Irão fechou hoje a porta a uma anulação do processo eleitoral de 12 de Junho, que deu a Mahmud Ahmadinejad um novo mandato na Presidência do país. A decisão do principal órgão legislativo da República Islâmica coincide com uma notícia da agência oficial Irna que situa a tomada de posse dos novos titulares do poder executivo entre 26 de Julho e 19 de Agosto.

RTP /
Mahmud Ahmadinejad recebeu o apoio do Guia Supremo Ali Khamenei na prédica da passada sexta-feira STR, EPA

Os milhares de iranianos que há 11 dias preenchem a malha urbana de Teerão, num prelúdio de revolução, encaixaram nas últimas horas mais três golpes cirúrgicos desferidos a partir dos centros de poder do regime. Machadadas que surgem na esteira da prédica pronunciada pelo ayatollah Ali Khamenei na passada sexta-feira, quando o Guia Supremo do Irão baniu os protestos e entronizou o Presidente reeleito.

Os Guardas da Revolução, a elite do braço armado da República Islâmica criada em 1979 à imagem do ayatollah Ruhollah Khomeini, ameaçavam ontem silenciar com punho de aço, de forma "decisiva e revolucionária", todas as manifestações de apoio ao candidato derrotado por Mahmud Ahmadinejad, o reformista Mir Hossein Moussavi. Decorridas menos de 24 horas, o Parlamento começa a acertar o calendário para a tomada de posse do Presidente e do elenco governativo e o poderoso Conselho dos Guardiães da Constituição procura terraplenar de vez as aspirações da Oposição, rejeitando todas as queixas de irregularidades na contagem de votos da eleição presidencial de 12 de Junho.

"Felizmente, durante a recente eleição presidencial, não constatámos nenhuma fraude ou infracção importantes. Consequentemente, não há possibilidade de anulação", declarou esta terça-feira o porta-voz da mais alta instância legislativa do Irão dos ayatollahs, Abbas Ali Kadkhodaie, citado pela televisão estatal do país.

Na véspera, o mesmo órgão havia admitido a existência de falhas no escrutínio em pelo menos meia centena de distritos. Entre as quais contagens de votos que excederam o número de eleitores recenseados. Contudo, o Conselho dos Guardiães alega que as irregularidades são insuficientes para alterar o desfecho da contabilidade eleitoral, que confiou ao ultraconservador Ahmadinejad 24,5 milhões de votos (63 por cento), uma vantagem de 11 milhões de sufrágios para Moussavi.

Candidatos derrotados exigiam anulação

A anulação do processo eleitoral fora pedida não só por Mir Hossein Moussavi, um antigo primeiro-ministro de Khomeini convertido à ala reformadora dos clérigos Mohammad Khatami e Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, mas também pelo clérigo reformista Mehdi Karoubi. Este último escreveu mesmo uma carta aberta ao Conselho dos Guardiães: "Em vez de perderem tempo a recontar algumas urnas, anulem a votação".

O candidato conservador Mohsen Rezai não foi além da denúncia de irregularidades.

Sem acesso aos interstícios do regime dos ayatollahs, um grupo de analistas britânicos da Universidade de Saint Andrew e do centro de reflexão Chatham House chama a atenção para uma sequência de irregularidades no escrutínio iraniano. Desde logo o anúncio de uma taxa de participação de 85 por cento e inclinações de difícil explicação para a carteira de votos de Mahmud Ahmadinejad. Segundo a edição on-line BBC, os sufrágios outorgados à candidatura do Presidente num terço das províncias iranianas teriam de ter por base um "cenário improvável" dos padrões de votação.

Dias de violência e diplomacia

Apesar dos obstáculos em crescendo, os apoiantes de Mir Hossein Moussavi continuam a sair às ruas de Teerão em protesto contra todos os pilares do regime xiita. Pelo caminho enfrentam as armas da polícia e os impiedosos bastões da milícia Basidj. Dez dias de marchas silenciosas, manifestações sonoras e verdadeiras batalhas urbanas vedadas aos órgãos internacionais de comunicação deixaram um rasto de 17 mortos (balanço do regime), uma centena de feridos e largas centenas de detenções, incluindo cinco figuras próximas do antigo Presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani. Só no passado sábado, até agora o dia de maior violência, a repressão pulverizou dez vidas.

Ao mesmo tempo, sobe de tom o braço-de-ferro diplomático entre o Irão e o Ocidente, com a Grã-Bretanha a assumir as maiores despesas da confrontação. Londres decidiu repatriar as famílias do pessoal da embaixada britânica em Teerão e desaconselhou todas as deslocações não essenciais a território iraniano, no que já foi imitada pelo Governo italiano.

Em Teerão, o deputado iraniano Mahmud Ahmadi adiantou que o Ministério dos Negócios Estrangeiros estaria prestes a chamar o embaixador do Irão em Londres para consultas. Uma informação entretanto desmentida à agência France Presse por uma fonte daquele Ministério.

Das Nações Unidas saiu um novo apelo ao fim da violência e ao respeito pelos direitos civis mais básicos, "especialmente a liberdade de expressão, a liberdade de reunião e a liberdade de informação". Em comunicado, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, insta Teerão a "parar imediatamente as detenções, as ameaças e o uso da força" e "reitera a esperança de que a vontade democrática do povo do Irão seja completamente respeitada".

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