Regime iraniano vê no Ocidente a raiz da “anarquia” e do “vandalismo”

O Governo iraniano culpou hoje o Ocidente pela "promoção da anarquia e do vandalismo" em Teerão, deixando em aberto a possibilidade de expulsar diplomatas acreditados no país. A rádio oficial diz que a capital vive as primeiras horas de acalmia desde a eleição de 12 de Junho, mas o som de disparos preencheu a noite no bastião de apoiantes de Mir Hossein Moussavi.

RTP /
"Teerão testemunhou a primeira noite de calma e paz desde a eleição", noticiava esta segunda-feira a rádio estatal do Irão EPA

"A promoção da anarquia e do vandalismo por parte das potências e dos média ocidentais não é de forma alguma aceitável", lançou em conferência de imprensa o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão. Hassan Qashavi respondia em moeda homóloga à vaga de críticas alimentada nas últimas horas pelos governos do Ocidente.

Se a Casa Branca de Barack Obama cerra fileiras com a Alemanha de Angela Merkel e a França de Nicolas Sarkozy, o Irão de Mahmud Ahmadinejad e do Guia Supremo Ali Khamenei aparece consolidado para suster as munições diplomáticas externas e silenciar uma revolta que, em apenas 24 horas, segundo os números do próprio regime, causou dez mortos e mais de 100 feridos - relatos de testemunhas recolhidos pelas agências internacionais situam em pelo menos 13 o número de vidas ceifadas pela repressão das forças regulares e da milícia islamista Basidj.

Embalado pelo apoio do Ocidente à causa da repetição do escrutínio, o reformista Mir Hossein Moussavi, principal adversário do Presidente reeleito, voltou a socorrer-se da Internet, no domingo, para reafirmar que os "protestos contra as mentiras e a fraude" configuram "um direito". Ao que as autoridades da República Islâmica respondem com a aplicação do rótulo de "terrorista" a cada um dos milhares de cidadãos que há já dez dias desafiam o punho de ferro do regime, numa agitação social que evoca o fervor com que a Revolução Islâmica de 1979 varreu do mapa iraniano o Xá Mohammad Reza Pahlavi.

"Em contradição com padrões reconhecidos a nível internacional, muitos países europeus e a América, em vez de convocar as pessoas para instituições democráticas e enfatizar os canais legais, apoiaram de uma forma geral os amotinados e oportunistas", acentuou o porta-voz do Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros, durante uma conferência de imprensa em Teerão.

Qashavi lembra duelo entre Gore e Bush

Em Londres, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Miliband, voltou a rebater a ideia de que a violência dos últimos dias tenha sido de algum modo instigada pelos poderes políticos do Ocidente. Mas o regime não desarma. Depois de admitir que o Governo está a estudar a possibilidade de expulsar parte dos representantes diplomáticos acreditados no Irão, Hassan Qashavi lembrou que os protestos pró-Moussavi ensaiados em países como a Alemanha acarretaram danos para algumas das missões diplomáticas de Teerão: "Pensamos que ninguém seria capaz de atacar um centro diplomático sem que o governo e a polícia locais fossem informados".

O porta-voz não hesitou em recorrer ao baú da História contemporânea para recordar a polémica corrida presidencial norte-americana de 2000, que opôs o democrata Al Gore ao republicano George W. Bush. Segundo Hassan Qashavi, "ninguém encorajou, então, o povo americano a tentar um golpe ou qualquer coisa do género e acabou por ser o Supremo Tribunal dos Estados Unidos a resolver a questão".

Adiante, Qashavi repetiu um dos argumentos mais agitados pelas altas esferas do regime para desvalorizar as críticas à qualidade da democracia no Irão, ao descrever a taxa de participação na eleição presidencial (85 por cento) como "uma jóia brilhante que ilumina a partir do pico da dignidade da nação iraniana". "Não vamos permitir que os média do Ocidente transformem esta jóia numa pedra sem valor", rematou.

"A primeira noite de calma"

Enquanto os órgãos de comunicação do regime procuram propagar o retrato de uma nação a caminho da acalmia, os iranianos comuns - derradeira fonte de agências, rádios, televisões e jornais internacionais impedidos de cobrir os acontecimentos no terreno - multiplicam os relatos de incessantes capítulos de repressão. É o caso de uma testemunha citada pela Reuters, que, a coberto do anonimato, garantiu que as últimas acções de protesto em Niavaran, no Norte de Teerão, foram sublinhadas por "disparos repetidos".

Na manhã de segunda-feira, a rádio estatal contava uma história diferente: "Teerão testemunhou a primeira noite de calma e paz desde a eleição".

A batalha pelo espaço mediático conheceu o auge com a ordem de expulsão entregue ao correspondente da BBC no Irão, Jon Leyne, ao passo que a guerra contra os círculos reformistas teve um primeiro pináculo nas detenções de cinco familiares do antigo Presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, um rival declarado de Mahmud Ahmadinejad.

A Internet é também o veículo mais utilizado pelos apoiantes de Moussavi para manterem viva a chama da contestação. A última mensagem publicada na página do candidato derrotado exorta os manifestantes a saírem às ruas, esta segunda-feira, com velas negras e laços verdes.

A causa de Mir Hossein Moussavi encontra uma voz de apoio em Mohammad Khatami, o clérigo moderado que ocupou a Presidência do Irão entre 1997 e 2005. Com a pesada engrenagem do Conselho de Guardiães em mente, Khatami alertou para as "perigosas consequências" de uma política de mordaça.

Imunes a todos os apelos à contenção, os Guardas da Revolução, unidade de elite do regime, prometem, em comunicado, esmagar "todas as concentrações ilegais convocadas por alguns candidatos".

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