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Ahmadinejad toma posse para segundo mandato na Presidência do Irão

Ahmadinejad toma posse para segundo mandato na Presidência do Irão

O regime do Irão formalizou esta quarta-feira o início do segundo mandato de Mahmud Ahmadinejad na Presidência do país. Ao tomar posse, o Presidente prometeu proteger a "fé oficial", o sistema da Revolução Islâmica e a Constituição, reservando críticas às "ingerências" do Ocidente. Às portas do Parlamento, a polícia velou pelo silêncio de centenas de apoiantes da Oposição.

RTP /
Os Governos do Ocidente "só querem uma democracia ao serviço dos seus próprios interesses", acusou Ahmadinejad Abedin Taherkenareh, EPA

"Eu, enquanto Presidente da República Islâmica do Irão, juro perante o sagrado Corão, a nação iraniana e Deus que serei o guardião da fé oficial, da República Islâmica e da Constituição", declarou Mahmud Ahmadinejad diante dos membros do Parlamento, numa cerimónia de cuidada coreografia.

O cunho do regime foi, contudo, insuficiente para mitigar o momento de tensão política e social que se vive há já oito semanas no país dos ayatollahs. Enquanto o Presidente tomava posse, centenas de apoiantes do candidato Mir Hossein Moussavi, o político apagado que se tornou o rosto da Oposição, ensaiavam gritos de "ditador" à porta do Parlamento.

No interior do edifício, as ausências dos antigos presidentes Mohammad Khatami e Akbar Hashemi Rafsandjani, aliados estratégicos de Moussavi, pareciam falar mais alto do que o homem entronizado pelo Guia Supremo; assim como a ausência de meia centena de deputados da facção reformista, ou a falta de mensagens de felicitações de países como os Estados Unidos, a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha, ainda que Londres e a União Europeia se tivessem feito representar no cerimonial de Teerão.

Pelo menos dez manifestantes foram subtraídos às manifestações pela polícia de intervenção, que posicionou centenas de homens nas imediações do Parlamento. O aparato policial acabaria por arrefecer o ímpeto dos apoiantes de Mir Hossein Moussavi. Os mesmos que nas últimas semanas contestaram abertamente os resultados da eleição presidencial de 12 de Junho, no mais visível abalo social desde o nascimento do regime desenhado à imagem do Grande Ayatollah Ruhollah Khomeini, em 1979.

"Ninguém no Irão está à espera de parabéns"

Após o juramento, Mahmud Ahmadinejad traçou o preâmbulo de um mandato que em pouco ou nada se deverá apartar dos primeiros anos na Presidência: para consumo interno, a garantia da protecção dos fundamentos da República Islâmica; para exportação, a promessa de que o seu Governo conservador, a formar nas próximas duas semanas, não vai ceder um milímetro na confrontação diplomática com Estados Unidos e aliados no propósito de consolidar o ascendente geoestratégico do Irão no Golfo e no desígnio do programa nuclear.

"Precisamos de unir esforços, de uma vontade nacional. Não tenho outro incentivo que não seja servir o povo e o país e não penso em mais nada a não ser o progresso e o desenvolvimento da nação", começou por proclamar o Presidente reconduzido. Em seguida, atirou-se às capitais perfiladas na trincheira de Washington: "Alguns Governos deviam sentir-se responsáveis pelos seus actos e palavras. Inimigos tentaram pôr em causa a validade da eleição. O povo do Irão quer um diálogo construtivo. Vamos resistir a violações da lei e a abusos".

Os Governos do Ocidente, prosseguiu Ahmadinejad, "só querem uma democracia ao serviço dos seus próprios interesses e não respeitam os direitos de outras nações": "Vêem-se como lanças da democracia e o nosso povo opõe-se a isso, é contra isso que o nosso povo resiste".

O Presidente norte-americano e os líderes políticos de França, Grã-Bretanha, Itália e Alemanha abstiveram-se de enviar qualquer mensagem a Mahmud Ahmadinejad, embora o gabinete de Barack Obama se refira ao Presidente reempossado como o "líder eleito" do Irão.

O gelo diplomático do Ocidente alimentou a ironia de Ahmadinejad, que colheu algumas gargalhadas no Parlamento ao dizer que "ninguém no Irão está à espera dos parabéns de alguém".

Opositores em tribunal

A recondução fora já oficializada na segunda-feira pelo Guia Supremo do Irão. Ao confiar a Presidência a Mahmud Ahmadinejad, Ali Khamenei descreveu o político da linha dura como um homem "corajoso, trabalhador e sábio". Mas tão-pouco os círculos políticos mais fiéis ao regime parecem plenamente satisfeitos com o Presidente. A escolha de Esfandiar Rahim-Mashaie para a vice-presidência, por exemplo, deu lugar a uma vaga de críticas a Ahmadinejad. Que semeou ainda mais descontentamento quando demorou uma semana a anuir às ordens de Khamenei para afastar Rahim-Mashaie.

Pelo menos duas dezenas de pessoas morreram nos confrontos com as forças da ordem que se seguiram ao escrutínio da eleição presidencial. Centenas de manifestantes acabaram detidos. Uma centena deles, incluindo personalidades destacadas do campo reformista, começou a ser julgada no sábado sob a acusação de incitamento aos motins e ao derrube do regime.

Mohammad Khatami, Mir Hossein Moussavi e Akbar Hashemi Rafsandjani, o clérigo que preside à Assembleia de Peritos responsável pela nomeação do Guia Supremo, classificam o processo como um "espectáculo" assente em "confissões inválidas". E prometem continuar a contestar os resultados oficiais da eleição.

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