Ébola. OMS declara "urgência" sanitária internacional

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Um funcionário dos serviços sanitários do Uganda, administra a vacina contra o Ébola a um cidadão da fronteira com a República Democrática do Congo, por suspeitas de contágio
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A Organização Mundial de Saúde acaba de declarar o Ébola como uma "urgência" sanitária internacional.

Um caso da doença em Goma e suspeitas quanto ao possível contágio de cidadãos do Uganda, por uma mulher congolesa que posteriormente morreu do vírus, levaram a OMS a considerar que o atual surto de Ébola na República Democrática do Congo merece ser considerado "uma emergência sanitária internacional".

É a quinta vez na história que a organização da ONU para a Saúde mundial emite esta declaração, a qual inclui recomendações quanto às ações preventivas a tomar e que poderá desbloquear fundos desesperadamente necessários para combater o vírus.

Este é já o décimo surto declarado de Ébola, mas a sua virulência e prevalência é especialmente preocupante. São confirmados 12 novos casos todos os dias, e a OMS considera "muito elevado" o risco da epidemia alastrar a mais regiões além das províncias de Kivu Norte e Ituri, da RDC, onde tem estado confinada.A OMS alerta ainda que, para se por fim ao surto de Ébola, os ataques às operações de combate à disseminação do vírus, naquelas províncias congolesas, têm de acabar.

O Comité de Emergência da OMS já se reuniu quatro vezes sobre o surto na RDC, que dura há 11 meses. No mês passado, decidira que seria prematuro aplicar o estatuto de urgência mundial à epidemia, num cenário que acarretaria riscos para a economia precária do país.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou contudo já esta semana, que o caso em Goma, a maior cidade da RDC, com um milhão de habitantes, mudava tudo, por indicar que o Ébola poderá estar a disseminar-se entre as populações urbanas e a alastrar inclusivé ao vizinho Ruanda.

Um outro relatório publicado pela OMS, elaborado pelo ministério ugandês da Saúde, refere que o distrito de Arua, no Uganda, que faz fronteira com uma área congolesa afetada, está sob risco elevado de contágio. Duas mortes estão ali a ser analisadas.
Uganda em alerta
De acordo com esse relatório, o Ébola poderá ter sido levado para a região através de uma mulher que passou ilegalmente a fronteira vinda da RDC, a 11 de julho passado, para vender peixe no mercado de Mpondwe. Ali, vomitou por quatro vezes.

As autoridades estimam que a mulher, que morreu depois de Ébola, terá contactado com cerca de duas centenas de pessoas. Os serviços ugandeses admitem a necessidade de vacinar 590 pessoas da região.

Pelo menos 19 vendedores de peixe estão incluídos na lista, mas as autoridades do Uganda e da RDC ignoram ainda onde é que a mulher pernoitou, quem lhe transportou a mercadoria e quem limpou o vómito

Até agora, "não identificámos casos positivos do vírus Ébola. A equipa ainda está a monitorar os comerciantes testado", afirmou o porta-voz do Ministério da Saúde do Uganda, Emmanuel Ainebyona.

Tanto o Ministério ugandês como a OMS afirmam que não foram confirmados casos de Ébola nos últimos dias no país.

O atual surto da doença, altamente contagiosa, estava até agora praticamente confinado à RDC, onde matou já 1,673 pessoas, o equivalente a dois terços dos infetados no último ano.

Três mortes no Uganda devido ao vírus, foram também confirmadas.
Ambiente complexo
A resposta sanitária ao vírus do Ébola baseia-se em encontrar e testar pessoas que possam ter sido expostas e vaciná-las, a elas e a quaisquer outras pessoas com quem possam ter estado em contacto.

No fim-de-semana foi confirmado o primeiro caso em Goma, cidade de mais de um milhão de habitantes a sul destas duas províncias, localizada na margem norte do Lago Kivu e próxima da cidade Ruandesa de Gisenyi, no extremo ocidental do Vale do Rift. Foram já vacinados mais de três mil funcionários dos serviços de Saúde em Goma, mas mais ações são necessárias para conter o surto.

Domingo passado, 14 de julho, o diretor-geral da OMS, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, reuniu em Genebra o Comité da organização para as emergências, para ter todos os elementos e decidir se se declarava ou não o estado de "emergência mundial".

"Juntos, com o Governo, podemos e devemos por fim a este surto. Temos as melhorea armas de saúde pública de sempre para combater o Ébola, incluindo uma vacina eficaz", lembrou Tedros na ocasião.

O vice-secretário geral da ONU para os Assuntos Humanitários e Coordenação de Ajuda de Emergência, Mark Lowcock, o ministro da Saúde da RDC, Oly Ilunga, o ministro para a Solidariedade e Ação Humanitária, Bernard Biando Sango e o secretário de Estado britânico para o desenvolvimento, Rory Stewart, foram os oradores principais.
Quase 200 ataques em sete meses
A dicultar a ação das operações de controlo da disseminação do vírus, estão ataques de grupos armados e diversoa atos de violência. Ambas as províncias afetadas da RDC pelo Ébola são pobres em infraestruturas e ricas em instabilidade política e violência de milícias armadas, agravadas pela desconfiança da população local quanto às autoridades centrais e estranhos, refere a OMS.

Desde janeiro de 2019, registaram-se 198 ataques contra ações de vacinação, que fizeram sete mortos e feriram 58 funcionários e pacientes.

"O décimo surto de Ébola é uma crise de saúde pública que ocorre num lugar caracterizado por desafios de desenvolvimento e deficiências no sistema sanitário", referiu o ministro congolês, Oly  Ilunga.

"O Governo reconhece as grandes dificuldades em controlar este surto de Ébola, no nosso país. A resposta tem decorrido num ambiente muito complexo, mas como apoio dos nossos amigos da comunidade internacional, os congoleses estão determinados em reduzir a zero o número de casos", lembrou por seu lado Biando Sango.

A OMS apelou por seu lado à colaboração de todos na RDC, para dominar o surto.

"Necessitamos do apoio político de todos os partidos, e o reconhecimento das comunidades, para os funcionários poderem trabalhar em segurança e sem interrupções. Esta é a única forma de parar a progressiva disseminação do vírus", afirmou Tedros.

"Precisamos de ver o fim dos ataques e de outras interrupções da resposta", avisou ainda o diretor-geral da OMS.

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