Economia chinesa começa a abrandar e entra numa “nova fase de abertura”

A economia chinesa vai crescer 7,5 por cento em 2012, naquele que será o valor mais baixo registado nos últimos sete anos. A previsão foi avançada hoje pelo governo do país asiático durante a abertura da sessão anual da Assembleia Nacional Popular. Perante quase três mil delegados, o primeiro-ministro Wen Jiabao declarou que o atual modelo de desenvolvimento económico chinês é “desequilibrado, descoordenado e insustentável” e anunciou que vem aí “uma nova fase na abertura” da economia chinesa ao mundo.

Ana Sanlez, RTP /
O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, e o presidente Hu Jintao aplaudem o início da Assembleia Nacional Popular Adrian Bradshaw/ EPA

Numa espécie de discurso sobre o “Estado da Nação” que assinalou o início do ano político na China, Wen Jiabao sublinhou que a descida da meta de crescimento do PIB para este ano assenta na necessidade de “aumentar o consumo interno”. Esta reorientação do modelo económico é, para o líder chinês, “essencial para assegurar o duradouro, firme e robusto desenvolvimento da China”.

Uma tarefa que requer, como o próprio governo reconhece, “uma nova fase na abertura económica”. Assim, a “chave para resolver os problemas” da segunda maior economia mundial será “acelerar a transformação do padrão de desenvolvimento e promover o estratégico ajustamento da estrutura económica", tal como definiu Wen Jiabao ontem no Palácio do Povo em Pequim.

Esta “nova fase” implica ainda, de acordo com o relatório do Governo, que seja implementada uma “mudança profunda” em relação à “posição e ao papel das importações e das exportações, assim como do investimento nos dois sentidos”. Por outras palavras, os líderes chineses querem acalmar o ritmo das exportações, que devem permanecer “estáveis”, e “encorajar o consumo” interno.

Ao mesmo tempo, o país deve adotar “novas maneiras de pensar para mudar o modo de crescimento económico externo e abrir ainda mais a economia chinesa”. Foi neste sentido que Jiabao se comprometeu a “aliviar as restrições” quanto ao investimento privado fora da China e a “promover a reforma das grandes instituições financeiras estatais”.

"Isto é, simultaneamente, uma tarefa de longo prazo e a nossa mais urgente tarefa atual", concluiu o líder chinês, em sintonia com os números: em 2011, o comércio externo da China aumentou 22,5 por cento para 2,76 mil milhões de euros, com as importações a crescerem mais 4,6 por cento que as exportações.

No ano passado o PIB chinês registou um crescimento de 9,2 por cento, mais 1,7 por cento do que está previsto para 2012. Os valores significam ainda um abrandamento da economia na ordem dos 2,4 por cento em relação à média anual registada desde o início da política de "Reforma Económica e Abertura ao Exterior", adotada no final da década de 1970.

Wen Jiabao declarou ainda que a inflação deve manter-se "em cerca de 4 por cento", menos 1,4 por cento do valor atingido no ano passado, e fez saber que entre os principais objetivos do desenvolvimento económico e social para 2012 está a estabilização do desemprego urbano abaixo dos 4,7 por cento.

Crise global traz "problemas" à China
Estas propostas vêm em linha com o que tem sido defendido por entidades como o Banco Mundial ou o FMI. Na passada semana, um estudo divulgado pelo Banco Mundial em conjunto com um grupo de investigadores do Governo chinês, concluía que a economia do país atingiu por esta altura “um ponto de viragem”. O estudo alertava para a urgência de medidas como a redução do peso das grandes empresas monopolistas do Estado em setores como a banca, e promover o acesso ao financiamento a pequenas e médias empresas.

A crise internacional não foi esquecida pelo líder da potência asiática. Wen Jiabao deu conta que a recuperação global será "difícil e tortuosa” e que graças à “volátil” conjuntura internacional a economia chinesa "está a encontrar novos problemas". O primeiro-ministro considerou porém que, "no conjunto, a situação é favorável ao desenvolvimento pacífico da China".

Perante o parlamento, Jiabao defendeu ainda a urgência em "atenuar o desmesurado consumo de energia", contatando que ao "poupar energia, melhorar a eficiência energética e reduzir a poluição, mostraremos ao mundo que a China nunca procurará alcançar o crescimento económico à custa do seu ambiente ecológico e da saúde pública".

Sobre o campo da Defesa, Wen Jiabao incitou ao aumento do poder militar da China para "vencer guerras locais na Era da informação", tal como patenteia o relatório do governo.

A Assembleia Geral Popular, que constitucionalmente é difinida como "o supremo órgão do poder de Estado" na China, decorre até ao próximo dia 14 de março e vai aprovar o Orçamento do Estado para 2012, a revisão do Código do Processo Penal, o plano anual de Desenvolvimento Económico-social e os relatórios do Supremo Tribunal e da Procuradoria-geral.

Esta é a última Assembleia liderada por Wen Jiabao, que em 2013 vai dar lugar, previsivelmente, ao atual vice-primeiro ministro do país. O XVIII Congresso do Partido Comunista Chinês, onde serão escolhidos os novos líderes, terá lugar no outono.

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