Economia instável. China lança investigação sem precedentes à corrupção na Saúde

A China tem em curso uma investigação sem precedentes de combate à corrupção na área da saúde, focada em hospitais, indústria farmacêutica e seguradoras. Só este ano já foram investigados mais de 180 líderes hospitalares no país. A atual campanha acontece durante tempos conturbados na economia chinesa e entre queixas da população sobre os custos elevados dos cuidados médicos.

Joana Raposo Santos - RTP /
A campanha anti-corrupção inclui linhas telefónicas para denúncia de corrupção no setor da saúde. Cnsphoto via Reuters

A campanha anti-corrupção foi anunciada recentemente pela Comissão Nacional de Saúde da China, que prometeu que as dez agências nacionais envolvidas vão combater os lucros e utilização indevida de fundos de seguros de saúde.

Para além das quase duas centenas de chefes hospitalares investigados este ano, foram também alvo de escrutínio secretários do Partido Comunista Chinês. Segundo a agência estatal China News Service, pelo menos dez desses indivíduos entregaram-se voluntariamente às autoridades desde junho.

Os cerca de 180 investigados representam mais do dobro do número de casos registados no ano passado, num país onde muitos hospitais têm sido acusados de prescrever tratamentos em excesso para ganharem mais dinheiro e de receberem pagamentos de representantes da indústria farmacêutica para a aquisição e prescrição de alguns medicamentos.

A investigação a elementos do Partido Comunista Chinês é recorrente: o ano passado, dados do próprio partido indicavam que quase cinco milhões de membros foram investigados ao longo da última década, resultando em 553 acusações criminais.O Partido Comunista terá cerca de 100 milhões de membros.

Um dos investigados recentemente foi o presidente de um pequeno hospital da província de Yunnan que, alegadamente, desviou mais de 2,2 milhões de dólares durante o processo de aquisição de um dispositivo médico para o tratamento do cancro, em 2021.
"Severidade das coimas é impressionante"
A campanha anti-corrupção inclui linhas telefónicas para denúncia de corrupção no setor. Na cidade de Xangai, no início do verão avançou-se com um sistema de recompensas a quem reportasse atividades ilegais à agência de supervisão do mercado.

“A velocidade a que os governos locais realizaram investigações e a severidade das coimas aplicadas são impressionantes”, considerou Ren Jianming, diretor do Centro de Investigação para a Integridade na Universidade de Beihang, em declarações à CNN internacional.

Na mesma linha, a imprensa chinesa tem vindo a descrever a campanha como “sem precedentes na profundidade, amplitude e intensidade” com que está a atingir o setor dos cuidados de saúde.

Pequim não explicou as razões pelas quais decidiu avançar com a campanha, mas alguns analistas acreditam que esta pode estar relacionada com as preocupações económicas que se fazem sentir no país.
Economia em queda
Apesar de continuar a ser reconhecida como uma das maiores economias do mundo, a China enfrenta agora um declínio nesta área. A taxa de desemprego continua a crescer, as receitas a diminuir e as tentativas de estímulo económico a falhar.

“Dado o abrandamento económico e a redução das receitas fiscais, os governos locais endividados não têm capacidade para investir mais no setor médico e a corrupção continua a ser um problema”, disse à CNN Yanzhong Huang, responsável do think tank norte-americano Council on Foreign Relations.

“Se não se investir no setor médico a insatisfação das pessoas vai continuar a aumentar, por isso [o Governo] precisa de um bode expiatório para resolver esse problema – representantes médicos, gerentes hospitalares e médicos são forçados a serem esses bodes expiatórios”, acrescentou.

Se a atual campanha de combate à corrupção na Saúde for bem-sucedida, os custos destes cuidados podem ser reduzidos, respondendo, assim, às queixas da população. Apesar da ampla cobertura dos seguros de saúde no país, os valores continuam a ser pesados para muitos dos habitantes.

A campanha tem também potencial para desviar a atenção do público de outros problemas do país e permitir aos governos locais endividados o aumento dos fundos, especialmente necessários após quase três anos de elevados custos com a pandemia de covid-19.

c/ agências
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