Eleições na região de Castela e Leão podem deixar PP dependente do Vox

O Partido Popular antecipou as eleições regionais em Castela e Leão para este domingo, tentando repetir o sucesso de Madrid, mas pode ficar dependente do partido Vox, da extrema-direita, e o PSOE voltar a ser o mais votado.

Lusa /
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Direita e esquerda espanholas enfrentam-se nesta região a pensar nas legislativas nacionais de 2023, com a direita a aproveitar todas as oportunidades para atacar o atual Governo nacional que é assegurado por uma coligação minoritária do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) com o Unidas Podemos (extrema-esquerda).

O Partido Popular (PP, direita) domina há 35 anos a maior das comunidades espanholas (ligeiramente maior do que o território português) e ao mesmo tempo aquela que tem menos população em termos relativos (25 habitantes por quilómetro quadrado), e um total de cerca de 2,4 milhões de pessoas.

Segundo as últimas sondagens, tudo ainda é possível, porque um em cada cinco eleitores diz que não decidiu em quem vai votar.

A questão fundamental é saber se o PP vai ser capaz de se manter no poder, que salvou `in extremis` nas últimas eleições, em 2019, graças ao apoio do Cidadãos (direita-liberal), apesar de o PSOE ter sido o mais votado.

O otimismo inicial tem dado lugar à incerteza no PP, com as sondagens na reta final da campanha a afastarem a possibilidade de obter uma maioria absoluta nas cortes de Castela (41 deputados num total de 81), o que complica o objetivo de não depender do Vox (extrema-direita).

"Penso que a soma dos votos do PP com o Vox irá dar para eleger mais de 41 deputados", disse à Lusa o professor de Meios de Comunicação e Política da Universidade de Navarra Carlos Barrera, acrescentando que "o grande receio do PP é que o Vox exija estar no governo regional".

O presidente desta comunidade autónoma espanhola, que faz fronteira com o nordeste de Portugal, convocou em finais do ano passado eleições regionais antecipadas para 13 de fevereiro, este domingo, depois de ter dissolvido o parlamento da região.

Alfonso Fernández Mañueco justificou a sua decisão pela "falta de lealdade" do seu parceiro de coligação, Cidadãos (direita-liberal), que acusa de ter negociado o orçamento nas suas costas e de estar também envolvido numa hipotética moção de censura, que poderia ser apresentada pelo PSOE.

A decisão coincidiu com um momento em que o PP aumentava o tom da sua oposição ao Governo nacional de esquerda liderado pelo socialista Pedro Sánchez, pretendendo consolidar a sua aparente subida eleitoral.

O PP gostava de repetir o sucesso que em maio do ano passado teve em Madrid Isabel Díaz Ayuso, do mesmo partido, que conseguiu chegar muito perto da maioria absoluta.

A poucos dias das eleições em Castela e Leão, as incertezas sobre o futuro governo estão a aumentar e o que parecia ser uma vitória fácil do PP tornou-se mais complicado, sendo o resultado agora incerto.

As últimas sondagens publicadas na segunda-feira, último dia em que se podiam divulgar, apontam para uma erosão do PP e um crescimento do Vox e dos candidatos regionais dos movimentos ligados à `España Vaciada` (`Espanha Esvaziada` em português).

Estes estudos sobre as intenções de voto aumentam as incógnitas sobre o resultado de domingo, com PP e PSOE à frente com cerca de 30% das intenções de voto, Vox 11%, Cidadãos e Unidas Podemos 7% e as plataformas regionais da `Espanha Esvaziada` a ganhar força na reta final da campanha.

Estes últimos movimentos que concorrem separadamente em cada uma das nove províncias da comunidade autonómica passaram de 6% dos votos e dois deputados nas cortes de Valladolid em 2019 (um para a `Unión por el Pueblo Leonés` e outro para `Por Ávila`) para uma estimativa, agora, de 15% e até seis lugares na assembleia de 81 membros.

As plataformas regionais desvalorizam a ideologia e colocam o acento tónico na defesa dos seus territórios, sendo incerto se irão entregar, em caso de empate, o poder do executivo regional à esquerda ou preferem mantê-lo nas mãos da direita.

O PP está preocupado com a ascensão destes movimentos, que ameaçam a maioria desejada por Alfonso Fernández Mañueco quando decidiu antecipar as eleições.

O candidato do PP revelou no início desta semana a sua preocupação com estas candidaturas, lançando um ataque agressivo contra elas: "os localismos em Castela e Leão são como os separatistas em Espanha", criticou, acrescentando que "geram instabilidade, incerteza e ineficiência".

Para Carlos Barrera, "ainda está para se ver" se os movimentos da `Espanha esvaziada` vão atrair o "voto de refúgio dos que estão fartos dos grandes partidos", PSOE e PP que governam Espanha há várias décadas.

Este catedrático pensa que a campanha se concentrou demasiado em temas relacionados com o campo e os seus problemas de despovoamento e falta de infraestruturas, visto que, segundo ele, a maior parte dos eleitores da comunidade autónoma vivem em cidades de dimensão mediana, que na maior parte dos casos são capitais de província.

As eleições regionais nesta região marcam o início de um ciclo eleitoral que o PP quer usar para desgastar Sánchez, no qual o Vox ameaça consolidar a sua posição, e todos parecem posicionar-se para as legislativas nacionais que se devem realizar em finais de 2023.

Os socialistas esforçaram-se por manter à distância o debate sobre temas nacionais e encorajaram a mobilização do seu eleitorado e a divisão da direita.

Vários líderes nacionais de todos os partidos participaram na campanha eleitoral de Castela e Leão, nomeadamente o primeiro-ministro e secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, acompanhado por uma dezena de dirigentes e ministros socialistas.

Na reta final da campanha, o PP parece estar nervoso com a tendência de queda nas sondagens, tendo o líder regional preferido ter a seu lado a presidente vencedora da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, em vez do líder nacional do partido, Pablo Casado.

A direita também denunciou nos últimos dias aquilo que considera ser o aproveitamento de Sánchez do cargo de primeiro-ministro, para lançar anúncios oficiais favoráveis ao PSOE durante vários eventos eleitorais.

O Governo nacional terá nos últimos dias intensificado e concentrado grande parte dos seus anúncios em medidas de forte significado social, com atividade focada em aspetos-chave para o mundo rural, tais como o despovoamento e o sector primário, a alguns dias das eleições em Castela e Leão.

"Todos os Governo fazem este tipo de gestos", assegura Barrera, considerando serem "manobras de propaganda" que não fazem "grande diferença" na escolha final dos eleitores.

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