Energia nuclear. A alternativa às energias renováveis?

por Joana Raposo Santos - RTP
As energias renováveis enfrentam desafios que poderiam ser contornados caso se usasse, como complemento, a energia nuclear. David W Cerny - Reuters

Apesar das suas décadas de existência, a energia nuclear continua a despertar receios entre a população e a estar no centro de controvérsias - especialmente depois de Chernobyl e Fukushima. Nos últimos tempos tem, porém, surgido como possível solução para combater as alterações climáticas devido ao potencial para substituir os combustíveis fósseis. Em construção nos Estados Unidos está já um novo modelo de reator, mais pequeno, barato e seguro, que poderá no futuro ajudar a atingir a neutralidade carbónica.

Governos por todo o mundo têm traçado, nos últimos anos, planos para atingir metas climáticas e travar as alterações causadas por gases e combustíveis poluentes. Para tal, apostam essencialmente no uso de energias renováveis.

Estas podem, no entanto, não ser a solução perfeita devido ao chamado “problema de intermitência”: a energia eólica só é gerada quando há vento, tal como a solar só é possível quando há sol. As renováveis enfrentam, assim, desafios que poderiam ser contornados caso se usasse, como complemento, a energia nuclear.

Nesse sentido, os especialistas estão a tentar consciencializar o público para o risco/benefício desta energia e acabar com a rivalidade entre apoiantes do nuclear e os seus opositores.

“Penso que as pessoas têm tendência a juntar-se a uma equipa e a torcer por ela. Vejo uma exuberância irracional por parte de alguns colegas da área nuclear, mas vejo o mesmo por parte dos defensores das energias renováveis”, contou o docente e presidente do Departamento de Energia Nuclear e Radiologia da Universidade do Michigan, Todd Allen, ao site de notícias The Daily Beast.

Na Suécia, em cerca de duas décadas passou a ser gerada mais eletricidade via nuclear do que através da queima de combustíveis fósseis. E, segundo a revista Scientific American, se os restantes países seguissem este exemplo “todas as centrais movidas a combustíveis fósseis poderiam ser substituídas por centrais nucleares em pouco mais de 30 anos”.
“A energia nuclear não gera muito lixo”
Havendo aparentemente poucas desvantagens no uso desta energia, o que está, então, a travá-lo? Para muitos especialistas da área, o problema reside no receio das pessoas provocado por desastres graves nas últimas décadas, nomeadamente os de Chernobyl e Fukushima.

Os mesmos especialistas relembram, porém, que ambos os reatores destas centrais foram construídos na década de 1970. Hoje em dia, defendem, os reatores modernos são mais seguros e desenvolvidos especialmente para garantir que muito dificilmente provocariam uma catástrofe caso sejam bem utilizados.

Quanto ao medo dos resíduos radioativos gerados pela energia nuclear, os peritos consideram tratar-se de um “assunto sobrestimado”. “A energia nuclear não gera muito lixo”, explicou Todd Allen ao Daily Beast. “O problema é que o pouco lixo que faz tem de ser tratado de forma muito cuidadosa”.

Mas, mesmo ultrapassada a questão da segurança, a energia nuclear continua a ter pela frente dois grandes obstáculos: o tempo e o dinheiro. Nos Estados Unidos, os projetos no campo da nuclear têm avançado a ritmo muito lento. E dois reatores sob construção no Estado da Geórgia já custaram milhares de milhões de dólares acima do esperado nos últimos nove anos.

Para que também essas dificuldades possam ser ultrapassadas, os especialistas da área têm procurado desenvolver “reatores modulares pequenos” (SMR, na sigla original), nome dado a um novo tipo de reatores de menor dimensão do que os convencionais e que podem aumentar a eficiência e reduzir os custos.

Os SMR podem mesmo chegar a ser 90 por cento mais pequenos do que os reatores nucleares tradicionais, uma vez que possuem menos componentes mecânicas e funcionam com menos material radioativo. Assim sendo, produzem menos calor e conseguiriam operar debaixo de terra com sistemas de arrefecimento mais simples.

Estes fatores tornam, também, estes novos reatores muito mais seguros. Em teoria, seria fisicamente impossível acontecer um desastre como o de Chernobyl com um reator SMR.
Os novos reatores que podem evitar desastres como o de Chernobyl
A inovação trazida pelos “reatores modulares pequenos” tem despertado o interesse de personalidades e investidores por todo o mundo. É o caso de Bill Gates, que em 2006 fundou a TerraPower, empresa que agora se encontra a construir versões teste de SMR no Estado norte-americano de Wyoming.

Em 2020, a empresa NuScale foi a primeira a conseguir a aprovação da Comissão Reguladora Nuclear dos EUA para a sua versão de um SMR e tenciona, até 2030, ter os seus primeiros reatores em pleno funcionamento.

Inicialmente, os reatores deverão conseguir produzir 720 megawatts de energia, o suficiente para abastecer a cidade de Idaho Falls, no Estado de Idaho. A esperança da NuScale é que, daí em diante, seja possível alimentar centenas de milhares de habitações em toda a região.

Em declarações ao Daily Beast, o presidente da Comissão Reguladora Nuclear frisou que “pode ainda demorar muito tempo” até que este tipo de tecnologia seja desenvolvido. “Construir pela primeira vez um reator pioneiro é um verdadeiro desafio. Nos próximos dez anos não deveremos ver muitas novidades neste campo”, clarificou Allison Macfarlane.

Essa demora pode não ser uma boa notícia para o ambiente, uma vez que o nuclear é visto como um bom complemento às renováveis. “Não é possível reduzir significativamente as emissões de carbono sem a energia nuclear”, disse recentemente à Associated Press o presidente da distribuidora de eletricidade norte-americana TVA, Jeff Lyash.

O próprio presidente da reguladora norte-americana para a energia nuclear disse ser necessário “descarbonizar imediatamente” em prol do planeta. “Precisamos de fazer isso o mais rápido possível e a tecnologia certa é a que nos conseguir levar nesse sentido”, defendeu.
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