Entre negociações para cessar-fogo, Israel apresenta plano de evacuação de zonas de combate

por Inês Moreira Santos - RTP
Mohammed Saber - EPA

Às primeiras horas desta segunda-feira, o Exército israelita apresentou ao Gabinete de Guerra um plano para "retirar a população" das "zonas de combate" na Faixa de Gaza. A informação foi confirmada pelo gabinete do primeiro-ministro de Israel, apesar de se manterem os alertas para uma escalada da ofensiva na cidade de Rafah.

Este “próximo plano operacional” foi submetido para aprovação na segunda-feira, indicou ainda o gabinete de Netanyahu, embora na declaração não seja mencionada Rafah.

Os Estados Unidos tinham alertado que não apoiariam qualquer operação militar na cidade sem um plano “credível” para retirar os palestinianos. Mas o plano apresentado esta segunda-feira também inclui, de acordo com as autoridades israelitas, o fornecimento de assistência humanitária a Gaza, “de forma a evitar os assaltos que aconteceram a norte e noutras regiões”.

Este anúncio surge antes da anunciada ofensiva terrestre israelita em Rafah, cidade sobrepovoada do sul do território palestiniano, considerada por Benjamin Netanyahu como o “último bastião” do movimento islamita Hamas. No início de fevereiro, o Governo israelita anunciou que tinha ordenado às Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) que elaborassem um plano para a evacuação de civis nesta cidade junto da fronteira fechada do Egito, onde se refugiaram e ficaram cercadas mais de um milhão de pessoas.

Ao mesmo tempo que prosseguiam negociações no Catar destinadas a garantir uma nova trégua na guerra contra o Hamas, no domingo, o Executivo de Netanyahu continuou a alertar para esta operação militar.

“Não podemos deixar o último reduto do Hamas sem acabar com ele”, disse Netanyahu. “Se não tivermos um acordo, faremos de qualquer maneira. Tem que ser feito”.

A ofensiva em direção a esta cidade do sul da Faixa de Gaza apenas será “adiada” caso seja concluída uma nova trégua, advertiu o primeiro-ministro israelita em declarações à cadeia televisiva norte-americana CBS. Se for para a frente esta operação, Israel ficará “a algumas semanas” de garantir uma “vitória total” sobre o movimento islamita, afirmou.
Hamas acusa Israel de “não estar preocupado”
Nas declarações de domingo sobre um possível acordo de cessar-fogo e de libertação de reféns, Benjamin Netanyahu afirmou que o Hamas tinha de “chegar a uma situação razoável”.

“Eles estão num outro planeta. Mas se chegarem a uma situação razoável, então sim, teremos um acordo de reféns. Espero que sim”, disse o primeiro-ministro israelita em entrevista à CBS.

Em reação a estas declarações, um alto funcionário do Hamas, Sami Abu Zuhri, considerou que os comentários de Netanyahu lançam dúvidas sobre a disposição de Israel em garantir um acordo.

“Os comentários de Netanyahu mostram que ele não está preocupado em chegar a um acordo”, disse Abu Zuhri à Reuters, acusando o líder israelita de querer “prosseguir as negociações entre bombardeamentos e derramamento de sangue”.

Enquanto prosseguem no Catar as negociações na perspetiva de uma nova trégua, a cidade de Rafah foi atingida no domingo por novos bombardeamentos, para além dos violentos combates que prosseguem na cidade em ruínas de Khan Yunis, um pouco mais a norte. O Ministério da Saúde de Gaza, tutelado pelo Hamas, referiu-se a 86 mortos nas últimas 24 horas.

Entretanto, a organização Human Rights Watch acusou Israel de desrespeitar uma ordem do Tribunal Internacional de Justiça ao não prestar ajuda humanitária e serviços básicos à população de Gaza.

Em janeiro, o TIJ ordenou a Israel que "tomasse medidas imediatas e eficazes para permitir a prestação de serviços básicos e de ajuda humanitária urgentes e necessárias", acrescentando que devia apresentar um relatório sobre o cumprimento de iniciativas específicas "no prazo de um mês". Mas segundo disse esta segunda-feira a organização não-governamental, "passado um mês", o Governo de Israel continua a "impedir" a prestação de serviços básicos e a entrada e distribuição de combustível assim como de ajuda essencial.

Para a HRW com sede nos Estados Unidos, Israel está a cometer atos de "punição coletiva" que equivalem a "crimes de guerra" por incluírem a fome como arma de guerra.

"O Governo israelita está a matar à fome os 2,3 milhões palestinianos de Gaza, colocando-os ainda mais em perigo do que antes da ordem vinculativa do tribunal", disse Omar Shakir, diretor da Human Rights Watch para Israel e Palestina, num comunicado. "O Governo israelita simplesmente ignorou a decisão do tribunal (TIJ) e, de certa forma, até intensificou a repressão, incluindo o bloqueio da ajuda essencial".

A HRW urge os "países a usarem todas as formas de influência, incluindo sanções e embargos, para pressionar o Governo israelita a cumprir as ordens vinculativas do tribunal no caso de genocídio".
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