Entrevista à RTP. Lavrov acusa Ocidente de não estar interessado nas negociações de paz

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Evgenia Novozhenina - Reuters

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, deu uma entrevista ao correspondente da RTP em Moscovo em que rejeitou todas as acusações que têm sido feitas a Moscovo e atirou-as particularmente aos EUA. O chefe da diplomacia russa acusou o Ocidente de não estar interessado numa solução de paz enquanto a Ucrânia não alcançar os seus objetivos. Incriminou ainda os países ocidentais de terem rompido todas as relações com Moscovo. "Não fechamos as portas ao Ocidente. São eles que procuram isolar-se de nós", considerou.

Durante os 50 minutos de entrevista com o correspondente da RTP em Moscovo, Evgueni Mouravitch, Sergey Lavrov manteve-se sempre fiel à retórica que tem sido assumida pelo Kremlin nos últimos meses e refutou todas as acusações dirigidas à Rússia.
Sergey Lavrov em entrevista exclusiva ao correspondente da RTP em Moscovo, Evgueni Mouravitch.

O MNE russo rejeitou que a Rússia tenha desistido das negociações de paz no conflito russo-ucraniano e apontou que a resolução está nas mãos de Vladimir Putin e de Joe Biden, afirmando que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, é apenas uma marioneta nas mãos do Ocidente.

Todos sabem que o Zelensky é uma figura que não tem a mínima autonomia. Dizem-lhe o que deve fazer, traçam-lhe uma linha de conduta. Seguindo essa linha, ele, claro, improvisa, dependendo do estado das coisas em cada dia concreto. De facto não faz sentido conversar com ele”, disse o ministro russo à RTP.

Até porque, acrescentou Lavrov, “a fórmula de paz de Zelensky é amplamente conhecida: reivindica a capitulação e a punição para a Federação Russa e a obtenção de reparações. Só depois disso poderiam seguir negociações e entendimentos de paz”.

Por outro lado, Lavrov considerou que Joe Biden também não parece estar muito interessado nas negociações de paz. “Pelo menos não tem mostrado interesse”, afirmou.

O chefe da diplomacia russa acusou os EUA de “nunca se terem pronunciado a favor da busca de uma solução de paz” e de terem recusado acordos sob o pretexto de ser “precoce parar com as ações de guerra”.

“Não fomos nós que desistimos das negociações”, disse Lavrov, lembrando que em março do ano passado, Moscovo e Kiev chegaram a um entendimento, “mas os anglo-saxónicos, representados por Washington e Londres, proibiram Zelensky de o aceitar”.

“Eles acharam que, uma vez que os russos estavam prontos a assinar o acordo, convinha prosseguir com a guerra, para esgotar ainda mais a Rússia, extorquindo dela entendimentos com cedências maiores que fossem convenientes à Ucrânia”, disse Lavrov.
Líderes "não falam em negociações"
Na visão de Lavrov, um dos exemplos da manipulação ocidental foi o massacre de Bucha, onde morreram mais de 300 pessoas. Para o ministro russo, o massacre naquela cidade ucraniana foi “uma das encenações mais cínicas que conhecemos” e foi “um episódio aproveitado para desistir da assinatura dos entendimentos de paz com a Rússia”, bem como para mais uma ronda de sanções contra Moscovo.

“Eles não falam em negociações, mas sim no campo de batalha”, acrescentou, afirmando que o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, e o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, bem como toda a Administração norte-americana defendem, em primeiro lugar, “a necessidade de derrotar estrategicamente a Rússia no campo de batalha”.

“O nosso presidente já disse há um ano e repetiu várias vezes que nós não desistimos das negociações”, disse Lavrov.

Questionado sobre a possibilidade de a guerra sair das fronteiras da Ucrânia e se alastrar aos países da NATO, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros respondeu que o conflito atual é já uma “guerra de todo o Ocidente contra a Federação Russa”, com a Ucrânia a ser usada “como material dispensável, cujos soldados recebem injeções de drogas para não sentirem a dor antes de serem puxados, tal como gado, para a linha da frente”.

Confrontado ainda com o receio da população mundial em relação a um conflito nuclear, Lavrov disse que o mundo deve estar assustado com o Ocidente e não com a Rússia.

“Olhem e analisem as declarações dos líderes da UE e da NATO. É uma retórica extremamente agressiva”, disse o chefe da diplomacia russa, salientando que os líderes ocidentais são aqueles que têm abordado e ameaçado a Rússia com o uso de armas nucleares.

“Quado ameaçam, diária e repetidamente, pelo mundo inteiro, derrotar estrategicamente a Rússia – um país nuclear – convém que os vossos telespetadores tomem em conta essa questão, para distribuírem equiparadamente os sustos que têm, diria eu”, disse Lavrov durante a entrevista.
“Não fechamos as portas ao Ocidente"
Lavrov recusou também que a Rússia tenha cortado os laços com o Ocidente e afirmou, por sua vez, que são os países ocidentais que se estão a afastar de Moscovo.

“Nós não rompemos as relações com o Ocidente. O Ocidente é que rompeu todas as relações connosco”, disse Lavrov ao correspondente da RTP em Moscovo, salientando que as relações ficaram mais tensas muito antes da ofensiva russa na Ucrânia, em dezembro de 2016. Nessa altura, Barack Obama – que estava a três semanas da sua saída da Casa Branca – expulsou 35 diplomatas russos em retaliação pela interferência russa nas eleições daquele ano, que deram a vitória a Donald Trump.

“Não fechamos as portas ao Ocidente. São eles que procuram isolar-se de nós”, reiterou o ministro russo.

Lavrov salientou que a Rússia tem mantido relações diplomáticas com o Ocidente. “Não nos autoisolamos”, afirmou.

No entanto, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros argumentou que “é natural” que Moscovo tenha desenvolvido relações “com aqueles que o fazem de forma franca e não furtiva”.

Lavrov afirmou que Moscovo “nunca mais apostará em projetos com o envolvimento dos colegas ocidentais, pelo menos com os políticos de hoje e da próxima geração”.

O chefe da diplomacia russa não afasta, contudo, uma retoma das negociações no futuro se chegarem aos Governos “indivíduos com bom senso”.


“Se nos sugerirem maneiras de alargar contactos que ainda se mantêm, mas que se encontram reduzidos praticamente ao mínimo, a ver vamos o que eles nos irão propor”, afirmou.
Ação na Ucrânia “foi um passo absolutamente justo e sem alternativas”
Sem nunca se referir ao conflito na Ucrânia como uma “invasão”, mas como uma “operação militar especial”, Lavrov limitou-se a transmitir a mesma retórica que tem sido utilizada pelo Kremlin desde fevereiro de 2022.

“A operação militar especial foi um passo absolutamente justo e sem alternativas, dado para defender a nossa segurança, as pessoas que habitavam desde há séculos naqueles territórios, que o regime de Kiev tentou privar do direito ao seu idioma, à religião, à sua cultura, aos seus valores”, argumentou, salientando que se seguiu “a longos anos em que tentamos esclarecer ao Ocidente que a sua mentira sobre a não-ampliação da NATO para o Leste iria acabar mal”. “Foi a nossa forma justa de reagir às atitudes nojentas dos neonazis instalados em Kiev, com o apoio dos EUA”, acrescentou.

“Não combatemos por causa dos territórios. Combatemos por causa das pessoas, pela nossa história, pela nossa religião”, defendeu, acusando o Ocidente de “olhar de forma leviana para a russofobia”.

“Combatemos para eliminar as ameaças militares imediatas à nossa segurança, que o Ocidente, apesar dos juramentos, está a criar já nas nossas fronteiras, envolvendo a Ucrânia nas suas jogadas. E agora ainda com a promessa de filiação à Aliança Atlântica”, acrescentou.

“Igualmente, combatemos para não admitir a exterminação das pessoas que habitam o Donbass e o sudeste da Ucrânia em geral”, concluiu.
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