Erdogan anuncia início de operação militar contra curdos na Síria

por RTP

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, deu esta quarta-feira por encetada a ofensiva militar contra combatentes curdos no nordeste da Síria. Os militares turcos, auxiliados pelos sírios, começaram a entrar esta quarta-feira à noite no nordeste da Síria, numa ofensiva terrestre. Donald Trump considerou ofensiva "má ideia" e ameaçou "destruir" economia turca.

“As Forças Armadas da Turquia, juntamente com o Exército Nacional da Síria, acabaram de lançar a #OperationPeaceSpring contra terroristas do PKK / YPG e do Daesh no norte da Síria”, anunciou o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, no Twitter.

“A nossa missão é impedir a criação de um corredor terrorista na nossa fronteira a sul e estabeler a paz nesse território”, acrescentou Erdogan.


De acordo com Erdogan, a operação “neutralizará as ameaças terroristas contra a Turquia e levará ao estabelecimento de uma zona segura, facilitando o retorno dos refugiados sírios para as suas casas”.De acordo com Al Jazeera, as Forças Democráticas Sírias (SDF) apelaram aos Estados Unidos e aos seus aliados para uma “zona de exclusão aérea” para proteger dos ataques.

A agência Reuters avança que várias explosões abalaram a cidade de Ras al Ain, na fronteira com a cidade turca de Ceylanpinar.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSHD) afirmou que pelo menos 15 pessoas, entre as quais oito civis, morreram durante a ofensiva turca, esta quarta-feira. Registaram-se ainda cerca de 40 feridos.

Após os bombardeamentos da Turquia, o Ministério da Defesa turco anunciou que começou, na noite desta quarta-feira, a fase terrestre da ofensiva, em direção à cidade de Tal Abyad, controlada pela milícia das Unidades de Proteção do Povo (YPG) no nordeste da Síria, avança a agência france Presse.

As Forças Democráticas da Síria (FDS), disseram, após o anuncio do Ministério da Defesa da Turquia, que "repeliram" a ofensiva terrestre turca na fronteira norte da Síria.

"A ofensiva terrestre das forças turcas foi repelida pelos combatentes do FDS na região de Tal Abyad”, disse Mustefa Bali, no Twitter.

A ONU já manifestou preocupação com a situação. António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas disse estar "muito preocupado" com estes acontecimentos, mas não condenou explicitamente a ofensiva lançada pela Turquia, segundo um porta-voz.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, já se pronunciou, deixando um apelo a Ancara: “Peço à Turquia, bem como aos restantes envolvidos, que aja com moderação e interrompa as operações já em curso”.

Juncker sublinhou que a União Europeia não irá ajudar a financiar a criação de uma “zona segura” no nordeste da Síria.

Entretanto, o secretário-geral da NATO apelou à Turquia para "não desestabilizar ainda mais a região", reconhecendo, porém, as "preocupações legítimas de segurança" de Ancara.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) já anunciou que se vai reunir de urgência, esta quinta-feira, para abordar a ofensiva turca. O presidente em exercício do Conselho de Segurança da ONU, o embaixador sul-africano Jerry Matthews Matjila, já tinha apelado à Turquia para que "poupe civis" e "exerça o máximo de contenção" nas suas operações militares na Síria.

Na manhã desta quarta-feira, a Turquia avançava que o ataque estaria "para breve", alegando ter recebido “luz verde” da Administração norte-americana para a invasão.

Fahrettin Altun, um porta-voz do Presidente turco, afirma que, “durante uma chamada telefónica com o presidente Recep Tayyip Erdogan, no domingo, o Presidente Trump concordou em transferir a iniciativa da batalha contra o Estado Islâmico para a Turquia”.

No domingo, Donald Trump anunciou a retirada das tropas norte-americanas do nordeste da Síria perante a ameaça iminente de uma intervenção militar turca no país.

Em comunicado, a Casa Branca anunciou que “as forças norte-americanas não apoiarão nem se envolverão ma operação”. “As [nossas] forças que derrotaram o Estado Islâmico já não estarão na região”, acrescenta.
Trump diz que ataque foi "má ideia" e ameaça destruir economia turca

Donald Trump disse, mais tarde, que esta ofensiva militar foi "uma má ideia", e que não a apoia. O Presidente dos EUA condenou ainda a ofensiva militar, lembrando que a Turquia é membro da NATO.

"Esta manhã, a Turquia, membro da NATO invadiu a Síria. Os Estados Unidos não apoiam este ataque e deixaram claro à Turquia que esta operação foi uma má ideia", lê-se num comunicado da Administração Trump divulgado esta quarta-feira.

Trump frisou ainda que nenhum soldado norte-americano estava presente na área que foi atacada pelo exército turco.

Ameaçando a Turquia com sanções económicas, o Presidente dos Estados Unidos diz que espera que o Presidente da Turquia decida "racionalmente" e o mais "humanamente possível".

"Espero que ele aja racionalmente. Vamos ver como ele lidera [esta operação]", afirmou Donald Trump esta tarde na Casa Branca. Mas "se ele [Erdogan] fizer isso de forma injusta, pagará um preço económico enorme. Destruirei a economia deles se isso acontecer", acrescentou o Presidente dos EUA.
"Se eles saírem, haverá caos"
No seio deste conflito, uma das principais preocupações geradas a nível internacional é a de um eventual ressurgimento do autoproclamado Estado Islâmico.

Assim como The Guardian salienta, uma das situações que gera maior alarme com o avanço da operação militar contra a Síria consiste no destino dos campos de detenção onde se encontram cerca de 90 mil prisioneiros e familiares ligados ao grupo terrorista, controlados pelas milícias curdas.

Autoridades de um dos centros de detenção relatam um aumento de um clima de tensão desde que surgiram os rumores sobre uma possível invasão turca. “Desde a semana passada, registamos o maior número de ataques contra guardas deste campo”, revelou uma das autoridades locais ao jornal britânico. “Se eles saírem, haverá caos”, ameaçou.
 UE ameaça bloquear financiamento
Depois de o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ter anunciado o início de uma nova operação militar no nordeste da Síria contra a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG), o presidente da Comissão Europeia ainda em funções, Jean-Claude Juncker, apelou ao fim da ofensiva lançada pela Turquia no norte da Síria, ameaçando que pode deixar de ser concedido qualquer financiamento europeu ao plano turco de criar "uma zona de segurança" no território sírio.

"A Turquia deve parar com a operação militar em curso. Não irá resultar. E se o plano da Turquia é a criação de uma zona de segurança, não espere pelo financiamento da União Europeia (UE)", afirmou Jean-Claude Juncker, diante do Parlamento Europeu reunido em Bruxelas.

"A Turquia tem problemas de segurança na sua fronteira com a Síria, que devemos entender. No entanto, exorto a Turquia, bem como outros atores, a agirem com contenção. Uma incursão irá agravar o sofrimento dos civis, que já está além do que as palavras possam descrever", reforçou Jean-Claude Juncker.

Federica Mogherini, chefe da diplomacia europeia pediu também que a Turquia cessasse a ofensiva, uma vez que dificulta as negociações para a estabilidade da região, defendendo uma "solução estável" que não passe pela via militar.

"Na sequência da operação militar turca no nordeste da Síria, a União Europeia reafirma que uma solução sustentável para o conflito sírio não pode ser alcançada militarmente”, decalrou a chefe da diplomacia europeia num comunicado.

Mogherini apelou para que “a Turquia cesse a ação militar unilateral” em curso, slaientando que “as novas hostilidades armadas no nordeste do país prejudicam ainda mais a estabilidade de toda a região, aumentam o sofrimento dos civis e provocam novos deslocamentos” de pessoas.

Segundo Erdogan, a operação militar que arrancou esta quarta-feira pretende estabelecer uma "zona de segurança" no nordeste da Síria.

"A zona de segurança que iremos criar permitirá o regresso de refugiados sírios ao seu país", acrescentou o líder turco.
NATO defende estabilização da região

Jens Stoltenberg disse esta quarta-feira em Roma que a Turquia "tem preocupações legítimas de segurança", ao ter sofrido "ataques terroristas horríveis" e por ter recebido vários milhares de refugiados, grande parte oriundos da Síria.

O secretário-geral frisou, no entanto, que "o importante é evitar ações que possam desestabilizar ainda mais a região, aumentar as tensões e causar mais sofrimento humano". Jens Stoltenberg acrescentou ainds que a Turquia deve agir com "contenção" e que qualquer ação deve ser "proporcional".

O secretário-geral da NATO pretende discutir esta ação militar com o líder turco na próxima sexta-feira, em Istambul.

Também o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) alertou para o impacto que o ataque da Turquia pode ter na população no nordeste da Síria.

A organização humanitária afirmou estar "profundamente preocupada com os danos que esta escalada pode causar numa população que já está a sofrer" e lembrou que 11,7 milhões de sírios ainda precisam de ajuda humanitária.

No nordeste sírio, "centenas de milhares de pessoas em campos de refugiados, detidas ou em diversas localidades, estão novamente em risco de conflito", alertou o diretor do CICV para o Médio Oriente, Fabrizio Carboni.

Segundo a Cruz Vermelha, há pelo menos 100 mil pessoas a viver em campos de refugiados ou deslocados no nordeste da Síria, como o acampamento de detenção de Al Hol, na província de Idlib, que concentra quase 70 mil pessoas.
“Não abandonámos os curdos”
Os curdos - que anteriormente contavam com o apoio dos EUA - consideram a saída das tropas norte-americanas na fronteira com a Síria uma “facada nas costas”. Em comunicado, as Forças Democráticas Sírias prometem “escudos humanos” para impedir o avanço das tropas turcas.

Várias vozes dentro do próprio partido Republicano censuraram, igualmente, a decisão da Administração Trump. A antiga embaixadora dos EUA, Nikki Haley, acusou Trump de ter abandonado os curdos.

“Devemos proteger sempre os nossos aliados se esperamos que também eles nos protejam. Os curdos foram fundamentais na nossa luta bem sucedida contra o Estado Islâmico na Síria. Deixá-los morrer é um grande erro”, escreveu Haley num tweet.

O Presidente dos EUA recusa, no entanto, as acusações de que a retirada das tropas norte-americanas se traduza numa abertura do caminho a uma ofensiva militar da Turquia aos curdos e diz não ter abandonado os curdos.

“Podemos estar num processo de saída da Síria, mas não abandonámos de qualquer forma os curdos, um povo especial com combatentes magníficos”, escreveu Donald Trump no Twitter.

Num outro tweet, Trump ameaçou destruir a economia da Turquia: “Se a Turquia fizer algo que eu, em minha grande e incomparável sabedoria, considere estar fora dos limites, destruirei e obliterarei totalmente a economia da Turquia (já fiz isso antes!)”.

Na segunda-feira, o Pentágono afirmou que “infelizmente, a Turquia decidiu agir unilateralmente” e que as forças norte-americanas foram removidas “para garantir a segurança”.

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