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Estados Unidos tentam dissuadir Irão de atacar Israel

por Cristina Sambado - RTP
Ali Khamenei, o guia supremo do Irão WANA via Reuters

Os Estados Unidos estão a tentar dissuadir o Irão de levar a cabo um ataque de retaliação contra Israel através de declarações concertadas de compromisso com a segurança israelita, ao mesmo tempo que tentam evitar a eclosão de uma guerra regional de grandes proporções.

As autoridades norte-americanas continuam a acreditar que é possível um ataque direto com mísseis ou drones iranianos nos próximos dias, em retaliação ao bombardeamento israelita ao consulado iraniano em Damasco, a 1 de abril, que matou 16 pessoas, incluindo sete membros dos Guardas da Revolução, o exército ideológico da República Islâmica.

Segundo o jornal britânico The Guardian, os Estados Unidos já restringiram os movimentos dos seus diplomatas em Israel devido a receios de segurança."Por uma questão de precaução, os funcionários do governo americano e os membros das suas famílias estão proibidos de viajar" fora das áreas de Telavive, Jerusalém e Beersheeva "até nova ordem", segundo um aviso da embaixada na quinta-feira.

Israel depende fortemente do armamento fornecido pelos Estados Unidos em qualquer resposta a um ataque iraniano, um aspeto que Benjamin Netanyahu deixou implícito na quinta-feira, ao colocar-se em frente a caças F-15 de fabrico americano na base aérea de Tel Nof, no sul de Israel, para dizer aos jornalistas: "Quem nos fizer mal, nós faremos mal a eles".

"Estamos preparados para responder a todas as necessidades de segurança do Estado de Israel, tanto a nível defensivo como ofensivo", frisou o primeiro-ministro israelita.

"Se o Irão realizar um ataque a partir do seu território, Israel responderá e atacará o Irão", afirmou o ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Israel Katz.

Os EUA esperam que as fortes mensagens de solidariedade e apoio a Israel de Joe Biden e do secretário de Estado, Antony Blinken, possam dissuadir Teerão de tentar atingir um alvo em Israel. Um ataque marcaria uma escalada perigosamente significativa numa guerra há muito latente, travada até agora por procuração, ou por ataques em países terceiros, como o Líbano e a Síria.

Blinken falou por telefone com os homólogos chineses, turcos, sauditas e europeus "para deixar claro que a escalada não é do interesse de ninguém e que os países devem instar o Irão a não escalar", revelou o porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller, aos jornalistas na quinta-feira. Na quarta-feira, Biden disse que Israel podia contar com o apoio "inabalável" dos EUA e Blinken telefonou ao ministro israelita da Defesa, Yoav Gallant, a quem afirmou que Washington "estaria ao lado de Israel contra quaisquer ameaças do Irão e dos seus representantes".

No entanto, se o Irão atacar diretamente Israel, é provável que os EUA exijam cautela na resposta de Israel, num esforço para evitar uma escalada incontrolável para um conflito que poderia atrair as consideráveis forças dos EUA na região.

As autoridades americanas dizem que muito dependerá das especificidades de qualquer ataque iraniano. Se Israel intercetar os mísseis ou drones que se aproximam, ou se estes caírem inofensivamente fora do seu alvo, Biden apelará ao governo de Netanyahu para que não atue precipitadamente.

No entanto, se qualquer ataque iraniano causar baixas israelitas significativas, quer em solo israelita, quer em qualquer missão ou instituição israelita no estrangeiro, Israel terá direito a uma resposta enérgica aos olhos da administração Biden.


O chefe do Comando Central dos EUA, general Michael E. Kurilla, chegou a Israel na quinta-feira, para coordenar a resposta à ação iraniana prevista com os seus homólogos israelitas. A possibilidade de um conflito israelita com o Irão ou o seu aliado libanês, o Hezbollah, é uma das razões apresentadas pela Administração Biden para resistir aos apelos de muitos membros do próprio partido do presidente para restringir o fornecimento de armas a Israel devido à condução da sua guerra em Gaza.

Entretanto, a perspetiva de um ataque iraniano pode também dificultar um acordo de cessar-fogo em Gaza, há muito aguardado, segundo afirmaram funcionários de Washington ao Guardian.

Os responsáveis sublinham que o líder do Hamas em Gaza, Yahya Sinwar, procurou desencadear uma guerra regional com o massacre de civis israelitas a 7 de outubro, pelo que seria pouco provável que aceitasse um acordo de tréguas.

O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros deslocou-se a Damasco para se avistar com os seus homólogos sírios e a Omã, o país mais suscetível de atuar como intermediário no envio de mensagens aos EUA. Em Mascate, Amir-Abdollahian afirmou que os EUA não podiam "fugir à sua responsabilidade de apoiar total e absolutamente os crimes de guerra combinados de Israel".

Em Omã, Amir-Abdollahian também transmitiu a Washington a mensagem de que o Irão não agiria precipitadamente, mas que responderia ao ataque de Israel de forma a evitar uma escalada maior, avança a Reuters.

Amir-Abdollahian tenciona também deslocar-se à sede da ONU em Nova Iorque na próxima semana, o que suscita dúvidas quanto à iminência de um ataque iraniano com mísseis em solo israelita. Foi também discutido um ataque aos Montes Golã, ocupados por Israel.O Irão é o terceiro maior produtor de petróleo do grupo OPEP e os preços permaneceram perto dos máximos de seis meses na quinta-feira.

O líder supremo do Irão, o ayatollah Ali Khamenei, avisou novamente na quarta-feira que Israel "deve ser punido e será punido", dias depois de um dos seus conselheiros ter dito que as embaixadas israelitas "já não são seguras".

O ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Israel Katz, respondeu rapidamente a Khamenei no X, avisando que "se o Irão atacar a partir do seu território, Israel responderá e atacará o Irão".

No Irão, diplomatas e académicos debatem abertamente a melhor resposta a dar àquilo que consideram ser uma guerra psicológica. A certa altura, foi noticiado que o Irão estava a utilizar o ataque ao consulado como uma alavanca para os EUA pressionarem Netanyahu a concordar com um cessar-fogo total com o Hamas.

O Guardian acrescenta que “há algum ceticismo em Teerão de que um ataque a Israel esteja necessariamente iminente, e suspeita-se que Biden esteja a tentar distrair-se do facto de o seu telefonema supostamente decisivo e firme com Netanyahu na quinta-feira passada ter levado a uma duplicação do número de camiões de ajuda que entram em Gaza, mas não produziu a inundação de ajuda humanitária em Gaza que os EUA tinham exigido”.Moscovo, Berlim e Londres pedem moderação
Rússia, Alemanha e Reino Unido pediram na quinta-feira aos países do Oriente Médio que mostrem moderação e Israel disse que está se preparando para "atender todas as suas necessidades de segurança" em uma região nervosa devido a uma ameaça iraniana de atacar Israel.

Na quinta-feira, o Kremlin apelou à contenção de todos os países do Médio Oriente para evitar que a região caia no caos.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que não houve qualquer pedido para que a Rússia mediasse o conflito entre Israel e o Irão, embora tenha afirmado que o ataque israelita ao consulado iraniano constituía uma violação de todos os princípios do direito internacional. Moscovo aconselhou os seus cidadãos a não viajarem para uma série de países, incluindo Israel, Líbano e os territórios palestinianos ocupados.

"Neste momento é muito importante que todos mantenham a contenção para não levar a uma desestabilização completa da situação na região, que não brilha exatamente com estabilidade e previsibilidade", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, numa conferência de imprensa.

A ministra alemã dos Negócios Estrangeiros, Annalena Baerbock, apelou ao seu homólogo iraniano, Amir-Abdollahian, para ter "contenção máxima" para evitar uma nova escalada.

Já o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Cameron, frisou na quinta-feira que deixou claro a Amir-Abdollahian que o Irão não deveria arrastar o Oriente Médio para um conflito mais amplo.

“Estou profundamente preocupado com o potencial erro de cálculo que pode levar a mais violência”, escreveu Cameron no X.

c/ Reuters e AFP
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