Estudo reforça suspeita que vírus Epstein-Barr pode causar esclerose múltipla
O vírus Epstein-Barr, comum e causador da mononucleose, desencadeia uma reação do sistema imunitário que pode danificar o cérebro e contribuir para o desenvolvimento de esclerose múltipla (EM), segundo uma nova investigação pelo Instituto Karolinska, na Suécia.
A hipótese de o vírus Epstein-Barr (EBV) causar esclerose múltipla tem vindo a ser estudada há anos por vários grupos científicos.
Agora, a nova investigação, publicada na terça-feira na revista Cell, forneceu novos dados que confirmam a ligação entre as duas doenças.
Quase três milhões de pessoas no mundo têm esclerose múltipla, uma doença inflamatória crónica sem cura, em que o sistema imunitário ataca o sistema nervoso central, danificando os neurónios e a medula espinal.
Sabe-se que todas as pessoas que desenvolvem esclerose múltipla já tiveram mononucleose infecciosa, ou "doença do beijo", causada por um vírus que geralmente infeta jovens e muitas vezes não apresenta sintomas.
No entanto, a forma como este vírus contribui para a esclerose múltipla ainda não está bem esclarecida.
O novo estudo mostrou que, quando o sistema imunitário combate o vírus Epstein-Barr, certas células T --- que normalmente atacam o vírus --- podem também reagir e atacar uma proteína cerebral, a anoctamina-2 (ANO2).
Este fenómeno, chamado mimetismo molecular, faz com que as células imunitárias confundam as proteínas do próprio organismo com as do vírus.
A equipa também descobriu que estas células T com reações cruzadas são significativamente mais comuns em pessoas com esclerose múltipla do que em indivíduos saudáveis.
"Os nossos resultados fornecem evidências mecanísticas de que as respostas imunitárias ao vírus podem danificar diretamente o cérebro na esclerose múltipla. Esta é uma doença neurológica complexa e os mecanismos moleculares podem variar entre doentes", frisou a primeira autora do estudo, Olivia Thomas, do Departamento de Neurociência Clínica do Instituto.
O estudo baseou-se em investigações anteriores que mostram que os anticorpos mal direcionados após a infeção pelo vírus Epstein-Barr podem desempenhar um papel significativo no desenvolvimento da esclerose múltipla.
Para o confirmar, a equipa analisou amostras de sangue de pessoas com esclerose múltipla e comparou-as com as de indivíduos saudáveis.
Os investigadores conseguiram isolar células T que reagem tanto à proteína EBNA1 como à proteína ANO2 do vírus em pessoas com esclerose múltipla.
Além disso, experiências em ratos demonstraram que estas células podem exacerbar sintomas semelhantes aos da esclerose múltipla e causar danos cerebrais.
De acordo com os autores, estes resultados ajudam a explicar porque é que algumas pessoas desenvolvem esclerose múltipla após uma infeção pelo vírus Epstein-Barr e outras não.
Embora não exista atualmente uma forma eficaz de prevenir ou tratar a infeção pelo vírus Epstein-Barr, os cientistas acreditam que uma vacina contra este vírus ou o uso de medicamentos antivirais específicos para o combater podem ajudar a prevenir ou a curar a esclerose múltipla.