Etiópia acusa diretor da OMS de ter ligações às forças rebeldes do Tigray e exige investigação

por RTP
Reuters

A Etiópia exigiu a abertura de um inquérito sobre os recentes comentários do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, sobre a situação humanitária no Tigray. O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Adis Abeba acusa Tedros de apoiar as forças rebeldes que lutam contra o governo etíope.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse no início desta semana que a população da região do Tigray, da qual é originário, está a viver um “inferno”, sobretudo devido ao bloqueio do auxílio humanitário às populações mais afetadas pela guerra por parte do governo etíope.

O bloqueio é "um insulto à humanidade", denunciou a organização. É "terrível e inimaginável nos dias de hoje, no século XXI, que um governo negue ao seu próprio povo, durante mais de um ano, o acesso a alimentos, medicamentos e tudo aquilo de que necessita para sobreviver", acrescentou o diretor-geral da OMS. "Em mais nenhuma parte do mundo assistimos a um inferno como no Tigray", declarou Tedros na conferência de imprensa diária.

O governo etíope vem agora exigir a abertura de um inquérito sobre os comentários de Adhanom Ghebreyesus, acusando o diretor-geral da agência da ONU de "má conduta e violação de responsabilidade profissional e legal".

Tedros Adhanom Ghebreyesus "interferiu nos assuntos internos da Etiópia, incluindo as relações da Etiópia com o Estado da Eritreia", afirma o Ministério dos Negócios Estrangeiros etíope na declaração, que cita uma carta enviada à OMS.

O Governo etíope acusa ainda o líder da OMS de apoiar a Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF, na sigla em inglês), um partido que governou a Etiópia durante quase três décadas, até à chegada ao poder do atual primeiro-ministro, Abiy Ahmed, em abril de 2018, e de cujo regime Tedros Ghebreyesus foi ministro da Saúde e dos Negócios Estrangeiros.

O ministério acusa Tedros de espalhar “desinformação muito prejudicial e comprometer a reputação, independência e credibilidade da OMS, de forma evidente com as tomadas de posição nos meios de comunicação social em apoio ao terror perpetrado pela TPLF [contra o povo etíope]”.

O responsável da OMS está a usar o seu gabinete "para fazer avançar os seus interesses político em relação à Etiópia" e continua a ser um membro ativo da TPLF, acusou o Governo etíope.


Tedros já tinha sido acusado anteriormente, pelo chefe do exército da Etiópia, de tentar obter armas e apoio diplomático para as forças rebeldes da TPLF. Na altura, o diretor-geral da OMS contestou as acusações.
Bloqueio da ajuda humanitária em Tigray
A ONU diz que o Governo etíope está a operar um bloqueio de facto da ajuda humanitária ao Tigray. Desde meados de julho do ano passado que a OMS não recebe autorizações para enviar alimentos, medicamentos ou material médico para a região, apesar dos pedidos constantes endereçados ao gabinete do primeiro-ministro etíope e ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em Adis Abeba, referiu Tedros. Mais de 90% da população precisa de ajuda alimentar e médicos revelaram à agência Reuters que muitas pessoas – incluindo crianças desnutridas – estão a morrer porque nenhum medicamento foi autorizado a entrar em Tigray.

Na sexta-feira, o Programa Alimentar Mundial (PAM) disse que nenhum dos seus carregamentos chegou à capital do Tigray, Mekele, desde meados de dezembro, e que os suplementos alimentares para crianças desnutridas acabaram.

"Agora temos que escolher quem não terá o que comer para evitar que outra pessoa passe fome. Estamos à beira de um desastre humanitário", disse Michael Dunford, diretor regional do PAM para a África Oriental, em comunicado de imprensa.

"As pessoas no Tigray estão a viver sob um bloqueio de facto há mais de um ano, estão a morrer por falta de medicamentos e alimentos e por constantes ataques de drones. A OMS e os seus parceiros pedem acesso seguro e desimpedido para prestar ajuda humanitária aos milhões de pessoas em grande necessidade", escreveu Tedros na rede social Twitter.

O diretor da OMS lembrou que mesmo no auge da guerra na Síria e no Iémen a organização pôde sempre ir em auxílio das populações mais cruelmente afetadas.

O governo etíope nega o bloqueio da ajuda humanitária e acusou a TPLF de se ter apropriado dos camiões enviados anteriormente. A comunidade internacional deveria "responsabilizar a TPLF pela fome do povo do Tigray, em nome do qual está a levar a cabo esta devastação", concluiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Os rebeldes do Tigray responderam ao governo etíope em comunicado, descrevendo a acusação como "absurda" e "uma piada de mau gosto". “O regime criminoso de Abiy, em vez de procurar uma solução de boa fé, está ocupado a criar histórias fictícias para fugir da responsabilidade de usar a fome como arma de guerra”, acusou a TPLF. O governo designou a TPLF como um grupo terrorista depois de a guerra ter eclodido em novembro de 2020. Tedros era membro da TPLF. Abiy Ahmed, primeiro-ministro etíope, laureado com o Nobel da Paz em 2019, também atuou como chefe dos serviços de informações no anterior governo liderado pelo TPLF.

Durante a conferência de imprensa diária da OMS, na quinta-feira, Tedros Ghebreyesus apelou ainda a uma resolução "política e pacífica" do conflito, que desde 4 de novembro de 2020 coloca o regime federal etíope contra os responsáveis políticos do Tigray e respetivas forças militares e forças aliadas.

"Apenas o respeito pela ordem constitucional pode conduzir o problema a uma conclusão pacífica", afirmou. "Claro que sou dessa região e da parte norte da Etiópia, mas estou a dizer isto sem qualquer preconceito", acrescentou.

c/agências
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