Etiópia escolhe primeira mulher Presidente

O Parlamento da Etiópia elegeu quinta-feira por unanimidade a diplomata de carreira Sahle-Work Zewde, de 68 anos, em substituição do Presidente Mulatu Teshome Wirtu, que apresentou a sua demissão na quarta-feira, um ano antes do fim do mandato.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Sahle-Work Zewde, ao aceitar a nomeação como primeira mulher Presidente da Etiópia a 25 de outubro de 2010 Reuters

Sahle-Work tornou-se assim a quarta chefe de Estado da Etiópia e a primeira mulher a ocupar o cargo, desde a adoção da Constituição de 1995 que prevê que um Presidente possa ser eleito para o máximo de dois mandatos consecutivos de seis anos cada.

As responsabilidades do Presidente na Etiópia são essencialmente simbólicas e honoríficas mas têm grande influência. A Etiópia é a segunda nação mais populosa da África e a décima maior em área. Faz fronteira com o Sudão e com o Sudão do Sul a oeste, com o Djibuti e a Eritreia ao norte, com a Somália ao leste, e o Quênia ao sul. A capital é a cidade de Adis Abeba.

Ao aceitar a nomeação, Sahle-Work prometeu trabalhar para garantir a paz, sobretudo para proteger as maiores vitimas da guerra, as mulheres.

"Eu, Sahle-Work Zewde, hoje quando inicio o meu trabalho como Presidente da República Federal Democrática da Etiópia, prometo cumprir os meus deveres fielmente", começou por dizer a diplomata.

"A falta de paz vitimiza primeiro as mulheres, por isso durante o meu mandato vou enfatizar o papel das mulheres na garantia da paz e nos dividendos da paz para as mulheres. As principais vítimas são mulheres pelo que durante a minha presidência o foco principal é garantir a paz através da mobilização de todas as mulheres etíopes, homens amantes de paz e todos os povos do mundo que amem a paz", acrescentou.

"Os partidos do Governo e da oposição têm de perceber que habitamos uma casa comum e focar naquilo que nos une, não no que nos divide, para criar um país e uma geração que nos encha de orgulho", lembrou ainda.
Diplomata de carreira
Nascida em Adis Abeba, Sahle-Work frequentou a Universidade em França e é fluente não só em Amharic, a principal língua da Etiópia, como em francês e em inglês.

Com uma carreira de 30 anos em diplomacia, Sahle-Work chefiou o escritório da ONU em Nairobi, no Quénia, até ser nomeada em junho representante das Nações Unidas na União Africana. O secretário-geral da ONU, António Guterres, frisou na altura que era a primeira vez que uma mulher ocupava esta posição.

Ao serviço da ONU , Sahle-Work Zewde ocupou vários cargos, incluindo o de chefe da Missão das Nações Unidas na República Centro-Africana, Minusca e representante permanente da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, Unesco, em França.

A etíope foi ainda embaixadora do seu país no Senegal e representante da Etópia na Tunísia e em Marrocos, com acreditação no Mali, em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, na Gâmbia e na Guiné Conacri. Foi ainda representante permanente da Etiópia na Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento, o bloco regional este-africano.
Novo Governo paritário
Antes de designar a nova Presidente, as duas câmaras do Parlamento etíope aceitaram a demissão de Mulatu Teshome, que ocupava o cargo desde 2013.

Não foram dadas explicações para a sua demissão, embora analistas políticos avancem que resulte de negociações em curso entre os quatro partidos que compõem a coligação atualmente no poder, intitulada Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope.

Em abril, a FDRPE escolheu Abiy Ahmed como novo primeiro-ministro, que concentra o poder real, e representante do país nas instâncias internacionais. Ahmed é o primeiro chefe de Governo oriundo do maior grupo étnico da Etiópia, os Oromo.

Ahmed tem empreendido um vasto programa de reformas, incluindo a libertação de dissidentes, abrindo o espaço democrático e estendendo a mão da paz à vizinha Eritreia.

Na semana passada nomeou um Executivo com 20 ministérios, 10 dos quais chefiados por mulheres, incluindo Aisha Mohammed, ministra da Defesa e Muferiat Kamil, para chefiar o recém-criado Ministério da Paz, responsável pelas agências de polícia e serviços de informação interna.

"Se as atuais mudanças na Etiópia forem lideradas igualmente por homens e por mulheres, poderão sustentar o seu impulso e formar uma Etiópia próspera, livre de discriminação religiosa, étnica e de género", afirmou Sahle-Work na sua tomada de posse.
Primeira Presidente africana
A presidente da Assembleia Geral, María Fernanda Espinosa, reagiu à eleição da nova chefe de Estado etíope dizendo estar orgulhosa do facto de uma ex-funcionária da ONU se tornar a primeira presidente do país africano. Na saudação feita no Twitter, Espinosa destaca que as mulheres fazem a diferença.

Na mesma rede social, a diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, felicitou a nova presidente etíope dizendo que a data é para comemorar.

Nos últimos anos uma série de países africanos designaram mulheres para o poder executivo, incluindollen Johnson Sirleaf na Liberia (2006-18) and Joyce Banda no Malawi (2012-14.

Depois da morte no cargo de Bingu wa Mutharika, Banda foi nomeada Presidente e Sirleaf venceu duas eleições antes de resignar no início deste ano no final dos seus dois mandatos constitucionais.
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