Ex-primeiro-ministro do Iraque disposto a retirar candidatura após ameaças de Trump
O antigo chefe de Governo do Iraque Nouri al-Maliki disse estar disponível para retirar a candidatura a primeiro-ministro, após o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter ameaçado cortar o apoio a Bagdade.
Numa entrevista à emissora iraquiana Al Sharqiya, o responsável foi questionado sobre uma possível retirada caso a Coligação do Quadro de Coordenação, a aliança xiita que domina o parlamento iraquiano, acredite que a sua candidatura possa "prejudicar os melhores interesses do país".
"É claro que retirarei a minha candidatura", afirmou o dirigente.
No entanto, Al-Maliki alertou que retirar-se "hoje significa ceder, significa anular todas as decisões" de uma instituição nacional iraquiana.
Caso isso aconteça, "não teremos outra escolha senão tomar as decisões que satisfaçam [os Estados Unidos] amanhã", acrescentou o candidato.
Al-Maliki reiterou que não pode retirar a candidatura a pedido de uma potência estrangeira.
"Todos sabemos que o Iraque precisa de chegar a um acordo com as organizações internacionais, mas tomámos esta decisão como iraquianos e, por isso, a nossa decisão deve ser respeitada. A nossa decisão não visa prejudicar os interesses nacionais iraquianos nem prejudicar estes países, grandes ou pequenos, regionais ou internacionais", afirmou.
Por esse motivo, Al-Maliki defendeu a continuidade da sua candidatura "até ao fim".
"Defendo a soberania, a tomada de decisões nacionais e a vontade da nação, que devem ser respeitadas. E, através do respeito, respeitamos a vontade dos outros, incluindo os interesses comuns e a cooperação bilateral positiva", acrescentou.
A Coligação do Quadro de Coordenação reiterou no sábado o apoio à candidatura de Al-Maliki para primeiro-ministro, cargo que ocupou entre 2006 e 2014, e reiterou que a eleição "é uma questão puramente constitucional e iraquiana, decidida (...) longe das imposições estrangeiras".
Em 27 de janeiro, Donald Trump advertiu que o Iraque poderia cometer "uma decisão muito errada" ao reintegrar Al-Maliki como chefe do Governo, acusando-o de ter conduzido o país "à pobreza e ao caos total" durante os seus anteriores mandatos.
Numa publicação na rede social que detém, a Truth Social, Trump classificou a ideologia de Al-Maliki como "insana" e avisou que, caso seja eleito, "os Estados Unidos não ajudarão mais o Iraque".
Na altura, em resposta, Al-Maliki acusou Trump de "flagrante interferência" nos assuntos internos do Iraque, considerando que as declarações do republicano violam a soberania nacional e o sistema democrático estabelecido após 2003.
Após as eleições legislativas de novembro, o parlamento deverá eleger o Presidente da República, que por sua vez nomeará o primeiro-ministro encarregado de formar governo.
Os resultados deram maioria à Coligação do Quadro de Coordenação, com 187 deputados, enquanto a Aliança para a Reconstrução e o Desenvolvimento, liderada pelo atual primeiro-ministro Mohammad Shia al-Sudani, obteve 46 lugares, e a coligação de Al-Maliki conquistou 29.
Washington manifestou preocupação com um eventual regresso de Al-Maliki ao poder, por considerar que está fortemente alinhado com o Irão e que os seus anteriores governos, marcados por políticas sectárias, contribuíram para a ascensão do grupo fundamentalista Estado Islâmico.
Mohammad Shia al-Sudani, apontado como o candidato preferido dos EUA, manteve-se até à data em silêncio sobre o assunto.