Mundo
Extrema-direita alemã classifica o fim do nazismo como "dia da derrota absoluta"
A sobrevivente do Holocausto Esther Bejarano lançou uma campanha para que o 8 de maio, dia da derrota do nazismo, passe a ser feriado nacional na Alemanha. O veterano dirigente da AfD (Alternativa para a Alemanha) Alexander Gauland respondeu-lhe, agastado, que esse é o "dia da derrota absoluta" da Alemanha.
Esther Bejarano sobreviveu ao campo de extermínio de Auschwitz e foi durante várias décadas uma voz incontornável da memória do Holocausto. Judia alemã e apoiante da causa palestiniana, antifascista incansável, Bejarano acaba de lançar, aos 95 anos, uma petição para o dia 8 de maio, aniversário da capitulação da Alemanha nazi, ser consagrado como feriado nacional.
A petição juntou num curto lapso de tempo 80.000 assinaturas e conta com o apoio expresso de várias figuras cimeiras da política alemã, como a líder da bancada parlamentar dos Verdes, Katrin Göring-Eckardt, que afirmou: "O 8 de maio foi um dia da libertação, que tornou possível a Alemanha democrática. O 8 de maio como feriado incita-nos a não relativizar os crimes alemães e seria um marco duradouro na cultura de memória alemã".
A líder do Partido da Esquerda, Katja Kipping, pronunciou-se no mesmo sentido: "Depende da história de cada família e das respectivas ligações com esse dia, que ele seja utilizado para festejos, para uma reflexão silenciosa ou para visitar monumentos. Para manter nas gerações futuras uma ligação com esta data, o dia da libertação deveria em todo o caso ficar ancorado na consciência como uma dia especial".
Mesmo o vice-presidente da bancada parlamentar liberal, Michael Theurer, anuniu: "O 8 de maio devia ser feriado - de preferência em toda a Europa".
Já o lider parlamentar da AfD, de extrema-direita, Alexander Gauland, reagiu com irritação à campanha lançada por Bejarano: "Não se pode fazer do 8 de maio um dia feliz para a Alemanha. Para os presos dos campos de concentração foi um dia de libertação. Mas também foi um dia da derrota absoluta, um dia da perda de grande parte da Alemanha e da perda da possibilidade de construção". Admitindo que possa ter havido aspecto positivos no dia 8 de maio, Gauland logo acrescentou: "Mas as mulheres violadas em Berlim certamente vêem isto de forma muito diferente dos presos dos campos de concentração".
O líder parlamentar da extrema-direita se notabilizara-se num passado recente por negar o significado do nazismo na História da Alemanha. Comparados com o conjunto dessa História, disse ele em 2018, os 12 anos do regime nazi não pesam mais do que uma "caganita de pássaro".
Um ano antes, ele fora mesmo ao ponto de dizer: “Se os franceses têm justificado orgulho no seu imperador [Napoleão] e os britânicos em Nelson ou em Churchill, nós temos o direito de orgulhar-nos dos feitos de soldados alemães nas duas guerras mundiais".
A dirigente da comunidade judaica de Munique, Charlotte Knobloch, reagiu às actuais declarações de Gauland dizendo: "Não admira que Alexander Gauland veja principalmente uma 'derrota absoluta' no 8 de maio", ao passo que a maioria do povo vê nessa derrota "motivos de felicidade e gratidão. Esse foi o dia que tornou a liberdade e a democracia possíveis na Alemanha".
Por seu lado, o rabino Abraham Cooper, do Centro Simon Wiesenthal, comentou: "Também nós lamentamos que a derrota da Alemanha nazi não tenha vindo mais cedo, para salvar a vida a alguns dos seis milhões de judeus assassinados, e lamentamos que o ódio nazi não tenha sido completamente destruído há 75 anos".