Fatores que influenciam o avanço da pandemia. Os factos e as dúvidas

Demografia, cultura, meio ambiente e rapidez da resposta dos governos são os possíveis fatores apontados pelos especialistas para explicar a razão pela qual o comportamento da Covid-19 varia nos diferentes países. No entanto, em todos existem exceções que suscitam incertezas.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Francois Lenoir - Reuters

O novo coronavírus já chegou a quase todas as partes do globo. No entanto, o impacto não é linear. Há ainda países sem nenhum caso de infeção e, mesmo entre aqueles afetados, os números variam muito.

Grandes metrópoles como Nova Iorque, Paris, Londres e Madrid foram devastadas pelo novo coronavírus, enquanto cidades como Banguecoque, Nova Deli e Lagos parecem não ter sido muito atingidas.

No Irão, por exemplo, existem mais de 97 mil infetados e seis mil mortos, enquanto no vizinho Iraque os infetados são pouco mais de dois mil e há menos de uma centena de mortos. O mesmo padrão acontece com a Indonésia e a Malásia. Mais de 800 pessoas morreram por Covid-19 na Indonésia. Na Malásia, por sua vez, há registo de 105 mortos até ao momento.

O motivo por que alguns países são mais afetados por este vírus do que outros tem suscitado muita curiosidade e a sua resposta poderia ajudar a desconstruir o puzzle e a perceber como se pode proteger um país deste novo coronavírus. No entanto, para além de puras teorias e especulações, ainda não existem respostas concretas para esta questão.

Especialistas de todo o mundo afirmam que ainda não existem dados suficientes sobre este novo vírus para obter um quadro epidemiológico completo e sublinham que a falta de informação em vários países torna difícil o delineamento de conclusões. A falta de testes leva a uma subestimação do progresso do vírus em alguns países, e o número real de mortes é também muitas vezes omitido.

No entanto, os especialistas concordam que existe um padrão generalizado claro e sugerem quatro fatores-chave que podem ajudar a explicar o impacto não linear do SARS-CoV-2 nos diferentes países: demografia, cultura, meio ambiente e a rapidez da resposta dos governos. Em todos estes fatores existe, no entanto, exceções.
O poder da juventude
A idade já provou ser um dos fatores que mais influencia a gravidade da doença. Muitos dos países que até agora escaparam a esta pandemia têm uma população pouco envelhecida.

A população com mais de 65 anos é a mais afetada pela doença, ao passo que os mais jovens têm uma maior probabilidade de desenvolver sintomas ligeiros ou mesmo nenhuns
. Para além disso, a camada mais jovem tem uma menor probabilidade de ser portadora de doenças que podem agravar a infeção por Covid-19.

África é o continente mais jovem, onde 60 por cento da população tem menos de 25 anos. No total, o continente africano regista cerca de 45 mil casos de infeção entre os 1,3 mil milhões de habitantes.

Pelo contrário, em Itália – um dos países mais afetados pela pandemia – a idade média é superior aos 45 e a média de idades entre os mortos é de 80 anos.

No entanto, existem exceções que suscitam incertezas em relação a este fator. O Japão, com uma das populações mais envelhecidas do mundo, regista menos de 500 mortes por Covid-19, embora o número de infeções tenha aumentado como consequência da realização de um maior número de testes.
Diferenças culturais
Aspetos culturais, como a distância social que está incorporada em algumas sociedades, podem proteger alguns países da pandemia.

Ao contrário dos europeus, na Índia e Tailândia - onde os números são relativamente baixos -, as pessoas cumprimentam-se à distância, com as palmas das mãos unidas como numa oração. No Japão e Coreia do Sul as pessoas cumprimentam-se com uma vénia e usavam máscaras sempre que se sentissem com algum sintoma, mesmo antes de a Covid-19 ter chegado ao país.

Para além disso, nos países ocidentais, os lares têm sido alvo de trágicos surtos, enquanto que em grande parte dos países em desenvolvimento, a tradição de cuidar dos idosos em casa isenta-os deste problema.

Porém, também na teoria do distanciamento cultural existem exceções. Em muitas regiões do Médio oriente, como o Iraque e os países do Golfo Pérsico, os homens têm o hábito de se cumprimentarem com abraços e, no entanto, não existem muitos casos de infeção nesta região.

O chamado “distanciamento nacional” também pode ser uma vantagem. Os países relativamente isolados e pouco atrativos a nível turístico não registam tantos casos de infeção. Também os países menos acessíveis por razões políticas como a Venezuela, ou por motivos de conflito como a Síria e a Líbia, também estão de certa forma protegidos pela falta de turistas.
Temperatura
A temperatura foi também apontada como um dos fatores que influenciaria a propagação da Covid-19, na medida em que parecia afetar maioritariamente os países que registavam menores temperaturas.

Parece existir, de facto, um padrão que sugere uma relação entre altas temperaturas e a menor propagação do novo coronavírus, no entanto, algumas pesquisas já vieram demonstrar que as elevadas temperaturas não serão suficientes para travar a pandemia. Para além disso, apesar das elevadas temperaturas, o Brasil está na lista dos países mais afetados, com mais de 101 mil casos de infeção e cerca de sete mil mortos.

“O melhor palpite é que as condições do Verão irão ajudar, mas por si só são improváveis de levar a uma desaceleração significativa do crescimento ou a um declínio dos casos”, explicou Marc Lipsitch, diretor do Centro de Dinâmica de Doenças Transmissíveis da Universidade de Harvard, citado por The New York Times.
Medidas de restrição prévias
Ao analisar os países que apresentam uma menor evolução da pandemia, é possível retirar um outro fator que poderá ser determinante: a rápida tomada de medidas. Aqueles que mais cedo começaram a implementar medidas de restrição apresentam, de um modo geral, um melhor quadro do número de mortes e de infeções.

Países como o Vietname, Grécia, Índia ou Senegal fecharam as suas fronteiras antecipadamente e impuseram o confinamento obrigatório quando ainda existiam poucos casos de infeção. O mesmo aconteceu com Portugal, onde a rápida tomada de decisões permitiu um avanço controlado do surto e fez com que fosse considerado um exemplo por vários países.

Por outro lado, Espanha e Itália – os países europeus mais devastados pela pandemia – tomaram decisões quando já existia um número considerável de casos.

“Os países acordaram um dia e disseram ‘ok, o peso do país está sobre os nossos ombros, então precisamos de reagir’. E assim têm feito. Algumas das respostas foram lindas de se ver, honestamente”, disse Catherine Kyobutungi, diretora executiva do Centro Africano de Pesquisa de Saúde e População.
Pura incerteza
Apesar destes indicadores acima descritos, a grande maioria dos especialistas considera que pode não existir um motivo em específico que justifique por que razão alguns países são severamente atingidos pela pandemia e outros não. Defendem que a resposta poderá ser uma combinação entre estes fatores, ou até mesmo pura sorte.

Países com a mesma cultura e clima podem apresentar um quadro pandémico muito diferente entre si. Uma pessoa infetada com Covid-19 é suficiente para infetar centenas de outros, como aconteceu no navio de cruzeiro japonês “Diamond Princess”, onde um passageiro acabou por infetar 634 pessoas.

Uma das teorias sugere que talvez o vírus ainda não tenha chegado aos países que registam poucos casos de infeção até ao momento. A Rússia e a Turquia, por exemplo, apresentavam leves sinais da pandemia, mas recentemente os números dispararam e a cada dia registam um novo recorde de infeções.

O estreito conhecimento sobre este novo coronavírus dificulta a busca de respostas para muitos dos comportamentos do SARS-CoV-2. Os especialistas defendem por isso que apenas ao longo do tempo se conseguirá obter algumas explicações.

“Estamos realmente no início desta doença”
, declarou Ashish Jha, diretor do Global Health Research Intitute de Harvard, citado por The New York Times. “Se isto fosse um jogo de basebol, seria o segundo contra-ataque e não há razões para pensar que, ao nono contra-ataque, o resto do mundo que parece agora que não foi afetado, não se tornará um dos outros lugares bastante afetados”, concluiu.
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