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FBI realiza buscas na casa de uma jornalista do Washington Post
O Departamento de Justiça (DOJ) dos Estados Unidos executou um mandado de busca, na passada quarta-feira, na residência de Hannah Natanson, repórter vencedora do Prémio Pulitzer do Washington Post.
"O Departamento de Justiça e o FBI realizaram buscas ao domicílio de uma jornalista do Washington Post que estava a receber e a publicar informações confidenciais e ilegalmente divulgadas por um subcontratado do Pentágono”, afirmou a procuradora-geral dos Estados Unidos, Pam Bondi, nas redes sociais.
A repórter em causa, Hannah Natanson, escreve sobre a atividade do Governo de Trump para o Washington Post e faz parte de um grupo de jornalistas que recebeu o Prémio Pulitzer em 2022 pela cobertura do ataque ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, protagonizado por uma multidão de apoiantes do atual chefe de Estado, Donald Trump, que perdeu as eleições presidenciais de 2020 para o candidato democrata Joe Biden (2021-2025).
Agentes do FBI chegaram, sem aviso prévio, à casa de Natanson em Alexandria, Virgínia, por volta das seis da manhã. Durante as buscas, foram apreendidos dois computadores portáteis (um pessoal e um de propriedade do jornal), um telemóvel e um relógio (smartwatch) Garmin.
Na redação do Washington Post, o impacto foi imediato. Repórteres descreveram a busca como "incrivelmente perturbadora" e sem precedentes. Natanson reuniu-se, entretanto, com advogados e especialistas em segurança do jornal, contratou a sua própria assessoria jurídica externa e pediu aos seus colegas que continuassem a reportar.
Embora o mandado tenha sido executado contra Hannah Natanson, os investigadores informaram a jornalista de que ela não era o alvo principal da investigação criminal, mas sim uma testemunha ou um meio para chegar a uma fonte.
O Alvo da Investigação: Aurelio Perez-Lugones
A ação está ligada a uma investigação sobre Aurelio Perez-Lugones, um administrador de sistemas e prestador de serviços do Pentágono (atualmente detido). Ele é acusado de ter consultado e levado para casa relatórios confidenciais dos serviços secretos.
A procuradora-geral, Pam Bondi, justificou a medida extraordinária, afirmando que o governo "não tolerará fugas ilegais de informações classificadas" que coloquem em risco a segurança nacional.
Na quarta-feira à noite, Bondi alegou na Fox News que os dispositivos de Natanson "contêm material confidencial sobre nossos adversários estrangeiros, e é isso que estamos a investigar agora".
O mandado de busca e apreensão afirmava que a operação estava relacionada ao caso de um contratado de Maryland que foi acusado na semana passada de reter ilegalmente documentos confidenciais. O Departamento de Justiça alegou que o contratado teve acesso a um relatório de inteligência ultrassecreto relacionado com um país estrangeiro não identificado.
Os tribunais têm reiteradamente confirmado o direito dos jornalistas de obter e divulgar documentos, mesmo os altamente confidenciais.
Mas "nos tempos modernos tudo relacionado à Lei de Espionagem, no que diz respeito ao tratamento da imprensa, tem se baseado em normas e políticas, não em leis", disse o advogado de segurança nacional Mark Zaid à CNN.
Historicamente, o Departamento de Justiça dos EUA evita realizar buscas em casas de jornalistas devido à Primeira Emenda (liberdade de expressão).
Mudança de Diretrizes
Pam Bondi reverteu recentemente diretrizes da era Joe Biden, que restringiam severamente o uso de mandados de busca e intimações contra jornalistas. Segundo as regras vigentes, tais buscas deveriam ser um último recurso.
No entanto, o Washington Post afirma que este foi o primeiro contacto de Natanson com os investigadores, sugerindo que o Governo não tentou outros meios antes de invadir a sua privacidade.
Hannah Natanson é conhecida como a "federal government whisperer" (alguém a quem os funcionários federais confiam informações), cobrindo a reestruturação da máquina pública no Governo atual. A apreensão de dispositivos coloca em risco o sigilo de centenas de fontes anónimas.
Reações Oficiais
"Esta é uma ação extraordinária e agressiva que levanta questões profundas sobre as proteções constitucionais para o nosso trabalho", afirmou Matt Murray, editor executivo do Washington Post.
Entidades de defesa da liberdade de imprensa como o Reporters Committee for Freedom of the Press classificaram o episódio como uma "escalada tremenda" e uma tentativa de intimidar repórteres que cobrem o governo.
c/ agências