Flagelo humanitário na Síria dura há quatro anos

Na Síria, o sonho da democratização e modernização trazida pelos movimentos da “Primavera Árabe” assumiu contornos que nenhum outro país conheceu. O conflito entra agora no seu quinto ano e deixa o rasto de um país destruído e uma crise humanitária sem precedentes – mais de 220 mil mortos e um terço da população deslocada, para além da instabilidade que trouxe ao xadrez geopolítico de uma região volátil.

Andreia Martins, RTP /
Reuters

No dia em que se assinalam os quatro anos desde início dos protestos contra o governo de Bashar Al-Assad, a Síria é um país destruído. Um investigador de origem chinesa olhou para a Síria por uma perspetiva privilegiada - as imagens de satélite. Para surpresa de Xi Li, a iluminação noturna na Síria diminuiu 83 por cento durante os anos de conflito. 

Sara Piteira, RTP

A cidade de Aleppo, o maior aglomerado urbano do país antes da eclosão da guerra, viu uma redução quase total da iluminação, mais concretamente de 97 por cento da luminosidade. O mesmo com as cidades de Raqqa e Damasco, reduzidas a pequenas luzes no território, em 96 e 35 por cento, respetivamente. Li, o investigador, chama à atenção para a dureza das imagens: “Os dados de satélite não mentem. Os sírios precisam de ajuda.”

A ausência de luz noturna é mais um das inúmeras provas do colapso de um país, arrastado pela violência setorial e pelos confrontos entre rebeldes e o regime de Bashar Al-Assad. Resultado: mais de 220 mil mortos, pelo menos um milhão de feridos e mutilados. Dos 23 milhões de habitantes da Síria antes da revolta popular, quatro milhões de sírios fugiram para os países limítrofes, e outros 7,6 milhões estão deslocados entre fronteiras, segundo dados oficiais das Nações Unidas.
Duas primaveras

“A tua vez está para breve, doutor.” Foi com estas palavras em graffiti numa escola, em referência à formação médica de Bashar Al-Assad, que a revolução chegou à Síria, em março de 2011. Inspirado pelos movimentos de insurreição que à data varriam todo o Médio Oriente, também o povo sírio encetou a sua “Primavera Árabe”, com o intuito de introduzir reformas democráticas e colocar fim ao despotismo de 40 anos.
No poder presidencial desde os anos 70, o clã Assad pertence à minoria alauita - do ramo xiita do islão - e enfrentou grande constatação social desde o início do milénio. Com a morte de Hafez al-Assad, em 2000, a população mobilizou-se e pediu reformas políticas ao novo e inexperiente Presidente, Bashar al-Assad.


Os protestos irromperam primeiro em Daraa e depois em Latakia, com as tentativas de recriação da praça Tahrir, no Egito, que acabara de derrubar o regime de Hosni Mubarak. Nos meses que se seguiram, o conflito alastrou ao resto do país e chegou às cidades mais populosas, agravando a destruição e a crise humanitária nos meios urbanos.

A “Primavera de Damasco”, como ficou então conhecida, foi marcada pelo intenso debate social e político em fóruns, salões e cafés, culminou no verão de 2001 com a prisão da oposição e de ativistas.

Mais de dez anos depois, na segunda “primavera” do tempo de Assad, iniciada com manifestações pacíficas nas principais praças do país e nas escolas, as consequências revelam-se devastadoras. O regime sírio foi implacável na reação aos primeiros sinais de contestação social e empenhou-se em criar a imagem de falsa acalmia e estabilidade. 
 
Em julho de 2012, os rebeldes bombardearam um edifício governamental de Alepo durante uma reunião entre responsáveis do Executivo, provocando a morte do ministro da Defesa. Este tem sido considerado um dos períodos mais frágeis do regime e a queda de Bashar Al-Assad chegou a estar iminente. Para a inversão desta desvantagem, o governo conseguiu recuperar de forma resoluta a cidade de Damasco, onde o apoio do governo iraniano se revelou fulcral.  
Uma guerra atomizada

Em linha com os países da zona a oposição aos regimes opressores e ditatoriais serviu de gatilho ao início da guerra, mas foram os conflitos setoriais, as divisões internas e a intervenção de atores externos que a prolongaram ao longo dos anos. 

Se os ataques e atrocidades atribuídas ao governo contam com os aliados de Teerão, os libaneses do Hezbollah, os grupos rebeldes estão divididos em várias fações, muitas vezes opostas e contraditórias entre si. Sem tropas no terreno e intervenção bélica direta, a ação das potências ocidentais traduz-se no apoio questionável aos rebeldes. 

O único sinal de coesão apresentado pelas forças anti-regime surgiu apenas um ano e meio após o início da guerra, nos últimos meses de 2012, com a oficialização do Exército Livre Sírio – uma estrutura composta por desertores do exército sírio e que estava longe de reunir todos os opositores ao Governo de Assad. 

A emergência do autoproclamado Estado Islâmico constitui também um marco na guerra, que vem baralhar ainda mais os improváveis cenários para o desfecho da guerra. O grupo jihadista aproveitou mesmo o abalo na Síria como subterfúgio para adquirir recursos e recrutar apoiantes. Lutou ao lado das forças anti-governo, mas desde a fratura com a al-Qaeda e a filial, a Frente al-Nusra, em abril de 2013, encetou a luta no terreno por objetivos próprios.     

Sara Piteira, RTP

Nos diálogos diplomáticos e nos media, a oposição ao regime e a guerra civil síria passam para um segundo plano durante o quarto ano de guerra e a atenção vira-se para as incidências e atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico. 

Nos raides aéreos de ataque aos jihadistas, que ocupam atualmente um terço do território da Síria, o Ocidente tenta a todo o custo não se envolver no conflito interno. Os ataques da coligação encabeçada pelos Estados Unidos mantêm-se tanto quanto possível em território iraquiano, salvo exceções pontuais como a libertação de Kobani, finalizada já em 2015.

Desde os primeiros eventos que arrastaram o país para a guerra civil, a Casa Branca evitou a interferência na política interna síria. Logo em 2011, Barack Obama apelou publicamente ao afastamento de Assad, mas desde então o Presidente tem optado por se afastar progressivamente do assunto, numa tomada de posição que lhe valeu muitas críticas por parte do eleitorado norte-americano e que foi mesmo ridicularizada à medida que o conflito assumia novos contornos. 
Falhas da diplomacia

Uma das questões mais críticas para Obama e para a inação da diplomacia internacional foi provavelmente o uso de armas químicas pelo regime de Bashar Al-Assad, a “linha vermelha” que os Estados Unidos delinearam como um fator que faria reavaliar a intervenção militar no país. 

Em agosto de 2013, os vídeos de um ataque químico em Damasco horrorizam a comunidade internacional e desencadearam tensões entre Estados Unidos, com uma tímida política intervencionista, e o Presidente russo Vladimir Putin, que tenta resolver o assunto pela via diplomática, sem deixar de proteger o presidente sírio.  

Também no seio das Nações Unidas e da Liga Árabe, a questão síria provocou divisões e conflito de opiniões - pontos de impasse que levaram ao pedido de demissão de Kofi Annan como enviado especial para a Síria, em agosto de 2012. O mesmo destino conheceu o sucessor, Lakhdar Brahimi, que se demitiu do cargo diplomático após o fracasso das Conferências de Genebra. Staffan de Mistura, o novo mediador da parte das Nações Unidas, veio ocupar o cargo com metas mais modestas e tenta de momento conseguir um acordo entre rebeldes e governo para um cessar-fogo na cidade de Alepo.

Na última quinta-feira, uma plataforma de 21 grupos de ajuda humanitária apontou o dedo às Nações Unidas por não ter implementado as três resoluções aprovadas no ano passado, que tinham em vista a melhoria da situação humanitária. “De que vale, a uma mãe cuja casa foi bombardeada e cujos filhos passam fome, uma excelente resolução da ONU?”

Nos últimos quatro anos, o Conselho de Segurança poucas vezes tem reunido consenso sobre a questão Síria, inviabilizando a generalidade de ações no terreno. Vinte e uma organizações de ajuda humanitária deram “nota negativa” à ONU e à Comunidade Internacional pela falta de intervenção na guerra civil síria.
O maior desafio humanitário desde 1945

Este e muitos outros episódios nos últimos quatro anos, evidenciam a inércia das Nações Unidas e da comunidade internacional perante o que as ONGs denominam como “o maior desafio desde a II Grande Guerra”.  

Jean Raphael Poitou, da Ação Contra a Fome no Médio Oriente, salienta que “os longos quatro anos de guerra causaram fadiga dos doadores” e é cada vez mais difícil completar as necessidades básicas. Até porque existem agora “outras ameaças e prioridades” que dominam as atenções mundiais. Mas o ativista avisa: “A comunidade internacional descobriu o Estado Islâmico no ano passado, mas o grupo já existia antes e é uma consequência da falta de solução para a crise síria”. 

Dos quatro anos de luta incessante, o último foi mesmo o mais dramático - 76 mil mortos só em 2014 e a duplicação do número de pessoas em zonas de difícil acesso que necessita de ajuda humanitária urgente - um total de 4,8 milhões.


A crise no país transbordou as fronteiras e arrastou consigo toda a região. No total, mais de 3,8 milhões de sírios fugiram do país durante os quatro anos de guerra civil e provocaram uma crise de refugiados nas regiões vizinhas e países ocidentais. O caso mais gritante é mesmo o da Líbia, que tem a maior concentração de refugiados per capita do mundo, constituíndo 25 por cento da população.

António Guterres, Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, comparou em 2013 a crise síria com a calamidade no Ruanda e pediu recentemente aos países europeus que abram as portas ao número vertiginoso de refugiados que todos os dias continua a abandonar o país.

Do total de refugiados, cerca de dois milhões são crianças. A UNICEF denunciava ainda na passada semana que mais de 14 milhões de crianças do Médio Oriente foram afetadas pela guerra que tem lugar na Síria e em parte do Iraque. Especificamente na Síria o fundo da ONU para a infância acrescenta que cerca de 2,6 milhões de crianças não podem ir à escola devido ao conflito.
  
O diretor-executivo da UNICEF, Anthony Lake, alerta que para estas crianças “a crise é a única realidade que conhecem” e que os jovens e adolescentes crescem enquanto “a violência e o sofrimento dominam o passado e determinam o futuro”. 
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