A "Primavera" que se revelou um tsunami

Parecia um tempo de renascimento, de libertação da tirania, de promessas e de futuro. Mas o degelo provocou um tsunami e a vaga de protesto destruiu sem construir. Milhões sentem agora que o lamaçal em que se tornou a ansiada primavera é bem pior do que a antiga ordem.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Um lojista do Cairo trabalha à frente de um cartaz de campanha de al-Sisi, o general que colocou um fim aos sonhos de hegemonia sob a sharia da Irmandade Muçulmana, aparentemente inevitáveis após a 'Primavera Árabe' Mohamed Abd El Ghany, Reuters

A 17 de dezembro de 2010, um vendedor tunisino imolou-se pelo fogo numa pequena cidade tunisina. Mohamed Bouazizi protestava porque o simples ato diário de tentar vender fruta se tinha tornado um fardo impossível de carregar.

O desespero de Bouazizi ecoou nos corações de milhares de tunisinos que saíram à rua em protesto contra a tirania que sentiam sufoca-los. Dez dias depois tinham expulso do país o Presidente, Zine al-Abidine Ben Ali, que detinha o poder há 20 anos.

O sucesso tunisino inspirou as populações noutros países árabes. Em poucos meses, como num dominó, regimes que duravam há décadas caíram, uns atrás dos outros. Mubarak no Egito, Kadhaffi na Líbia, Saleh, no Iémen.

O tsunami da revolta estendia-se, parecia imparável e atingiu ainda marginalmente Marrocos, a Argélia, a Jordânia, a Cisjordânia, o Iraque, o Irão, o Kuwait, o Bahren, a Arábia Saudita, Omã. Chegou à Síria em março de 2011.

As monarquias do Golfo, assim como os Governos do Iraque, do Irão e da Argélia, resistiram. Na Cisjordânia o conflito israelo-árabe voltou a impor-se.

Nos restantes países afetados, aliados no derrube dos tiranos viraram-se uns contra os outros. A guerra instalou-se e impera a lei da força.

Quatro anos depois do suicídio de Bouazizi, os mortos, os deslocados e os refugiados nos países árabes contam-se às dezenas de milhões. Mas cada país traçou o seu próprio destino.
Tunísia
Na Tunísia a turbulência é sobretudo política. Vai-se de novo a votos no domingo. É a terceira vez, em dois meses. O país tenta eleger um Presidente e a escolha faz-se entre a velha ordem de Ben Ali e um ativista da Primavera - ou Tsunami - Árabe.

Cartazes de campanha presidencial numa rua de Tunis (Foto: Reuters)

Nos últimos quatro anos o país conheceu a instabilidade política e económica, sob um período de domínio islamita com o moderado 'Ennahda' no poder e a constante ameaça do fundamentalismo islâmico, que realizou vários atentados e matou mesmo dois políticos proeminentes de esquerda, Mohammed Brahmi e Chokri Belaid.

Aparentemente cansados, em outubro deste ano os tunisinos deram a vitória nas legislativas a uma coligação de políticos da velha ordem e de sindicalistas que prometem estabilidade e o regresso à prosperidade. As presidenciais irão revelar se a viragem do país se confirma.

Sob a nova Constituição, o Presidente tunisino acumula as pastas da Segurança, da Defesa e dos Negócios Estrangeiros. Ambos os candidatos têm sublinhado os perigos do outro ganhar, nestas circunstâncias.

Beji Caid Essebsi, tem 88 anos e é um veterano do antigo regime. Se ganhar, Parlamento e Presidência serão aliados mas isso poderá lançar a Tunísia de novo na rota do unanimismo político totalitário. Moncef Marzouki, de 75, é ativista dos direitos humanos e procura a reeleição, apoiado nos islamitas moderados e ameaçado pelo avanço dos extremismo islâmico. A sua vitória prenuncia a instabilidade política.

"Ambos centram as suas campanhas no medo", lamenta um constitucionalista da Universidade de Tunis. Mas a divisão que a eleição mais enfatiza é a geográfica. A zona costeira a norte, mais rica e de onde provém tradicionalmente os dirigentes tunisinos, apoia Essebsi. As regiões interiores e geralmente mais pobres, favorecem Marzouki e a sua promessa de mudança de regime.
Egipto
O Egipto foi o segundo país atingido pela ânsia de mudar o status quo. Em vez de mais direitos e de mais democracia, a revolução da Praça Tahrir acabou por ditar a subida ao poder dos islamitas da poderosa Irmandade Muçulmana. Os egípcios rapidamente perceberam que tinha sido eleito um regime potencialmente tão ditatorial como o de Hosni Mubarak, com a agravante de não saber gerir economicamente o país.

 Estudante de Alexandria, Egipto (Foto: Reuters)

Perante o fundamentalismo dos costumes, a corrupção crescente e com o abismo da recessão à vista,voltaram em força os protestos dos egípcios, seculares e islâmicos moderados, cansados da inépcia e da prepotência islamita.

Os militares souberam esperar a sua hora e, na primeira oportunidade aberta pelos protestos crescentes, regressaram ao poder com punho de ferro. Atiraram para a prisão o Presidente eleito Mohammed Morsi e mais de 20.000 dos seus apoiantes da Irmandade Muçulmana. E atualmente calam qualquer voz discordante, sob o jugo de Abdel-Fattah al-Sisi, o anterior chefe de Estado Maior e agora Presidente.

Quatro anos depois da queda de Mubarak, os revolucionários, seculares e liberais, estão na prisão, a tolerância de vozes dissonantes do poder é igual a zero e os abusos arbitrários da polícia uma constante. A lei do protesto pune com penas de prisão pesadas até as marchas pacíficas e é usada sobretudo contra os críticos seculares. O Governo faz passar a mensagem de que os ativistas apenas provocam problemas e, depois de quatro anos de caos, muitos acreditam na propaganda. Há menos democracia agora do que nos tempos de Mubarak, dizem os líderes da revolta.Líbia
Na Líbia, a luta pelo poder após Khadaffi cristalizou-se numa guerra entre três grandes fações armadas, que incluem dois Governos e dois Parlamentos.

Combates em Bengazhi, Líbia (Foto: Reuters)

Em julho e agosto, e após um banho de sangue, o 'Madrugada Líbia' (Fajr Libya), um agrupamento de várias organizações armadas islamitas, conquistou a capital, Tripoli, obrigando o primeiro-ministro e Parlamento eleitos a fugir para o leste do país. Expulsou ainda os seus maiores rivais armados com quem dividiam o controlo da capital líbia, para a região montanhosa de Zenten. Assumiram o Governo de facto, reinstalando um Parlamento.

Os nacionalistas de Zenten uniram-se então sob o general na reserva Khalifa Haftar, que comanda uma pequena força aérea e várias unidades militares, formando o Exército de Libertação da Líbia (ELL) que acusa os islamitas de serem "terroristas".

No leste, uma coligação de grupos armados islamitas, designada Conselho da Shura, domina a partir da cidade costeira de Bengazhi. O executivo de Abdallah al-Theni, reconhecido pelas potências internacionais, e o parlamento eleito em 25 de junho, refugiaram-se na cidade, num equilíbrio inconstante, pontuado por escaramuças e combates entre as forças seculares que apoiam al-Theni e as que apoiam o Conselho da Shura.

No confronto, os combates pelo controlo dos terminais de petróleo de Es Sider e de Ras Lanuf forçaram o seu encerramento. A 'Madrugada Líbia' e o ELL enfrentam-se sobretudo na zona ocidental da Líbia, que disputam, e em torno de Tripoli.

Estados Unidos e União Europeia, sob a égide da ONU, têm tentado fazer regressar a ordem ao país, sem sucesso. Há ainda rumores de intervenções secretas de forças egípcias e saudis contra as milícias Fajr Libya, que contudo não conseguiram evitar que os islamitas assumissem o controlo do aeroporto de Tripoli.

A possibilidade dos islamitas passarem a controlar o fluxo líbio de petróleo e a sua proximidade aos grupos extremistas islâmicos que circulam entre o sul da Argélia e o norte do Mali, é uma das preocupações da comunidade internacional.
Iémen
No Iémen os combates entre as milícias xiitas "Houthi" e tribos sunitas leais ao partido al-Islah já fizeram centenas de mortos, com o Governo de Khaled Bahah, formado em novembro, a ser incapaz de fazer face aos episódios diários de violência e a braços com um movimento de secessão a sul.

Controlo xiita em Sanaa, Iémen (Foto: Reuters)

Também conhecida como Ansar u'Allah, a milícia xiita tem o seu bastião em Saada, no norte e em setembro, num ataque fulgurante, assumiu o controlo da maior parte da capital, Sana. Estendeu a sua influência para o centro e o oeste do país, incluindo o porto de Hodeida, no Mar Vermelho, apesar da resistência das tribos locais sunitas e do grupo extremista islâmico local, Al Qaeda na Península Arábica (Aqpa)

A formação do Governo de Khaled Bahah era um dos pontos dos acordo de paz firmado sob a ONU a 21 de setembro, que previa também a retirada dos Ansar u'Allah de Sanaa e de outras áreas, o que não chegou a verificar-se.

A população por seu lado começa a estar farta de tanta violência. Centenas de pessoas manifestaram-se em dezembro frente à residência do Presidente Abed Rabbo Mansour Hadi, um aliado dos EUA. "Os Houthis e a al-Qaeda são o mesmo", "Hadi, resolve ou vai-te" embora, eram as palavras de ordem.

A violência constante levou já a Arábia Saudita a iniciar a construção de um muro ao longo da fronteira de 1.800 quilómetros entre os dois países para impedir o contrabando mas também a migração de combatentes islâmicos para reforçar as forças da Aqpa.
Síria
Na Síria, o levantamento da população sunita contra o Presidente Bashar al Assad, um alauíta (ramo do xiismo), acabou numa guerra civil generalizada, complicada pela intervenção de grupos terroristas externos, que encontraram no país o palco ideal para se enfrentarem.

Campo de refugiados sírios em Idlib, Síria (Foto: Reuters)

As grandes forças em confronto incluem o exército do Governo de Bashar al Assad, apoiado com armamento russo e iraniano e pela guerrilha xiita libanesa do Hezbollah; o exército Síria Livre, que agrupa milícias seculares e recebe apoio ocidental; e dezenas de grupos terroristas leais à al Qaeda, com especial proeminência para o al Nusra, apoiados não oficialmente pelas populações sunitas das monarquias do Golfo.

O leste e o nordeste da Síria, que incluiem parte do Rio Eufrates, poços de petróleo, reservas de gás e refinarias, caíram em 2013 na posse do grupo Estado Islâmico do Iraque e do Levante, um antigo grupo terrorista rival do al Nusra e expulso da al Qaeda, que se transformou em 2014 na organização terrorista mais poderosa à face da terra: conhecida atualmente apenas como 'Estado Islâmico'.

Em 2014, e devido à ofensiva do Estado Islâmico, os combatentes curdos sírios, até então relativamente despercebidos no conflito generalizado, ganharam proeminência na defesa da cidade de Kobani, auxiliados por forças curdas iraquianas.

A ameaça do Estado Islâmico forçou a entrada em cena de uma coligação internacional liderada pelos Estados Unidos, que até agora se limitou a ataque aéreos às forças do EI.

Em termos humanitários a crise síria é a mais grave saída da Primavera Árabe, somando mais de 200.000 mortos e quase 10 milhões de deslocados e de refugiados, um terço da população do país.
PUB