Forças iraquianas apoiadas pelo Irão cercam Estado Islâmico em Tikrit

A batalha por Tikrit poderá iniciar-se nas próximas horas, espera o comando da ofensiva conjunta de pelo menos 27.000 combatentes das Forças de Segurança iraquianas, unidades tribais sunitas e milícias de voluntários xiitas, a Mobilização Popular, sob comando parcial das forças secretas da elite militar iraniana. Até agora as tropas têm estado a cercar a cidade-berço do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, pelo sul, norte e leste.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Um combatente xiita dispara sobre militantes do Estado Islâmico na província de Salah ad-Din Thaier Al-Sudani/Reuters

As forças militares "dizem que estão a progredir nas frentes de combate em torno de Tikrit", reportou Jane Arraf, para a al Jazeera.

"Ainda não entraram em Tikrit, sobretudo porque vai ser uma luta difícil, pois é a maior cidade que tentaram até agora reconquistar e está cheia de combatentes do ISIS (outra sigla referente ao Estado Islâmico) e está toda armadilhada, sendo essa uma das maiores preocupações".

A oeste, na Base Speicher, estão reunir-se milhares de homens das Forças Especiais iraquianas e da Mobilização Popular, à espera de ordem para avançar sobre a cidade e subjugar as tropas islamitas. São apoiados por pelo menos 4.500 elementos das forças tribais. Tikrit foi conquistada pelo grupo Estado Islâmico numa ofensiva relâmpago em junho de 2014. Desde então as forças iraquianas têm tentado retomá-la mas os islamitas têm resistido. Desta vez, a escala da ofensiva poderá fazer pender a balança para as forças iraquianas.

A Coligação tem estado ausente nesta ofensiva, como é habitual em operações que envolvem as milícias xiitas apoiadas pelo Irão. Também não há notícia de forças curdas envolvidas nos combates.

Media iraquianos e iranianos confirmam por outro lado que o general Qassem Suleymani, comandante da unidade de operações secretas das forças de elite da Guarda Revolucionária, a Força Quds, está no comando das operações perto de Tikrit, ao lado de generais iraquianos.

General Qassam Suleymani, comandante das forças especiais secretas do corpo de elite iraniano Guarda Republicana (Foto: Wikipedia)

"A componente iraniana nesta operação é enorme", referem repórteres no local.

Pelo menos um comandante do EI foi morto e há notícia de que as forças islamitas estarão a retirar através de Huweijah para as montanhas de Hamreen.

"É uma cordilheira enorme na fronteira entre o Irão e o Iraque e é tradicionalmente um esconderijo de combatentes", afirmou a correspondente da Al Jazeera. Sublinhando ser impossível verificar a informação.
Avanço lento
Apesar de seguro, o avanço para Tikrit tem sido lento, pois os extremistas do Estado Islâmico colocaram minas e bombas em praticamente todas as estradas. Cada mina ou bomba de estrada detetada obriga à paragem das colunas militares até o caminho ficar desimpedido. Só na estrada entre Samarra e Dour, uma única unidade de desminagem desativou 104 engenhos, a maioria na zona do Sheik Mohammed, a norte de Samarra.Registam-se combates em toda a província de Salah ad-Din, da qual Tikrit é a capital, tendo sido já recuperadas várias localidades e um vasto campo petrolífero. A leste da província, a estrada que liga a capital iraquiana, Bagdade, ao Curdistão iraquiano, foi bloqueada pelas Forças de Segurança iraquianas. No sudoeste de Samarra, uma área onde o EI gozava de liberdade de movimentos, estão a ser colocadas várias unidades militares.

O perigo de bombistas suicidas é outra ameaça concreta, tendo-se registado pelo menos dois casos.

A operação de reconquista de Tikrit iniciou-se domingo com bombardeamentos aéreos às posições do EI em Tikrit.

Segunda-feira, os combates mais intensos registaram-se em Dour, um bairro limítrofe a sueste de Tikrit, envolvendo mais de 20.000 homens com apoio aéreo. Pelo menos 13 prisioneiros do EI foram libertados nesta operação.

A norte, em Qadisiyah, Forças iraquianas apoiadas por unidades da Mobilização Popular (Hashad Shaabi), mataram e feriram "dúzias" de militantes do Estado Islâmico, assumindo o controlo de várias áreas. Oito membros das forças populares morreram e 42 ficaram feridos.

A leste de Tikrit, as forças do Estado Islâmico evacuaram o hospital de Alam, onde alojavam os seus feridos, perante o avanço de três batalhões da polícia de emergência iraquiana e de três companhias de "operações especiais" iraquianas e na expectativa do hospital ser bombardeado.
Presença iraniana
A presença do general iraniano Suleymani perto de Tikrit não é novidade, já que este tem sido observado noutras frentes de batalha nos últimos meses e sabe-se que Teerão enviou para o Iraque diversos conselheiros militares e tem apoiado milícias xiitas no terreno.

Contudo, a sua participação ao lado de forças sunitas locais, para recuperar ao EI o controlo de uma cidade sunita, é um teste para futuras operações de grande envergadura, como a reconquista de Mossul, prevista para abril na melhor das hipóteses.

"Estamos certos da vitória.... Mas a operação não é fácil", afirmou um responsável militar no terreno à Agência France Presse.

Milicias xiitas iraquianas na ofensiva para reconquistar Tikrit ao Estado Islâmico a 2 de março de 2015 (Reuters)

Forças iraquianas em combate contra o Estado Islâmico a norte de Bagdade, na ofensiva de reconquista de Tikrit, a 2 de março de 2015 (Foto: Reuters)

Um dos problemas detetados na força conjunta é a ferocidade dos combatentes xiitas da Mobilização Popular contra as populações sunitas, que consideram geralmente apoiantes e defensoras do Estado Islâmico, apesar do juramento de fidelidade a Bagdade feito por dezenas de sheiks e muftis locais.

Há relatos de atrocidades cometidas pelos combatentes xiitas, incluindo expulsão de sunitas civis das suas casas nas zonas controladas pela Mobilização Popular, raptos e execuções sumárias, sem qualquer controlo."Os combatentes sunitas têm tanto medo das milícias xiitas como dos militantes do Estado Islâmico", referiu um analista ao jornal Le Monde.

Outra crítica das tribos sunitas de Samarra, Tikrit e da província de al Anbar é a falta de armas. Bagdade "disse que nos ia dar armas mas até agora nada chegou às tribos", queixou-se o grande Mufti do Iraque.

Milicias xiitas iraquianas na ofensiva para reconquistar Tikrit ao Estado Islâmico a 2 de março de 2015 (Foto: Reuters)

Forças iraquianas e milicias xiitas na ofensiva iraquiana de reconquista ao Estado Islâmico da cidade de Tikrit (Foto: Reuters)

"O Governo nunca apoiou as tribos sunitas. Não sabemos porquê? Fica de braços cruzados quanto às tribos sunitas, enquanto presta atenção e apoia as Hashaad Shaabi (milícias da Mobilização Popular) que vieram de toda a parte para libertar e purgar as áreas ocupadas pelos militantes do Estado Islâmico".

"Enquanto isso as tribos sunitas não têm armas. Ouvimos aqui e ali que o Governo entregou armas às tribos sunitas mas eu, como Grande Mufti, ainda não ouvi ninguém dizer que essas armas tivessem chegado aos sunitas".
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