O presidente-eleito dos EUA fez o anúncio na sua rede Truth Social, pouco depois de fontes oficiais de mediadores sob anonimato terem confirmado às agências noticiosas Reuters, AP e AFP, a obtenção do acordo.
"Temos acordo sobre os reféns no Médio Oriente. Serão libertados em breve", escreveu Trump.
O executivo israelita deverá reunir-se quinta-feira para votar o acordo, que abre caminho ao fim de um conflito que se arrasta há 15 meses.
O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, Gideon Saar, interrompeu
o périplo europeu, que deveria prosseguir na Hungria,
esta quinta-feira, para regressar a Israel, confirmou em comunicado o
seu Ministério.
Fontes do gabinete do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, disseram que continuam "por regularizar" algumas questões que se espera fiquem concluídas "esta noite".
Em causa está a manutenção da presença de tropas israelitas no chamado
corredor de Filadélfia, uma zona tampão desmilitarizada de 14 quilómetros de comprimento e 100 metros de largura, que se estende ao longo de toda a fronteira entre o Egito e Gaza.
De acordo com o texto do acordo, a que a Agência Reuters teve acesso, Israel deverá reduzir as suas forças no corredor, com as forças a completarem a retirada nunca após o 50º dia de tréguas.
Fonte próxima das negociações em Doha, referiu que estas decorreram até à
última hora e implicaram uma reunião entre o primeiro-ministro do
Qatar, o Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, com o Hamas, para um
"derradeiro esforço" com vista a um cessar-fogo.
Confirmação oficial
Pelas 19h00 em Lisboa, al Thani confirmou oficialmente que o acordo havia sido alcançado e que deverá entrar em vigor "no domingo".
Sem se alongar em pormenores, o primeiro-ministro catari confirmou ainda que na primeira fase serão libertados 33 reféns israelitas e disse esperar que as partes "respeitem" o acordado, apelando ainda à cooperação internacional.
A primeira fase de tréguas deverá durar 42 dias.
"O Hamas irá libertar 33 reféns israelitas, incluindo mulheres e civis, criança e pessoas idosas, doentes civis e feridos, em troca de vários prisioneiros palestinianos detidos nas prisões israelitas. Os detalhes quanto às fases dois e três serão finalizados durante a implementação da primeira fase", afirmou al Thani.
Doha confirmou que esta implementação será vigiada pelo Catar, pelo Egito e pelos Estados Unidos.
O acordo alcançado esta quarta-feira abrange uma fase inicial de seis semanas, que inclui o cessar-fogo em Gaza, a par da retirada gradual das forças militares israelitas presentes no enclave e da troca de reféns por prisioneiros, referiram à Agência Reuters fontes anónimas próximas das negociações, ainda antes do anúncio oficial catari.
Preparativos
O presidente israelita, Isaac Herzog, reuniu-se esta quarta-feira com a presidente da Cruz Vermelha, Mirjana Spoljaric, e a sua equipa, que estão de visita a Israel. Os preparativos para a troca de cativos estiveram em cima da mesa, referiu um comunicado da presidência, sublinhando os desafios envolvidos na operação.
Vários hospitais israelitas estarão já a preparar-se para receber os reféns que forem libertados.
As Nações Unidas prometeram continuar a distribuir ajuda humanitária em Gaza durante o cessar-fogo, "conforme as condições no terreno o permitam", referiu o porta-voz do gabinete da ONU para a coordenação de questões humanitárias, Eri Kaneko.
O Hamas pediu à população deslocada de Gaza que confie somente nas fontes oficiais, evitando espalhar rumores e boatos sobre o regresso às suas cidades de origem, cujo calendário irá depender da retirada de Israel. Pediu ainda que se mantenha longe das zonas controladas pelas tropas israelitas.
Reações ao acordo
A confirmação das tréguas levou milhares de palestinianos às ruas de Gaza, em festejos, e juntou igualmente centenas de pessoas em Telavive, com cartazes a exigir a libertação dos reféns.
Um alto responsável do Hamas considerou que o acordo de tréguas é "um grande ganho" reflexo da "perseverança de Gaza, do seu povo e da sua bravura e resistência".
"É ainda a reafirmação do fracasso da ocupação para alcançar os seus fins", acrescentou Sami Abu Zuhri à Reuters.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, saudou o acordo e instou as partes envolvidas a garantirem que seja totalmente implementado.
Na sede da ONU em Nova Iorque, Guterres indicou que a prioridade a partir de agora deve ser "aliviar o tremendo sofrimento causado por este conflito", prometendo todo o apoio à implementação do acordo.
Há vários dias que diversas fontes próximas das negociações anunciavam que o acordo estaria próximo, entre apelos a flexibilidade das partes.
O acordo seria considerado uma vitória para a Administração Biden, uma vez que ocorre escassos cinco dias antes da tomada de posse de,
Donald Trump, a 20 de janeiro. O ainda presidente eleito dos Estados Unidos, foi contudo instrumental para a conclusão positiva das negociações, que marcavam passo.
O seu enviado para o Médio Oriente,
Steve Witkof, juntou-se ao processo há algumas semanas. Trump tinha avisado que a libertação dos reféns deveria ocorrer antes da sua investidura, ameaçando o Hamas com consequências severas.
Esta quarta-feira, o republicano garantiu ainda que "não irá permitir que Gaza se torne um refúgio de terroristas".
Joe Biden reagiu após o anúncio oficial do Catar, aplaudindo a "tenacidade e minúcia" da diplomacia americana na obtenção do acordo e os esforços de todos os que trabalharam pela paz, frisando que a sua Administração e a de Trump "trabalharam em equipa", para conseguir o acordo.
O presidente norte-americano sublinhou que o acordo implementa a sua proposta, apresentada em maio passado, mas que será a próxima Administração a responsável pela sua implementação.
Questionado sobre a quem cabem os louros do acordo, se a si. se a Trump, o presidente norte-americano encolheu os ombros. "Isso é uma brincadeira?", respondeu, dando por terminada a conferência de imprensa.
O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, um dos maiores obreiros do acordo, defendeu que este seja seguido de negociações para alcançar uma cessação permanente das hostilidades.
Ainda antes do anúncio oficial, o ministro turco, Hakan Fidan, afirmou em Ancara que as tréguas em Gaza constituem um passo importante para a estabilidade regional.
Fidan frisou ainda que os esforços turcos para implementar a solução de dois Estados, Palestina e Israel, para solucionar o conflito israelo-palestinano, irão prosseguir.
O Governo português saudou e manifestou o seu apoio ao acordo entre o Israel e o Hamas, sublinhando que permitirá "avançar rumo a uma solução política duradoura".
A Alemanha apelou todas as partes a "aproveitarem" a ocasião permitida pelas tréguas, com o chanceler Olaf Scholz a referir que o acordo "abre a porta" ao fim da guerra. A Itália considerou-o "um passo importante para a paz".
A presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, exortou Israel e o Hamas a "implementarem plenamente" o texto das tréguas.
Já Abdelfattah al-Sissi, presidente do Egito, um dos mediadores do acordo, apelou ao incremento da ajuda humanitária em Gaza no quadro das tréguas.
O que está em causa
Os Estados Unidos, o Egito e o Qatar passaram o último ano a tentar mediar o fim da guerra de 15 meses na Faixa de Gaza e a libertação de dezenas de reféns capturados no ataque do Hamas, em 07 de outubro de 2023, em solo israelita, incluindo aqueles que se presume estarem mortos.
O acordo de três fases é baseado numa estrutura definida por Joe Biden, e endossada pelo Conselho de Segurança da ONU.
O primeiro passo será a libertação gradual de 33 reféns ao longo de um período de seis semanas, incluindo mulheres, crianças, idosos e civis feridos em troca de mil palestinianos detidos em Israel.
Durante esta primeira fase de 42 dias, as forças israelitas deverão também retirar-se dos centros populacionais e os palestinianos autorizados a começar a regressar às suas casas no norte do enclave, num processo acompanhado de um aumento da ajuda humanitária, com cerca de 600 camiões a entrar todos os dias no território.
Os detalhes das restantes fases ainda têm de ser negociados enquanto decorre a primeira, com os mediadores a garantirem ao Hamas que o processo irá prosseguir, para implementar a segunda e terceira fases antes do final da primeira, segundo as autoridades egípcias.
O acordo permitiria a Israel, durante a primeira fase, permanecer no controlo do Corredor Filadélfia, a faixa de território ao longo da fronteira da Faixa de Gaza com o Egito, da qual o Hamas exigiu inicialmente que as forças israelitas se retirassem.
No entanto, Israel deve retirar-se do corredor Netzarim, no centro do território.
Na segunda fase, o Hamas libertaria os restantes reféns vivos, em troca de mais prisioneiros palestinianos e da "retirada completa" das forças israelitas da Faixa de Gaza, de acordo com o projeto de acordo.
Numa terceira fase, os corpos dos restantes reféns seriam devolvidos em troca de um plano de reconstrução de três a cinco anos a ser executado sob supervisão internacional.
O ataque de Hamas em outubro de 2023 provocou cerca de 1.200 mortos e outras 250 foram levadas como reféns.
A ofensiva em grande escala de Israel na Faixa de Gaza provocou por seu lado acima de 46 mil mortos, na maioria civis, segundo as autoridades locais controladas pelo Hamas, e deixou o enclave destruído e mergulhado numa grave crise humanitária.
com Lusa