Gaza. Israel suspende acordo de cessar-fogo com o Hamas

Israel suspendeu o processo de cessar-fogo com o Hamas e anunciou um corte da entrada de ajuda humanitária em Gaza. A decisão do Governo de Netanyahu surge depois de ter denunciado a recusa do Hamas em aceitar os termos dos EUA para prolongar a primeira fase do cessar-fogo, que expirou no sábado. O movimento palestiniano acusa Israel de estar a fazer “chantagem mesquinha” e denunciou a suspensão da entrada de ajuda no enclave como um “crime de guerra”.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Ramadan Abed - Reuters

Israel anunciou este domingo que o processo de cessar-fogo com o Hamas, que devia entrar numa segunda fase, fica suspenso até serem libertados todos os reféns israelitas detidos pelo movimento palestiniano.

Ao mesmo tempo, as autoridades israelitas decidiram travar a entrada de ajuda humanitária em Gaza e ameaçaram ainda com outras consequências, caso persista o desacordo em relação à trégua.

“Após o fim da primeira fase do acordo de reféns, e à luz da recusa do Hamas em aceitar o 'esquema Witkoff' para continuar as negociações com as quais Israel concordou, o primeiro-ministro Netanyahu decidiu que, a partir desta manhã, todo o fluxo de bens e mantimentos para a Faixa de Gaza cessará”, anunciou o gabinete de Benjamin Netanyahu, referindo-se à proposta do enviado especial dos Estados Unidos (EUA), Steve Witkoff.
O gabinete de Benjamin Netanyahu disse anteriormente que tinha adotado uma proposta do enviado do presidente dos EUA, Steve Witkoff, para um cessar-fogo temporário em Gaza durante os períodos do Ramadão e da Páscoa, horas após a primeira fase do cessar-fogo previamente acordado ter expirado.

Se acordado, a trégua interromperia os combates até ao fim do período de jejum do Ramadão, por volta de 31 de março, e do feriado da Páscoa judaica, por volta de 20 de abril. A trégua previa que o Hamas libertasse metade dos reféns vivos e mortos no primeiro dia, com os restantes a serem libertados no final.

No entanto, Netanyahu acusou o Hamas de ignorar esta proposta alternativa apresentada pelos EUA.
Hamas acusa Israel de “crime de guerra” e "chantagem mesquinha"
O Hamas exigiu a implementação da segunda fase de cessar-fogo e rejeitou a ideia de uma extensão temporária da trégua de 42 dias.

"A recente declaração do gabinete de [o Presidente israelita Benjamin] Netanyahu confirma claramente que o ocupante continua a fugir aos acordos que assinou", disse o líder do Hamas.

"A única forma de alcançar a estabilidade na região e o regresso dos prisioneiros é concluir a implementação do acordo (...) começando pela implementação da segunda fase", disse Mahmoud Mardaoui. "É nisso que insistimos e não vamos recuar", acrescentou o dirigente, num comunicado.

O movimento palestiniano protestou contra os termos do enviado dos EUA, argumentando que não passam de uma tática de abrandamento para manter a presença de Israel na Faixa de Gaza e de um “regresso às posições iniciais”.

O porta-voz do Hamas apontou também que as negociações sobre a segunda fase estão completamente congeladas, em parte porque o Hamas não tem qualquer intenção de abdicar do seu controlo político ou de segurança no enclave palestiniano, como Israel exige.

O movimento palestiniano acusa ainda Israel de estar a fazer “chantagem mesquinha” com este corte da ajuda humanitária que classifica como um “crime de guerra”.

"A decisão de Netanyahu de suspender a ajuda humanitária é uma chantagem mesquinha, um crime de guerra e uma violação flagrante do acordo" de tréguas, disse o movimento islamita palestiniano, apelando aos "mediadores da comunidade internacional para que pressionem" Israel a recuar nesta decisão.

Adensa-se, assim, o impasse em torno do cessar-fogo em Gaza. A primeira fase da trégua entre terminou no sábado, sem um acordo sobre uma segunda fase, que deveria levar ao fim definitivo da guerra e à libertação de todos os reféns.

Fontes egípcias disseram na sexta-feira que a delegação israelita no Cairo tentou prolongar a primeira fase por 42 dias, enquanto o Hamas queria passar à segunda fase do acordo de cessar-fogo.

Na primeira fase do cessar-fogo, o Hamas entregou 33 reféns israelitas, bem como cinco tailandeses devolvidos numa libertação não programada, em troca de cerca de 2.000 prisioneiros e detidos palestinianos nas prisões israelitas e da retirada das tropas israelitas de algumas das suas posições em Gaza.

De acordo com o acordo original, a segunda fase deveria marcar o início das negociações sobre a libertação dos restantes 59 reféns, a retirada total das tropas israelitas de Gaza e o fim definitivo da guerra.

No entanto, as negociações nunca começaram e Israel diz que todos os seus reféns devem ser devolvidos para que os combates cessem.

c/agências
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