"Quando nós potenciamos pessoas para serem heroínas das suas histórias elas percebem a capacidade que têm de agir e de mudar o seu contexto", afirma Daniella Assa, antiga girlmover a atual gestora do CML no terreno Girl Move Academy

Girl Move Academy aposta em jovens moçambicanas para transformar Moçambique

A organização portuguesa Girl Move Academy atua em Moçambique com o objetivo de impulsionar jovens mulheres a tornarem-se agentes de mudança capazes de desenvolverem as suas comunidades e o país. Na edição deste ano do Changemakers LAB, um laboratório de inovação social, as girlmovers, os membros da comunidade de Murrapaniua, na província de Nampula e as empresas parceiras trabalharam em conjunto para encontrar soluções sustentáveis e inovadoras para os problemas mais urgentes desta comunidade. No dia em que se celebra o Dia Mundial da Mulher Africana, a RTP dá a conhecer um projeto que aposta no empoderamento feminino e ambiciona contribuir para o desenvolvimento de Moçambique.

A Girl Move Academy é uma academia de liderança e inovação social, com sede em Nampula, no norte de Moçambique, fundada em 2013 para promover a educação e a liderança feminina através de um modelo de mentoria circular intergeracional, reconhecido pela UNESCO como o melhor Programa de Educação de Raparigas e Mulheres da região africana, em 2021.

A sua missão é criar através dos seus programas uma nova geração de mulheres e raparigas líderes capazes de potenciarem mudanças positivas nas comunidades, respondendo aos vários desafios sociais e económicos e fenómenos que o país enfrenta, nomeadamente a dificuldade de acesso a cuidados de saúde ou educação, infraestruturas deficientes ou a desigualdade de género que, por sua vez, resultam em altas taxas de mortalidade ou falta de oportunidades para as mulheres.
A sinergia entre girlmovers, comunidade e empresas parceiras 
Neste sentido a Girl Move Academy criou o Changemakers LAB, um programa intensivo de quatro meses em que as girlmovers, jovens moçambicanas com formação académica com idades entre os 20 e os 30 anos e que frequentam o programa de liderança e empreendedorismo Change trabalham nas comunidades de Nampula para testar e validar ideias como soluções económicas e sociais para o país.

O programa oferece às jovens líderes girlmovers, aos membros das comunidades e às empresas e organizações parceiras uma oportunidade de trabalharem em conjunto para cocriarem ideias e soluções sustentáveis e inovadoras para responderem aos desafios das comunidades, alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.

Rita Miguel, coordenadora do Changemakers LAB da Girl Move Academy, explica que a sinergia entre as girlmovers, a comunidade e as empresas parceiras estrutura-se num triângulo em que "o Changemakers LAB é o ponto onde os três se cruzam" e cujo principal objetivo é “o impacto sistémico positivo em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”. “O Changemakers LAB funciona em triângulo sinérgico win-win-win em que todas as partes ganham e em que todas as partes contribuem para o resultado final", afirma.

Como partes iguais de um triângulo, cada uma das três desempenha um papel fundamental no sucesso do programa. Se, por um lado, as girlmovers na qualidade de jovens líderes em formação trazem talento e energia e têm a oportunidade de aplicar conhecimentos adquiridos e desenvolver capacidades de liderança e de implementação de projetos na comunidade.

Por outro, os membros da comunidade, designadamente os que têm perfis de liderança e são muitas vezes responsáveis informais por certos assuntos, são convidados a participar ativamente no processo de identificação e resolução dos problemas, aportam a sua sabedoria local e beneficiam com o desenvolvimento da comunidade.

E, por último, as empresas parceiras trazem conhecimento, experiência e recursos em áreas estratégicas para a implementação de cada desafio e em troca ganham a oportunidade de testar novas soluções no terreno e entender como é que os seus produtos e serviços podem fornecer soluções em contextos específicos.

"O lema do Changemakers LAB não é que nós vamos à comunidade e causamos transformação. É que nós cocriamos a solução com a comunidade, aproveitando o suco da sua sabedoria", conta Daniella Assa, antiga girlmover e atual gestora do programa no terreno, em entrevista à RTP. "É esse o nosso diferencial, nós convidamos os membros da comunidade para a mesa de desenho e mostramos-lhe que são capazes e têm capacidade de serem autónomos", acrescenta.

A jovem moçambicana, de 24 anos, oriunda de Maputo é responsável pela gestão do Changemakers LAB no terreno e pelas relações entre a Academia, as girlmovers e a comunidade. Após a sua experiência como girlmover, em 2023, na comunidade de Murrapaniua foi convidada pela Girl Move Academy para integrar a equipa no terreno.

Formou-se em Engenheiria Civil, na Universidade Tecnológica de Gujarat na Índia, para onde foi estudar através de uma bolsa de estudos, mas foi na Girl Move Academy e no Changemakers LAB que encontrou o seu propósito no ano passado. "A Girl Move ofereceu-me contacto com a minha comunidade, ofereceu-me a capacidade de conectar-me com as minhas raízes e de entender a importância disso", afirmou.

Acima disso, a Girl Move permitiu-lhe entender que tem "a capacidade de colocar os meus esforços para o desenvolvimento do meu país, não focando só no país no global mas focando em comunidades, entrando casa por casa, fazendo diferença casa por casa até conseguir englobar uma comunidade inteira e depois todo o Moçambique quem sabe".
Seis desafios e seis soluções na agenda de 2024
Na edição deste ano do Changemakers LAB foram identificados seis desafios na comunidade de Murrapaniua e cocriadas seis soluções piloto por 36 girlmovers, pivôs da comunidade e empresas parceiras, tais como a GALP, EDP ou a Fundação L’Oreal, designadamente nas áreas das energias renováveis, mobilidade inteligente, criação de rendimento, economia circular, participação comunitária e mentoria digital.“Murrapaniua é uma comunidade muito grande e muito diversa. Com 61 mil habitantes tem muitas mulheres, crianças e pessoas dos diversos cantos de Moçambique, é um dos bairros de Nampula que recebe mais deslocados de Cabo Delgado”, constata Daniella Assa.

Como muitas comunidades rurais no país, Murrapaniua enfrenta grandes desafios relacionados a pobreza, acesso limitado a serviços básicos de saúde ou ainda desigualdade de género. Um dos principais problemas que a população de Marrapaniua enfrenta é a falta de acesso a cuidados primários de saúde, devido à escassez de infraestruturas locais, vias de acesso e de meios de transporte.

A gestora do Changemakers LAB no terreno conta à RTP que "em momentos de emergência as ambulâncias não tem como chegar aos hospitais, então as mulheres grávidas perdem por vezes os seus bebés no percurso" ou ainda que “os taxistas acabam cobrando preços muito muito muito altos para poderem levar mulheres e doentes aos hospitais”.
“Construiu-se uma cultura das pessoas não irem aos hospitais por causa da logística toda que envolve”, explica.

Para resolver este desafio e consequentemente diminuir a taxa de mortalidade, mortalidade infantil e mortes durante o parto,  as girlmovers desenvolveram um novo modelo de negócio para reutilizar moto-ambulâncias no transporte de doentes e grávidas para os hospitais, resgatando uma solução anterior que transformou moto-ambulâncias convencionais em motos-elétricas com baterias recarregáveis, uma solução patrocinada pela EDP.

Com o apoio de pivôs da comunidade e da organização SolidarMed, foram identificadas e capacitadas cinco mulheres da comunidade, com formação na área da saúde, que atuam como ativistas de saúde na comunidade

Estas mulheres promovem campanhas de prevenção de doenças prevalentes na região como a malária, tifoide e coléra, mas também campanhas de sensibilização porta-a-porta sobre a existência de Brigadas Móveis que oferecem quinzenalmente cuidados primários na comunidade, e que a maioria da população desconhece que existe.

Desta forma ao combinar o talento, a energia e criatividade das girlmovers com o conhecimento, a experiência e o apoio técnico e financeiro dos parceiros globais, a Girl Move Academy não está apenas a empoderar jovens moçambicanas, está também a contribuir para o desenvolvimento e mudança positiva e sustentável das comunidades, como Murrapaniua e, em última análise, do país. O exemplo da Daniella Assa reflete o impacto transformador da Girl Move Academy e do programa Changemakers LAB. 

Este modelo sinérgico, onde todas as partes colaboram e todas as partes ganham, é essencial para o sucesso do Changemakers LAB e para ajudar a atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030.