Mundo
Grupo Wagner insurge-se contra Vladimir Putin mas recua para evitar "banho de sangue". O que se passou na Rússia?
Em menos de 24 horas, uma sucessão de acontecimentos inesperados e inéditos veio agitar a situação vigente no leste da Europa, com um significativo desafio à liderança de 23 anos de Vladimir Putin, que acusou o antigo aliado de "traição". O líder do grupo Wagner, Evgueni Prigozhin, declarou na sexta-feira o início de uma "marcha pela justiça" até Moscovo, mas acabou por ordenar o recuo das suas tropas de forma a evitar um "banho de sangue".
A tensão entre o Kremlin e o grupo paramilitar liderado por Prigozhin cresceu ao longo dos últimos meses, tornando-se cada vez mais palpável nas declarações e movimentações. Acabou por desembocar numa revolta dos homens de Prigozhin, que atacaram Rostov durante a madrugada de sábado e avançaram durante este sábado para a capital.
A revolta do grupo Wagner foi suspensa por ordem do próprio líder, possivelmente para dar lugar a negociações.
Reunimos as principais informações disponíveis até ao momento sobre um dia de grande agitação na Rússia, numa altura em que o desfecho da insurreição é ainda incerto.
Antecedentes
Há precisamente um mês, o líder do grupo Wagner admitia o fracasso da campanha militar russa na Ucrânia, em curso desde fevereiro de 2022. Evgueni Prigozhin admitia que o seu grupo paramilitar tinha perdido mais de 20 mil homens, a maioria no assalto a Bakhmut, enquanto as elites do país continuavam a ser poupadas no esforço de guerra.
Prigozhin pedia às elites: “Reúnam os vossos filhos, mandem-nos para a guerra. Quando forem a um funeral e começarem a enterra-los, as pessoas dirão: assim é justo”.
Caso contrário, alertou: “Todas estas divisões podem terminar numa revolução, tal como em 1917”. Um mês volvido, o cenário de guerra civil coloca-se em cima da mesa, numa rebelião contra o poder em Moscovo encetada pelos homens de Prigozhin.
Caso contrário, alertou: “Todas estas divisões podem terminar numa revolução, tal como em 1917”. Um mês volvido, o cenário de guerra civil coloca-se em cima da mesa, numa rebelião contra o poder em Moscovo encetada pelos homens de Prigozhin.
Se durante meses os mercenários do grupo Wagner lutaram em prol da “operação especial” liderada pelo Kremlin, o antigo aliado de Putin assumiu-se cada vez mais crítico das elites e dos políticos ao longo das últimas semanas.
Queixou-se em várias ocasiões e pediu por diversas vezes o reforço na ajuda a estes paramilitares. Denunciou o envio insuficiente de munições para a linha da frente, com tiradas cada vez mais violentas contra o Ministério russo da Defesa, o chefe de Estado-Maior e ao próprio Vladimir Putin.
Na noite de sexta-feira, Evgueni Prigozhin acusou o Exército russo de levar a cabo ataques contra acampamentos dos seus mercenários, provocando um “grande número” de vítimas. O líder do grupo Wagner garantiu que iria responder a estes ataques, que acredita terem sido ordenados pelo ministro russo da Defesa, Sergei Shoigu.
O responsável russo pela Defesa negou todas as incriminações e acusou o líder do grupo Wagner de “provocação”. Seguiu-se uma declaração de guerra por parte de Prigozhin: o líder do grupo Wagner anunciava na sexta-feira uma “marcha pela justiça”, ao lado de 25 mil combatentes, num apelo de revolta contra o Ministério da Defesa.
Afirmou que a ação não seria um “golpe militar”, garantindo que não iria atrapalhar as Forças Armadas russas. Mas logo os serviços secretos russos (FSB) responderam com prontidão e anunciaram o início de uma investigação ao líder do grupo Wagner por “convocação de um motim armado”.
A caminho de Moscovo
A esta escalada do lado russo, Evgueni Prigozhin respondeu com a incursão do seu exército privado no território russo através de território ucraniano, rumo à região de Rostov, a 1000 quilómetros da capital russa. Nas horas seguintes, o líder do grupo Wagner anunciou o controlo daquela cidade, uma base fundamental de apoio das tropas russas destacadas na Ucrânia.
Poucas horas depois das primeiras movimentações, o líder do grupo paramilitar Wagner anunciava ter conquistado o quartel-general do exército russo na cidade de Rostov, tendo assumido o controlo de vários locais na cidade, incluindo um aeródromo.
"Chegamos aqui, queremos receber o chefe do Estado-Maior e Shoigu", afirmou Prigozhin, referindo-se ao ministro da Defesa. "A menos que venham, estaremos aqui, bloquearemos a cidade de Rostov e seguiremos para Moscovo", reiterou.
O poder em Moscovo começou a tomar precauções. A televisão estatal interrompeu a emissão para dar conta dos últimos desenvolvimentos e as estradas rumo à capital sofreram cortes, à medida que o Exército iniciava os preparativos para o embate com as tropas de Prigozhin.
O comité antiterrorista da Rússia colocou em marcha uma “operação antiterrorista” em Moscovo e arredores, enquanto o Ministério russo da Defesa lamentava que os combatentes do grupo Wagner tivessem sido “enganados e arrastados para uma aventura criminosa” pelo seu líder.
Às primeiras horas da manhã, o primeiro discurso de Vladimir Putin à nação após os recentes desenvolvimentos. Referindo-se ao aliado de outros tempos, acusou o líder das forças Wagner de “traição”, motivada pelas suas “ambições excessivas”.
"É uma facada nas costas do nosso país e do nosso povo”, reiterou o presidente russo, denunciando o “motim armado” em curso. Garantiu que não iria permitir que a situação resvalasse para uma “guerra civil” e apelou à “união” do país.
"Qualquer turbulência interna é uma ameaça mortal ao nosso Estado como nação. Representa um golpe para a Rússia, para o nosso povo e para as ações que estamos a tomar para proteger a nossa pátria", considerou.
Durante a manhã, o grupo Wagner declarava ter assumido o controlo da cidade de Voronezh, a 500 quilómetros de Moscovo, e mais tarde também da cidade de Lipetsk, a 400 quilómetros do destino.
Poucas horas depois das primeiras movimentações, o líder do grupo paramilitar Wagner anunciava ter conquistado o quartel-general do exército russo na cidade de Rostov, tendo assumido o controlo de vários locais na cidade, incluindo um aeródromo.
"Chegamos aqui, queremos receber o chefe do Estado-Maior e Shoigu", afirmou Prigozhin, referindo-se ao ministro da Defesa. "A menos que venham, estaremos aqui, bloquearemos a cidade de Rostov e seguiremos para Moscovo", reiterou.
O poder em Moscovo começou a tomar precauções. A televisão estatal interrompeu a emissão para dar conta dos últimos desenvolvimentos e as estradas rumo à capital sofreram cortes, à medida que o Exército iniciava os preparativos para o embate com as tropas de Prigozhin.
O comité antiterrorista da Rússia colocou em marcha uma “operação antiterrorista” em Moscovo e arredores, enquanto o Ministério russo da Defesa lamentava que os combatentes do grupo Wagner tivessem sido “enganados e arrastados para uma aventura criminosa” pelo seu líder.
Às primeiras horas da manhã, o primeiro discurso de Vladimir Putin à nação após os recentes desenvolvimentos. Referindo-se ao aliado de outros tempos, acusou o líder das forças Wagner de “traição”, motivada pelas suas “ambições excessivas”.
"É uma facada nas costas do nosso país e do nosso povo”, reiterou o presidente russo, denunciando o “motim armado” em curso. Garantiu que não iria permitir que a situação resvalasse para uma “guerra civil” e apelou à “união” do país.
"Qualquer turbulência interna é uma ameaça mortal ao nosso Estado como nação. Representa um golpe para a Rússia, para o nosso povo e para as ações que estamos a tomar para proteger a nossa pátria", considerou.
Durante a manhã, o grupo Wagner declarava ter assumido o controlo da cidade de Voronezh, a 500 quilómetros de Moscovo, e mais tarde também da cidade de Lipetsk, a 400 quilómetros do destino.
Reviravolta e as reações internacionais
No entanto, quando tudo apontava para um confronto entre o exército e as forças Wagner, o líder Evgueni Prigozhin ordenou aos combatentes que recuassem, evitando dessa forma um “banho de sangue”. O gabinete do presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, anunciava pouco antes que o líder do grupo Wagner tinha aceitado uma proposta para “interromper o movimento de combatentes no território da Rússia e tomar novas medidas para diminuir as tensões”.
À medida que os eventos se sucederam, o mundo acompanhou atentamente - e com cautela - todos os desenvolvimentos na Rússia. O presidente norte-americano, Joe Biden, já conversou sobre a situação com os líderes de França, Reino Unido e Alemanha. O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, também esteve em contacto com as nações do G7 e o Alto Representante da UE para a política externa.
Durante a manhã, o Ministério britânico da Defesa considerou que estes acontecimentos representam “o desafio mais significativo para o Estado russo nos últimos tempos”. Por sua vez, o presidente turco, Tayyip Erdogan, falou ao telefone com Vladimir Putin e apelou ao “bom senso” do homólogo russo.
Em Kiev, a atenção ao que se foi passando na Rússia foi ainda mais significativa. É incerto qual será o impacto destes últimos desenvolvimentos na invasão russa da Ucrânia, em curso desde fevereiro de 2022.
A aparente instabilidade em Moscovo surge num momento importante, em que as forças ucranianas tentam levar a cabo uma contraofensiva há muito esperada. O que acontecer na Rússia deverá ter repercussões no sucesso desta resposta ucraniana.
“Hoje o mundo pôde ver que os mestres da Rússia não controlam nada. (…) Simplesmente, o caos completo. A ausência de qualquer previsibilidade”, afirmou Zelensky.
Dirigindo-se a Vladimir Putin, o presidente ucraniano afirmou: “Quanto mais tempo as suas tropas permanecerem em terras ucranianas, maior será a devastação para a Rússia”.
No entanto, quando tudo apontava para um confronto entre o exército e as forças Wagner, o líder Evgueni Prigozhin ordenou aos combatentes que recuassem, evitando dessa forma um “banho de sangue”. O gabinete do presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, anunciava pouco antes que o líder do grupo Wagner tinha aceitado uma proposta para “interromper o movimento de combatentes no território da Rússia e tomar novas medidas para diminuir as tensões”.
À medida que os eventos se sucederam, o mundo acompanhou atentamente - e com cautela - todos os desenvolvimentos na Rússia. O presidente norte-americano, Joe Biden, já conversou sobre a situação com os líderes de França, Reino Unido e Alemanha. O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, também esteve em contacto com as nações do G7 e o Alto Representante da UE para a política externa.
Durante a manhã, o Ministério britânico da Defesa considerou que estes acontecimentos representam “o desafio mais significativo para o Estado russo nos últimos tempos”. Por sua vez, o presidente turco, Tayyip Erdogan, falou ao telefone com Vladimir Putin e apelou ao “bom senso” do homólogo russo.
Em Kiev, a atenção ao que se foi passando na Rússia foi ainda mais significativa. É incerto qual será o impacto destes últimos desenvolvimentos na invasão russa da Ucrânia, em curso desde fevereiro de 2022.
A aparente instabilidade em Moscovo surge num momento importante, em que as forças ucranianas tentam levar a cabo uma contraofensiva há muito esperada. O que acontecer na Rússia deverá ter repercussões no sucesso desta resposta ucraniana.
“Hoje o mundo pôde ver que os mestres da Rússia não controlam nada. (…) Simplesmente, o caos completo. A ausência de qualquer previsibilidade”, afirmou Zelensky.