Guerra no Iémen. Tomada de Aden reforça pretensões separatistas do sul

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Forças separatistas do sul do Iémen, apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos, durante confrontos em Aden a 10 de agosto de 2019, com forças governamentais do norte
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Milícias separatistas no Iémen, apoiadas e armadas pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), garantiram esta quarta-feira que irão manter o controlo de Aden, capital do sul do país, que tomaram sábado passado. Exigem ainda a remoção de islamitas e de nortenhos de posições chave da administração e a entrega do Governo aos sulistas.

A principal cidade do sul do Iémen, durante quase 130 anos parte do império britânico, foi tomada sábado pelo movimento separatista Conselho Transitório do Sul, STC na sigla inglesa.

O grupo é apoiado militarmente pelo Cinto de Segurança, que os Emirados treinaram e armaram desde o início do conflito em 2015, para combater o avanço para sul das forças xiitas Houthi.

No sábado, o STC ocupou as bases militares em torno da cidade e o palácio presidencial de Maashiq, derrotando os seus anteriores aliados, o partido islamita Islah, principal apoiante do Presidente Hadi e próximo da Arábia Saudita, o qual acusam de se ter aliado aos Houthi, para obter o controlo na zona.
Regresso à independência
De acordo com Nasser al-Habaji, membro do praesidium do Conselho Interino do Iémen do Sul, a que pertence o STC, o objetivo das milícias iemenitas do sul é estabelecer para já uma administração interina da região, com vista à restauração da independência do sul do Iémen, perdida para o norte em 1990.

"A independência do sul do Iémen irá acontecer - estamos a aproximar-nos disso. Irá beneficiar tanto o Sul do Iémen como o estabelecimento da paz em todo o Iémen", afirma al-Habaji.

"Além disso, irá beneficiar a estabilidade na região, a segurança nacional dos países árabes, cuja estabilidade depende da situação na área do Estreito de Bab al-Mandab e de Aden", acrescentou.

A tomada da cidade sábado passado pelo STC, marca uma nova fase no conflito iemenita, que já fez pelo menos 100 mil mortos em cinco anos, provocou uma das maiores crises humanitárias de que há memória e que caiu num impasse.

Revela sobretudo as diferentes prioridades estratégicas que separam os principais poderes sunitas da região, inicialmente aliados militares contra a ofensiva das milícias xiitas Houthi, apoiadas pelo Irão, que tomaram o poder em Sanaa, em 2015.
O fim da coligação
Se a Arábia Saudita tem interesse sobretudo em expulsar os xiitas Houthi, para manter o controlo das fronteiras a sul através de um Governo sunita e simpatizante, os EAU preferem libertar-se de um conflito sem fim à vista, enquanto garantem a navegação livre no Estreito de Bab al-Mandab e do Golfo de Aden, sobretudo caso o Estreito de Ormuz fique refém dos interesses iranianos.

Os Emirados começaram a retirar as suas forças do sul do Iémen em junho passado, deixando o terreno ao STC e ao Cinto de Segurança, a quem terão confiado a missão de garantir o controlo sunita pacífico do sul e a livre navegação na área.

Abu Dabi ecoou de facto o pedido de Riade, para um futuro diálogo pacífico entre as fações em conflito em Aden, mas deixou de fora um apelo para que as forças sulistas que apoia deponham as armas, cedendo o controlo.

"Ceder controlo de Aden não está em cima da mesa neste momento", afirmou à Agência Reuters, Saleh Alnoud, o porta-voz do STC em Londres. "Estamos aqui para ficar - mas para ficar por uma boa razão: para manter a estabilidade", acrescentou.
Expulsão do Islah
Alnoud defendeu que o fim do impasse irá implicar a demissão de todos os elementos do partido islamita Islah - que mantinha a estrutura do Governo de Hadi e que os Emirados consideram próximo da Irmandade Muçulmana - que se mantêm na administração da cidade, assim como a partida de todos os representantes do norte.

O STC acusa o Islah de ter sido cúmplice num ataque com mísseis Houthi contra as forças do sul, no início deste mês, que provocou a morte a um dos seus comandantes, acusação que o Islah nega.

"O Islah esteve no centro disto", afirmou Alnoud esta quarta-feira. "Seria um bom princípio se o Islah fosse removido de todo o sul e deixasse os sulistas governarem-se a si próprios. Consideramos que o Governo foi infiltrado ou controlado pelo Islah", acrescentou.

Uma possibilidade de por fim ao impasse, afirma, será entregar o controlo dos quartéis ao Cinto de Segurança do ACT ou à polícia de Aden.
E agora, Arábia Saudita?
A perda da capital do sul é o golpe de misericórdia à pretensões do Governo do Presidente sunita, Abd-Rabbu Mansour Hadi, exilado na Arábia Saudita desde que foi expulso de Sanaa em 2015 e que ali mantinha a sua sede de Governo, garantindo alguma legitimidade.

Os separatistas ganharam também o direito de se sentar à mesa das negociações para um eventual fim das hostilidades no Iémen, e deram um passo firme no sentido de garantirem as suas pretensões. Estas, afirmam analistas, têm o apoio dos Emirados.

Uma estratégia que deixa a Arábia Saudita sozinha para lidar com o osso duro de roer que têm sido os Houthi, de facto governantes do norte do Iémen desde 2014 e apesar de toda a ofensiva militar sunita.

À Reuters, um analista familiarizado com o conflito iemenita lembrou que, "agora que os sauditas se veem sozinhos, ... penso que não sabem como sair disto. Os sauditas têm de aceitar que cinco anos de Governo de Hadi são um fracasso".

Alnoud ecoou esta análise. "Os sauditas têm de tomar uma decisão: querem ganhar a guerra contra os Houthis? Se querem, então têm de nos reconhecer, a nós STC, como Governo e administradores do sul incluindo no período de transição", afirmou.
Propostas separatistas
O porta-voz deixou mesmo uma ameaça velada ao príncipe Mohammed bin Salman (MBS), o herdeiro do trono saudita e de facto governante do reino.

"Diria a MBS que, se quer realmente ganhar esta guerra, os sulistas têm sido parceiros em que pode confiar, construtivos", referiu Alnoud, usando a sigla do nome do príncipe pela qual este é habitualmente conhecido. "Em troca tem de manter o sul livre destes responsáveis corruptos afiliados como o Islah".

Alnoud disse ainda que as Nações Unidas têm de se atualizar quanto ao Iémen
e dar aos sulistas um lugar à mesa das negociações, como parceiro igual no processo de paz.

"Podemos manter-nos parte do Iémen, Hadi pode manter-se Presidente, mas o sul tem de ser administrado e governado por sulistas", afirma, no que parece ser um compromisso, que acabaria com eventuais intenções separatistas de outros grupos. Um desejo com 30 anos
Desde a sua união com o norte em 1990, que o sul do Iémen, com quatro milhões de habitantes, tentou libertar-se do jugo que alegadamente sempre abarcou a maior parte dos recursos sem em troca dar quaisquer benefícios.

Em 1994, uma rebelião mergulhou o país numa guerra civil durante dois meses, vencida finalmente pelo líder do norte, o Presidente Ali Abdulla Saleh.

O esforço separatista reavivou-se em 2007, com a formação do al-Hirak al-Janoubi. O movimento ganhou impulso com a queda de Saleh em 2011, durante a Primavera Árabe.

Em 2015, nas semanas anteriores à intervenção da coligação sunita liderada pela Arábia Saudita, e após a queda de Sanaa às mãos da milícias xiitas Houthi, o al-Hirak defendeu Aden durante semanas, contra as ofensivas separadas das forças do norte e dos Houthis.

Em maio de 2017, Aidarous al-Zubaidi anunciou a formação do STC, que, afirmou, teria a missão de "representar a vontade do povo". Em janeiro de 2018, Aden foi abalada por confrontos entre separatistas e forças governamentais, que resultaram em dezenas de mortes.

O controlo de Aden, este sábado, que fez 40 mortos e mais de 200 feridos, parece por um ponto final na questão, até porque a Arábia Saudita dificilmente terá pretexto para abrir uma nova frente de combate contra os seus antigos aliados.

"Não estou a tentar evitar dizer que iramos separar-nos, porque essa é uma possibilidade real, agora", disse Alnoud à Reuters. Existe ainda a opção de "dois Governos, um no norte e outro no sul", acrescentou.

Os xiitas Houthi não foram mencionados.

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