Guterres denuncia que Gaza é terra de quatro em cinco das "pessoas mais famintas do mundo"
O secretário-geral da ONU fez notar esta terça-feira, no decurso de um debate no seio do Conselho de Segurança, que quatro em cada cinco das pessoas mais famintas do mundo estão na Faixa de Gaza. Neste território debaixo da máquina de guerra israelita desde outubro do ano passado, "ninguém tem o que comer".
"Estou consternado em dizer que o nosso mundo hoje está repleto de exemplos da relação devastadora entre fome e conflito", frisou António Guterres, para então se referir à Faixa de Gaza como exemplo.
"Em Gaza, ninguém tem o que comer. Das 700 mil pessoas mais famintas do mundo, quatro em cada cinco habitam aquela pequena faixa de terra", enfatizou.
O secretário-geral fez também votos para que sejam bem sucedidas as iniciativas diplomáticas visando um novo cessar-fogo entre Israel e o Hamas.
Guterres mencionaria ainda a Síria, onde cerca de 13 milhões de pessoas se debatem com a fome ao cabo de dez anos de guerra, e Myanmar, a braços com uma crónica instabilidade política e social."Em Portugal temos um ditado: numa casa sem pão, todos discutem e ninguém tem razão", evocou.
"Sem ação, a situação irá deteriorar-se. Os conflitos estão a multiplicar-se. A crise climática está prestes a entrar em espiral, à medida que as emissões continuam a aumentar. E a insegurança alimentar aguda tem aumentado ano após ano".
"Colapso na ordem pública"
Adiante, em declarações aos jornalistas em Nova Iorque, António Guterres advertiu para o que descreveu como "colapso na ordem pública" na Faixa de Gaza.
Questionado sobre a mensagem que levaria ao primeiro-ministro israelita, caso conseguisse contactar Benjamin Netanyahu - algo que lhe tem sido vedado por Telavive -, o secretário-geral da ONU optou por sublinhar a sua "particular preocupação com a deterioração das condições e da segurança para a entrega de ajuda humanitária em Gaza".
"Há um colapso na ordem pública. Ao mesmo tempo, temos restrições impostas por Israel que não melhoram e limitam a distribuição humanitária. Por outro lado, os mecanismos de resolução de conflitos para proteger a prestação de ajuda humanitária em relação às operações humanitárias não são eficazes", apontou.
"Assim, a minha sincera esperança é que as negociações para a libertação de reféns e alguma forma de cessação das hostilidades sejam bem-sucedidas para evitar uma ofensiva total sobre Rafah, onde está localizado o núcleo do sistema humanitário e que teria consequências devastadoras", prosseguiu.
Guterres manifestaria igualmente "profunda preocupação" com o número de jornalistas mortos nesta guerra, vincando que a "liberdade de imprensa é condição fundamental para que as pessoas possam saber o que realmente está a acontecer em todo o mundo".
CIA e Egito, uma "coordenação intensiva"
Na frente diplomática, o presidente egípcio, Abdelfatah al Sisi, e o diretor da CIA, William Burns, estiveram esta terça-feira reunidos, tendo assumido o compromisso de uma "coordenação intensiva" para promover uma trégua na Faixa de Gaza, segundo uma nota do Cairo.
Al Sisi e o número um da agência norte-americana juntaram-se ao chefe dos serviços secretos egípcios, Abbas Kamel, para "analisar a evolução da situação atual". Foi "confirmado que as consultas e a coordenação intensiva continuariam a fim de alcançar os objetivos do cessar-fogo, proteger os civis e ativar a solução dos dois Estados".
Burns, adianta ainda a Presidência egípcia, fez chegar a Al Sisi o "apreço pelos esforços incansáveis do Egito para fazer avançar o caminho da calma na Faixa de Gaza, um cessar-fogo e a troca de prisioneiros".Elementos da CIA, dos serviços israelitas Mossad e Shin Bet ter-se-ão reunido, nas últimas horas, no Cairo, com interlocutores egípcios e do Catar, além de delegações do Hamas e da Jihad Islâmica Palestiniana. Contactos noticiados pela televisão egípcia.
No sul da Faixa de Gaza, Rafah - cidade próxima da fronteira egípcia onde atualmente se refugiam 1,4 milhões de deslocados palestinianos - foi esta terça-feira atingida pela artilharia israelita.
O primeiro-ministro do Estado hebraico, Benjamin Netanyahu, tem-se mostrado indiferente aos apelos da comunidade internacional, incluindo de Washington, para que se abstenha de desencadear uma ofensiva alargada sobre Rafah sem um plano de evacuação dos civis.
c/ agências internacionais