Hamas reforça controlo em Gaza enquanto Trump pressiona por um plano de paz

Hamas reforça controlo em Gaza enquanto Trump pressiona por um plano de paz

O Hamas está a consolidar o seu domínio sobre Gaza ao colocar aliados em cargos importantes do Governo, cobrar impostos e pagar salários, o que alimenta o ceticismo generalizado sobre as perspetivas do plano de paz do presidente dos Estados Unidos. O Conselho de Paz, criado por Donald Trump, arranca esta quinta-feira com a primeira reunião em Washington.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Reuters Polícia do Hamas controla o trânsito na Cidade de Gaza

Quatro meses depois do cessar-fogo imposto pelos EUA em Gaza, os habitantes do enclave afirmam que o Hamas está a ampliar novamente o seu controlo no território disputado.

As autoridades militares israelitas afirmam que o grupo islâmico-palestiniano, que se recusa a depor as suas armas, tem aproveitado o cessar-fogo de outubro para retomar o controlo das zonas desocupadas pelas tropas israelitas.
Israel ainda controla mais de metade de Gaza, mas quase todos os dois milhões de habitantes estão em zonas controladas pelo Hamas.

De acordo com uma avaliação militar israelita avaliada pela Reuters e fontes no enclave palestiniano, o Hamas está a consolidar o seu domínio ao colocar aliados em cargos importantes do Governo, cobrar impostos e pagar salários.

O Hamas nomeou cinco governadores distritais, todos com ligações às Brigadas al-Qassam, de acordo com duas fontes palestinianas com conhecimento direto das suas operações. O grupo também substituiu altos funcionários nos ministérios da Economia e do Interior de Gaza, responsáveis pela administração dos impostos e da segurança.

"O Hamas está a avançar com medidas práticas destinadas a preservar a sua influência e controlo na Faixa de Gaza 'de baixo para cima', através da integração dos seus apoiantes em repartições governamentais, aparelhos de segurança e autoridades locais", afirmou o exército num documento apresentado ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no final de janeiro.

"As suas forças policiais e de segurança regressaram e agora estão presentes nas ruas, a controlar o crime e a perseguir aqueles que rotulam como colaboradores e pessoas com opiniões”, disse Mohammed Diab, um ativista em Gaza, citado pela BBC.

“Os cidadãos devem dirigir-se às autoridades do Hamas para obter bilhetes de identidade ou para procedimentos de saúde, e o grupo também está a reafirmar o controlo sobre o poder judiciário e os tribunais”, acrescentou, afirmando que “o Hamas retomou o controlo de mais de 90% das áreas onde está presente”.

Ismail al-Thawabta, diretor do gabinete de imprensa do Governo controlado pelo Hamas, negou que se tratasse de novas nomeações, argumentando que foram apenas encontrados substitutos temporários para os cargos vagos durante a guerra, de forma a "evitar qualquer vazio administrativo" e garantir que os habitantes recebem serviços essenciais enquanto as negociações sobre os próximos passos do processo de paz continuam.
Primeira reunião do Conselho de Paz
O reforço do controlo levanta dúvidas sobre a estratégia de longo prazo e se o Hamas está preparado para abrir mão das suas armas e autoridade, conforme exigido pela segunda fase do plano de paz de Donald Trump.

Enquanto isso, o Conselho de Paz, organismo composto por líderes mundiais criado pelo presidente norte-americano arranca esta quinta-feira com a primeira reunião em Washington e a promessa de destinar cinco mil milhões de dólares para reconstruir Gaza.

Trump deverá também anunciar os países que se comprometerão a fornecer pessoal para uma força de estabilização autorizada pela ONU e a ajudar no treino de uma nova força policial palestiniana, que deverá ser gerida pelo Conselho Nacional para o Governo Autónomo (CNGA). A reunião contará com a participação de governantes de mais de 20 países, a grande maioria aliados da atual administração norte-americana, como Israel, Argentina, Arábia Saudita e Egito.

Presidido de forma vitalícia por Trump, o Conselho de Paz foi inicialmente apresentado como uma das peças-chave para supervisionar o plano de paz para a Faixa de Gaza, mas o tratado fundador da estrutura acabou por revelar um mandato muito mais vasto, ao propor-se a resolver conflitos armados em todo o mundo e ambicionando tornar-se uma organização alternativa às Nações Unidas.

O objetivo do Conselho seria consolidar “um cessar-fogo permanente, apoiar a reconstrução de Gaza e promover uma paz justa e duradoura baseada no direito palestiniano à autodeterminação e ao estabelecimento do seu Estado de acordo com o direito internacional”, abrindo assim caminho à segurança e estabilidade dos países e povos da região.

A ONU não terá representação nesta primeira reunião do Conselho de Paz. A União Europeia, que recusou o convite para integrar a estrutura, vai fazer-se representar na reunião inaugural pela comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, mas Bruxelas não esclareceu se terá a condição de observadora.

c/agências
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