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Hollande chega ao Eliseu a prometer virar a página da austeridade na Europa
Inverter o atual rumo das políticas financeiras e económicas na Europa da moeda única é a mais ambiciosa das promessas ontem reassumidas por François Hollande, o primeiro socialista eleito para a Presidência francesa em 17 anos. Dezenas de milhares de apoiantes inundaram a Praça da Bastilha, em Paris, para ouvir um segundo discurso de vitória do homem que vai render Nicolas Sarkozy no Palácio do Eliseu, depois das primeiras palavras deixadas a franceses e demais europeus a partir do seu bastião, em Tulle. A mesma ideia de base pautou as duas intervenções: “A austeridade não pode ser uma fatalidade”.
Confirmou-se o que as sondagens vaticinavam. François Hollande conquistou no domingo, à segunda volta, a Presidência de França. Obteve 51,62 por cento dos votos. Nicolas Sarkozy averbou 48,38 por cento.
Consumada a vitória, o socialista esperou pelo discurso do Chefe de Estado cessante, que, diante de um clamor de desilusão entre os militantes da conservadora União por um Movimento Popular (UMP), pediu “respeito” pelo sucessor e traçou para o seu horizonte próximo o papel apolítico de “um francês entre os franceses”. Pouco depois, Hollande discursaria pela primeira vez como Presidente eleito em Tulle, a cidade natal que administrou enquanto presidente de câmara. Falou ao país. Mas falou sobretudo à Europa e, em particular, ao Governo de Angela Merkel.
Parte da elite formada pela Escola Nacional de Administração, François Hollande liderou durante 11 anos o Partido Socialista francês.
Foi repetidamente eleito deputado pela região rural de Corrèze, no centro de França. Ao contrário de Nicolas Sarkozy, nunca exerceu funções governativas.
Além da renegociação do tratado europeu de disciplina orçamental, Hollande elegeu como tarefas prioritárias da sua Presidência conduzir a França ao equilíbrio das contas públicas até 2017 e combater o desemprego, privilegiando os mais jovens.
“É a missão que agora é minha, dar à construção europeia uma dimensão de crescimento, de emprego, de prosperidade, de futuro. É isso que direi o mais depressa possível aos nossos parceiros europeus e desde já à Alemanha”, afiançou François Hollande, que fez da oposição ao tratado de disciplina orçamental criado para a União Europeia sob a batuta de Merkel, secundada por Sarkozy, um estandarte de campanha.
“Os franceses, neste 6 de maio, acabam de escolher a mudança ao elegerem-me para a Presidência da República. A Europa olha-nos. No momento em que os resultados foram proclamados, estou seguro de que em muitos países europeus isso foi um alívio, uma esperança, a ideia de que, finalmente, a austeridade não poderia mais ser uma fatalidade”, prosseguiu o socialista, numa antecipação do discurso de tom messiânico que faria mais tarde na capital, perante uma Praça da Bastilha preenchida pelos seus apoiantes.
Em Paris, Hollande insistiria: “Em todas capitais, para lá dos chefes de governo e dos chefes de Estado, há povos que, graças a nós, esperam, olham para nós e querem acabar com a austeridade”.
“Um objetivo comum”
A cartografia defendida nas últimas semanas por François Hollande não fecha completamente a porta a pressupostos de disciplina nas contas públicas. O que o Presidente eleito deverá promover junto dos homólogos europeus será, na prática, uma renegociação do pacto intergovernamental impulsionado no início do ano pela Alemanha como instrumento de resposta ao terramoto financeiro da Zona Euro, de forma a temperar as restrições orçamentais com um pacote de estímulo ao crescimento económico.
Hollande já confirmou que a Alemanha será a primeira escala das viagens que fará na qualidade de Chefe de Estado. A chanceler alemã, que se manteve fiel a Nicolas Sarkozy durante a campanha eleitoral, esteve entre os líderes que falaram ao telefone com o vencedor da jornada eleitoral de domingo, a par do presidente do Governo espanhol, o conservador Mariano Rajoy, e do primeiro-ministro italiano, Mario Monti.
O presidente da Comissão Europeia falou de “um objetivo comum”, ou seja, “relançar a economia europeia para gerar um crescimento duradouro, assente em bases sãs e fonte de novos empregos”. Durão Barroso afirmou ainda comungar com François Hollande da “convicção de que é preciso investir no crescimento e nas grandes redes de infraestrutura, mobilizando mais fortemente o Banco Europeu de Investimento e os fundos disponíveis no orçamento europeu, mantendo a linha da consolidação orçamental e de redução da dívida”.
De Lisboa, para a caixa de correio do candidato vencedor, saiu uma carta assinada por Pedro Passos Coelho a manifestar a disponibilidade do Governo português para trabalhar em conjunto numa “agenda ambiciosa” de “promoção dos interesses comuns”, nos planos “bilateral” e “europeu”. Conotado com as posições alemãs, o primeiro-ministro português não deixa de sublinhar, no texto enviado a Hollande, os “laços sólidos de amizade e de estreita cooperação entre Portugal e a França”.
“Terceira volta”
Internamente - e enquanto se desdobra em contactos com os homólogos europeus -, o novo Presidente da República deverá encetar nas próximas horas o processo de escolha do primeiro-ministro e do elenco governativo que vai substituir o Executivo de François Fillon. E há mais uma batalha eleitoral a travar a breve trecho. Os eleitores franceses vão ser chamados a pronunciarem-se em eleições legislativas a 10 e a 17 de junho. O flanco socialista já começou a pedir uma “ampliação” da vitória nas presidenciais.
À direita surgiram os primeiros avisos contra uma excessiva concentração de poder na mesma cor partidária. Uma posição que é hoje repercutida nas páginas do diário Le Figaro. A direita, escreve o jornal conservador, vai tentar fazer das legislativas “uma terceira volta para corrigir a eleição presidencial”.
No círculo próximo do Presidente cessante, há quem acredite que o pano não caiu por inteiro sobre a era de Sarkozy. Mesmo que o candidato derrotado tenha ontem garantido aos seus correligionários que não voltaria a ser “candidato às mesmas funções”, como revelou a Le Monde o ministro francês do Trabalho, Xavier Bertrand. Fonte próxima do ainda inquilino do Palácio do Eliseu disse ao mesmo jornal que “ele não fará a batalha das legislativas”. Para acrescentar: “Mas a vida é longa. Vão reencontrá-lo em 2017”.
Consumada a vitória, o socialista esperou pelo discurso do Chefe de Estado cessante, que, diante de um clamor de desilusão entre os militantes da conservadora União por um Movimento Popular (UMP), pediu “respeito” pelo sucessor e traçou para o seu horizonte próximo o papel apolítico de “um francês entre os franceses”. Pouco depois, Hollande discursaria pela primeira vez como Presidente eleito em Tulle, a cidade natal que administrou enquanto presidente de câmara. Falou ao país. Mas falou sobretudo à Europa e, em particular, ao Governo de Angela Merkel.
Parte da elite formada pela Escola Nacional de Administração, François Hollande liderou durante 11 anos o Partido Socialista francês.
Foi repetidamente eleito deputado pela região rural de Corrèze, no centro de França. Ao contrário de Nicolas Sarkozy, nunca exerceu funções governativas.
Além da renegociação do tratado europeu de disciplina orçamental, Hollande elegeu como tarefas prioritárias da sua Presidência conduzir a França ao equilíbrio das contas públicas até 2017 e combater o desemprego, privilegiando os mais jovens.
“É a missão que agora é minha, dar à construção europeia uma dimensão de crescimento, de emprego, de prosperidade, de futuro. É isso que direi o mais depressa possível aos nossos parceiros europeus e desde já à Alemanha”, afiançou François Hollande, que fez da oposição ao tratado de disciplina orçamental criado para a União Europeia sob a batuta de Merkel, secundada por Sarkozy, um estandarte de campanha.
“Os franceses, neste 6 de maio, acabam de escolher a mudança ao elegerem-me para a Presidência da República. A Europa olha-nos. No momento em que os resultados foram proclamados, estou seguro de que em muitos países europeus isso foi um alívio, uma esperança, a ideia de que, finalmente, a austeridade não poderia mais ser uma fatalidade”, prosseguiu o socialista, numa antecipação do discurso de tom messiânico que faria mais tarde na capital, perante uma Praça da Bastilha preenchida pelos seus apoiantes.
Em Paris, Hollande insistiria: “Em todas capitais, para lá dos chefes de governo e dos chefes de Estado, há povos que, graças a nós, esperam, olham para nós e querem acabar com a austeridade”.
“Um objetivo comum”
A cartografia defendida nas últimas semanas por François Hollande não fecha completamente a porta a pressupostos de disciplina nas contas públicas. O que o Presidente eleito deverá promover junto dos homólogos europeus será, na prática, uma renegociação do pacto intergovernamental impulsionado no início do ano pela Alemanha como instrumento de resposta ao terramoto financeiro da Zona Euro, de forma a temperar as restrições orçamentais com um pacote de estímulo ao crescimento económico.
Hollande já confirmou que a Alemanha será a primeira escala das viagens que fará na qualidade de Chefe de Estado. A chanceler alemã, que se manteve fiel a Nicolas Sarkozy durante a campanha eleitoral, esteve entre os líderes que falaram ao telefone com o vencedor da jornada eleitoral de domingo, a par do presidente do Governo espanhol, o conservador Mariano Rajoy, e do primeiro-ministro italiano, Mario Monti.
O presidente da Comissão Europeia falou de “um objetivo comum”, ou seja, “relançar a economia europeia para gerar um crescimento duradouro, assente em bases sãs e fonte de novos empregos”. Durão Barroso afirmou ainda comungar com François Hollande da “convicção de que é preciso investir no crescimento e nas grandes redes de infraestrutura, mobilizando mais fortemente o Banco Europeu de Investimento e os fundos disponíveis no orçamento europeu, mantendo a linha da consolidação orçamental e de redução da dívida”.
De Lisboa, para a caixa de correio do candidato vencedor, saiu uma carta assinada por Pedro Passos Coelho a manifestar a disponibilidade do Governo português para trabalhar em conjunto numa “agenda ambiciosa” de “promoção dos interesses comuns”, nos planos “bilateral” e “europeu”. Conotado com as posições alemãs, o primeiro-ministro português não deixa de sublinhar, no texto enviado a Hollande, os “laços sólidos de amizade e de estreita cooperação entre Portugal e a França”.
“Terceira volta”
Internamente - e enquanto se desdobra em contactos com os homólogos europeus -, o novo Presidente da República deverá encetar nas próximas horas o processo de escolha do primeiro-ministro e do elenco governativo que vai substituir o Executivo de François Fillon. E há mais uma batalha eleitoral a travar a breve trecho. Os eleitores franceses vão ser chamados a pronunciarem-se em eleições legislativas a 10 e a 17 de junho. O flanco socialista já começou a pedir uma “ampliação” da vitória nas presidenciais.
À direita surgiram os primeiros avisos contra uma excessiva concentração de poder na mesma cor partidária. Uma posição que é hoje repercutida nas páginas do diário Le Figaro. A direita, escreve o jornal conservador, vai tentar fazer das legislativas “uma terceira volta para corrigir a eleição presidencial”.
No círculo próximo do Presidente cessante, há quem acredite que o pano não caiu por inteiro sobre a era de Sarkozy. Mesmo que o candidato derrotado tenha ontem garantido aos seus correligionários que não voltaria a ser “candidato às mesmas funções”, como revelou a Le Monde o ministro francês do Trabalho, Xavier Bertrand. Fonte próxima do ainda inquilino do Palácio do Eliseu disse ao mesmo jornal que “ele não fará a batalha das legislativas”. Para acrescentar: “Mas a vida é longa. Vão reencontrá-lo em 2017”.