Hong Kong e Minneapolis. China critica dualidade de critérios de Trump

por Joana Raposo Santos - RTP
Os protestos nos Estados Unidos acontecem após um ano de intensas demonstrações pró-democracia em Hong Kong. Foto: Jonathan Drake - Reuters

Membros do Governo e meios de comunicação chineses têm comparado os protestos nos Estados Unidos em torno da morte do afro-americano George Floyd com as manifestações pró-democracia em Hong Kong, que voltaram em força recentemente. Em ambas as nações, os movimentos estão a ser marcados por episódios de violência. A China critica agora Donald Trump por pedir o fim dos confrontos nos EUA após ter incentivado a continuação dos protestos em Hong Kong.

O fim de semana nos EUA foi marcado por manifestações em mais de 30 Estados na sequência da morte de George Floyd, o homem negro que morreu após ser detido pela polícia de Minneapolis. Os confrontos entre manifestantes e polícias, as pilhagens e o incumprimento do recolher obrigatório em várias cidades levaram à detenção de mais de quatro mil pessoas. A polícia utilizou granadas de gás lacrimogéneo e de atordoamento e balas de borracha contra as multidões que atiravam objetos.

Donald Trump tem-se oposto fortemente à “violência coletiva” que marcou os protestos, prometendo travá-la e chegando a ameaçar os manifestantes que tentassem ultrapassar a cerca que protege a Casa Branca com “os cães mais ferozes e as armas mais ameaçadoras” que já viu.

No Twitter, o Presidente já fez vários apelos para que sejam tomadas medidas contra a violência. “Sejam duros, presidentes de Câmara democratas e governadores. Estas pessoas são ANARQUISTAS. Chamem AGORA a nossa Guarda Nacional”, escreveu Trump numa das publicações.

Os protestos nos Estados Unidos acontecem após um ano de intensas demonstrações pró-democracia em Hong Kong, região onde a polícia também foi, por múltiplas vezes, acusada de usar força excessiva contra os manifestantes.

A Administração Trump sempre se mostrou a favor de tais manifestações contra o Governo chinês, nomeadamente na última semana, durante a qual os protestos voltaram em força devido à aprovação de uma lei de segurança nacional para essa região administrativa que pretende impedir contestações, divisões e insubordinações contra o Partido Comunista da China.

Agora, Pequim aproveitou para colocar em xeque o Presidente dos EUA. A porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros partilhou, no Twitter, uma publicação da sua homóloga norte-americana na qual esta defendia que as manifestações em Hong Kong eram um momento importante e “histórico” para a liberdade, criticando o Partido Comunista chinês por “quebrar as promessas para com o povo” daquela região.

Ao partilhar esta publicação, a representante do Ministério chinês escreveu as últimas palavras pronunciadas por George Floyd, enquanto um polícia o imobilizava com um joelho sobre o pescoço: “Não consigo respirar”.


Outro porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China acusou os Estados Unidos de padrões duplos, partilhando um tweet de um representante russo para as Nações Unidas. “Por que negam os EUA à China o direito de restaurar a paz e a ordem em Hong Kong, enquanto em casa estão a dispersar brutalmente as multidões?”, lê-se nessa publicação.

As críticas a Washington têm também partido dos meios de comunicação chineses detidos pelo Partido Comunista. “A presidente da Câmara dos Representantes dos EUA disse uma vez que os protestos violentos em Hong Kong eram bonitos de se observar. Os políticos norte-americanos podem agora apreciar essa bonita vista das suas próprias janelas”, escreveu Hu Xijin, editor-chefe do tabloide chinês Global Times.

Xijin apelou ainda a Donald Trump que não se “esconda atrás dos serviços secretos” e que fale “seriamente” com os manifestantes. “Negoceie com eles, assim como pediu a Pequim que conversasse com os manifestantes em Hong Kong”, escreveu.

Em publicações no Twitter, Xijin defendeu que os protestos em ambos os países desafiam a lei e são destrutivos, criticando o facto de as demonstrações em Hong Kong serem justificáveis de acordo com a visão norte-americana, enquanto as que estão a acontecer nos Estados Unidos são consideradas “injustas”.

O responsável do Global Times relembrou também que, ao contrário de Washington, que frequentemente demonstra apoio aos protestos em Hong Kong, “o Governo chinês não demonstrou qualquer apoio aos protestos nos Estados Unidos”.

c/ agências
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