Morte de George Floyd. Manifestantes quebram confinamento e ocupam ruas de 30 Estados

por Joana Raposo Santos - RTP
O desfecho da noite de ontem levou a que 25 cidades impusessem o recolhimento obrigatório. Foto: Jeenah Moon - Reuters

Os protestos na sequência da morte de George Floyd, o homem negro que morreu após ser detido pela polícia de Minneapolis, continuaram na noite de sábado em pelo menos 30 Estados norte-americanos e ficaram marcados por confrontos entre as autoridades e os manifestantes. Algumas cidades viram-se forçadas a ordenar o recolhimento obrigatório na tentativa de que o cenário não volte a repetir-se nas próximas noites.

Los Angeles, Nova Iorque, Washington e Miami foram algumas das cidades por onde, no sábado, ecoaram as últimas palavras de George Floyd: “Não consigo respirar”. Os manifestantes iniciaram as marchas pacificamente, mas rapidamente começaram a registar-se situações de violência e até assaltos a lojas cujas prateleiras ficaram vazias.

Pelo menos 1400 pessoas foram detidas em 17 cidades norte-americanas e 12 polícias ficaram feridos na sequência dos confrontos. Foi o caso de um agente de Filadélfia que, após tentar impedir um assalto a uma loja durante os protestos, acabou hospitalizado com um braço partido.

O desfecho da noite de ontem levou a que 25 cidades impusessem o recolhimento obrigatório, antecipando a repetição dos protestos este domingo e temendo não só a violência como a propagação do novo coronavírus, que continua a assolar os Estados Unidos. O elevado número de manifestantes nas ruas preocupou as autoridades de saúde, numa altura em que os Estados Unidos continuam a ser a nação mais afetada pelo novo coronavírus: são quase 1,8 milhões os casos confirmados, dos quais mais de 100 mil resultaram em morte.

Em Minneapolis, no Estado do Minnesota, granadas de gás lacrimogéneo e de atordoamento e balas de borracha foram a resposta dos polícias a quem as multidões atiravam objetos. Para controlar a situação, o governador do Minnesota, Tim Walz, anunciou a mobilização dos 13 mil soldados da Guarda Nacional do Estado, algo que não acontecia desde a II Guerra Mundial, e pediu ajuda ao Departamento de Defesa.

Unidades da polícia militar foram colocadas em estado de alerta para uma eventual intervenção em Minneapolis, no prazo de quatro horas, precisou o Pentágono. A polícia militar só pode intervir em território norte-americano em caso de insurreição.

Nas ruas de Chicago, ocupadas por centenas de pessoas, um carro da polícia foi incendiado – à semelhança do que aconteceu em Atlanta ou em Miami -, uma pessoa foi vista a queimar a bandeira dos Estados Unidos e pelo menos um automóvel estava capotado.

Já em Nova Iorque, mais de 200 pessoas foram detidas na sequência de confrontos com as autoridades. Um vídeo amador divulgado online mostra um carro da polícia a ser conduzido contra uma multidão para a dispersar. “Podiam tê-los morto e não sabemos quantos ficaram feridos”, lamentou Alexandria Ocasio-Cortez, membro do Congresso dos EUA.

O presidente da Câmara de Nova Iorque, Bill de Blasio, afirmou, por outro lado, que os manifestantes estavam a atacar o veículo da polícia e explicou que a maioria dos episódios de violência registados foram instigados por pessoas de fora que pretendiam apenas entrar em confrontos e vandalizar e assaltar estabelecimentos, utilizando os protestos como pretexto. As autoridades acreditam que esse fenómeno se repetiu por todos os Estados na última noite.
Biden defende protestos mas condena violência
Em Washington, junto à Casa Branca, as granadas de gás lacrimogéneo e focos de incêndio também marcaram a noite. O Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que se os manifestantes tivessem ultrapassado a cerca que protegia a Casa Branca, “teriam sido recebidos com os cães mais ferozes e as armas mais ameaçadoras” que já viu.

O líder prometeu ainda "travar a violência coletiva", após várias noites de distúrbios. Trump, que denunciou já repetidamente a "morte trágica" de Floyd, atribuiu os confrontos a "grupos da extrema esquerda radical" e ao "Antifa" (antifascistas).

"Não devemos deixar que um pequeno grupo de criminosos e vândalos destrua as nossas cidades", declarou.

Joe Biden, o candidato democrata à presidência norte-americana, também condenou este domingo a violência dos protestos, mas simultaneamente criticou a posição de Donald Trump em relação aos mesmos.

"Manifestar-se contra tal brutalidade [usada contra George Floyd] é um direito e uma necessidade", afirmou o candidato em comunicado, advertindo, porém, que "incendiar cidades e provocar a sua destruição gratuita ou a violência que põe vidas em perigo já não é [um direito]".

As declarações chegam um dia depois de vários membros da campanha eleitoral de Biden terem anunciado que doaram verbas para que os detidos durante os protestos pudessem pagar as fianças e sair da prisão.

O afro-americano George Floyd, de 46 anos, foi morto na segunda-feira às mãos da polícia, depois de ter sido detido sob suspeita de ter tentado usar uma nota falsa de 20 dólares (18 euros) para comprar tabaco num supermercado de Minneapolis, no estado de Minnesota.

Nos vídeos feitos por transeuntes e difundidos pela internet, um dos quatro agentes que participaram na detenção tem um joelho sobre o pescoço de Floyd durante mais de oito minutos, apesar de o homem ter repetido várias vezes que não conseguia respirar.

Os quatro foram já despedidos da força policial e o agente Derek Chauvin, que imobilizou Floyd com o joelho, foi acusado de homicídio em terceiro grau. Os manifestantes acreditam, porém, que esta acusação não é dura o suficiente e pedem que os outros três agentes envolvidos no episódio também sejam acusados.

c/ agências
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